A actual crise internacional tem obrigado a que se proceda a uma intensa discussão sobre o modo como os problemas económicos e sociais devem ser lidados no futuro. Paralelamente a isso, a institucionalização da recomposição do poder a nível mundial e regional está no centro do debate.
Com as devidas diferenças no tempo, os dias de hoje recordam a década de 70 com o primeiro choque petrolífero, a recessão económica que se abateu sobre a economia mundial e em particular nos países industrializados e a voz crescente dos países do então apelidado politicamente correcto Terceiro Mundo. Os tempos não eram os melhores para os países desenvolvidos e até uma Carta da Nova Ordem Económica Internacional foi aprovada na ONU. Mas, como se sabe, a dita recomposição perdeu-se na alameda.
Será que a história repetir-se-á? Dificilmente. O peso das economias em desenvolvimento cresceu muito e o do grupo dos países emergentes ainda mais. Já não é só retórica, é uma realidade. A sigla BRIC ocorre imediatamente mas muitos outros países têm hoje um poder negocial diferente. É neste quadro que se entende a necessidade de dar legitimidade internacional ao G20.
Contudo, diversos problemas têm de ser resolvidos pelo caminho. Ao contrário do que muitos advogavam, o FMI não saiu diminuído. No entanto, exige-se uma alteração nas quotas de cada membro. De acordo com um estudo recente, há países que estão ali claramente sub-representados quando se compara em rácio a quota individual de cada país no FMI com a sua quota ao nível do PIB mundial. Turquia, China, Brasil, Índia, Rússia, entre outros, estão sub-representados. Nos sobrerrepresentados encontramos grande parte dos países da OCDE. Para compensar os primeiros, terão de ceder. Como e até onde?
O outro problema tem que ver com a representatividade do G20. Olhando do ponto de vista continental, encontramos a América Latina com três países: Brasil, Argentina e México. Fizeram por isso. Para não falar do caso asiático. Mas África (53 países) está representada apenas pela África do Sul. O que isto demonstra é que se África é, para muitos, o continente do futuro, ainda tem um longo e duro caminho pela frente. E não se trata de conspiração...
Manuel Ennes Ferreira
Professor do ISEG e "think tank" Grupo África-IPRI
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Outubro de 2009