Uma frase do líder do PSD/Lisboa, apoiante de Pedro Passos Coelho, nas recentes directas para a liderança do PSD, resume na perfeição o clima vivido em Guimarães. "O próximo ano é um ano de combate e nós estaremos obviamente colaborantes", afirmou Carlos Carreiras. Muitos poderiam ter dito o mesmo neste Congresso.
Logo na abertura, um militante de base tinha dado o sinal dos tempos quando, ao subir à tribuna, confessou o que lhe ia na alma: "por acaso a Drª Manuela Ferreira Leite não foi a minha escolha. Mas está escolhida, está escolhida". Foi com este pragmatismo que muitos daqueles que há apenas três semanas estiveram ao lado de Pedro Passos Coelho e Pedro Santana Lopes decidiram distanciar-se e ficar à solta. Quem sabe se dispostos a negociar com uma líder que tem centenas de lugares para distribuir até às eleições de 2009. Santana não deixou passar a fuga em branco: "como é que estruturas que apoiaram um certo candidato há três semanas podem estar agora do outro lado? O que é a ética na política?".
Os congressistas aplaudiram-lhe o discurso, mas Santana perdeu tropas pelo caminho. Até Luís Montenegro, que foi porta-voz da sua campanha, decidiu ficar de fora das listas santanistas e optou por apresentar uma lista própria, cabendo a Pedro Pinto representar os verdadeiros indefectíveis de Santana, numa candidatura autónoma aos órgãos do partido.
A proximidade de um ano eleitoral em que caberá à nova líder social-democrata mobilizar equipas, colocar pessoas e, sobretudo, apontar ao partido uma hipótese de regresso ao poder, explica grande parte deste clima "colaboracionista", que o autarca Fernando Costa, presidente da câmara das Caldas da Rainha e um dos "dinossauros" autárquicos do PSD, também traduziu na perfeição.
"Eu apoiei Pedro Passos Coelho mas vamos todos acabar com reservas mentais e apoiar a Drª Manuela, afirmou, com o argumento de que "neste momento,e perante o quadro eleitoral que se aproxima, todos temos que ser bombeiros e não bombistas". Terá sido por essas e por outras que figuras como Carlos Carreiras, presidente da distrital de Lisboa, e Marco António Costa, presidente da distrital do Porto, ambos apoiantes de Passos Coelho, optaram por não integrar a lista ao Conselho Nacional do homem que sonharam ver a liderar o partido.
Marco António, o chefe da poderosa distrital do Porto, optou por apresentar uma lista própria e Carreiras distanciou-se do processo. Pelos bastidores do Congresso, o trabalho de José Luís Arnaut deu nas vistas, a sinalizar hipóteses de aproximação a figuras de peso no aparelho, com resultados visíveis. Agostinho Branquinho, um dos homens com peso no PSD/Porto, a cuja distrital presidiu, e que apoiou Passos nas directas, foi alvo de impressionantes manobras de sedução por parte de dois negociadores natos - Miguel Relvas, pelo lado de Passos Coelho, e Arnaut, pelo lado de Ferreira Leite. Acabou por apresentar uma lista própria ao Conselho Nacional, retirando apoios a Passos, e deverá ser convidado para vice-presidente do Grupo Parlamentar. No final do processo, José Luís Arnaut não escondia a satisfação. Depois de ter sido secretário-geral do partido durante mais de seis anos e embora se tenha afastado das lides há já bastante tempo concluía: "isto é um pouco como andar de bicicleta".
Para a história deste Congresso ficam dois discursos tão autênticos quanto o de Manuela Ferreira Leite: o de Pedro Passos Coelho e o de Pedro Santana Lopes, ambos a exigirem clarificações à nova líder e a marcarem as suas divergências com o rumo que escolheu para o partido. Nem um nem outro claudicou ao clima colaboracionista. Ambos fizeram juras de lealdade e ajuda ao PSD, com vista a uma vitória em 2009. Mas ambos sabem que, no próximo ano, e até se ver quanto vale Manuela, o seu tempo volta a ser de espera.