Quando chegaram as férias de Natal, tivemos o tão desejado reencontro com os nossos amigos israelitas e seus filhos, aqui, em nossa casa. Temos uma grande amizade desde há 14 anos, altura em que iniciámos os nossos estudos para o doutoramento na Universidade de Cambridge. Eles ficaram por lá, nós regressámos ao nosso país. Sendo eles judeus e nós, muçulmanos xiitas ismailitas, trocámos presentes pelo Hannukah e pelo Dia do Imam, e também partilhámos do espírito geral português de celebração do nascimento de Jesus. Sendo judeus e muçulmanos europeus, se não fosse a celebração em redor do nascimento de Cristo, talvez não fosse possível o reencontro nesta altura do ano. A época evocava factos significativos das nossas identidades religiosas e a importância das tradições, da educação e dos valores no futuro das vidas dos nossos filhos. Para aqueles que costumam ler o meu blogue, saberão exactamente que, ao dizer isto, não pretendo de forma alguma, minimizar o importante papel que o Profeta Issa (Jesus) teve no entendimento e na formação da religião que pratico.
À medida que o Velho Ano fechava os seus dias, e sendo muçulmanos europeus, juntá-mo-nos aos nossos amigos e vizinhos do prédio para receber o Novo Ano. Integrá-mo-nos nas tradições comuns e enviámos a todos os nossos amigos, familiares e amados, os melhores votos para 2010. Através dos telemóveis e da Internet ligá-mo-nos ao mundo, e o mundo estava ligado a nós, pelo pensamento, nos corações, e nas orações.
No entanto, talvez porque esteja mais exposta e seja mais desafiada a reflectir sobre as identidades conflituosas e confusas, não posso deixar de sentir receio sobre o presente e o futuro das relações humanas, especialmente daquele que tem medo do Outro - do desconhecido, do menos vísivel, ou mediatizado, contudo real, e não necessariamente demonizável. Para tornar este pensamento mais claro, vou usar o exemplo da história contada por Azim Nanji que encontrei num artigo inspirador
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"Alguns homens sábios que estão sentados numa praça, numa aprazível noite de verão, faziam o que os homens sábios fazem - partilhavam um tipo de sabedoria, ao mesmo tempo que tentavam resolver os problemas do mundo! Enquanto estavam sentados num banco, observavam uma jovem mulher que andava de um lado para o outro, parecendo que procurava algo que perdera. Não resistindo à curiosidade, perguntaram-lhe o que procurava e ela respondeu: 'perdi um brinco'. Perguntaram de novo: 'mas sabe exactamente onde o perdeu?'. 'Não, respondeu a mulher. Não sei onde o perdi'. Perplexos perante a resposta, os homens sábios questionaram de novo: ' Então porque procuras neste lugar apenas, andando de um lado para o outro?' E ela responde: ? Porque este é o único lugar onde existe um poste de iluminação'"
Nanji refere-se aos "islãos" que estão debaixo de outras lâmpadas, menos mediáticas, mas que existem, e para os quais também devemos olhar e conhecer. A esse desejo acrescentaria os votos de iluminação sobre a nossa humanidade comum, construída sobre a diferença. Dela retiramos a beleza e a riqueza das mundividências que foram moldando civilizações humanas e dando respostas variadas e criativas perante crises económicas, sociais, e desastres naturais. Que 2010 seja o início de um compromisso de construção, independemente da crença, de relações fundadas no respeito e na dignificação da nossa humanidade comum.
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*A Salaam significa paz