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Um café por Figo

Num dia de espera no porto de Padang testa-se o pulso à selecção nacional.

Gonçalo Cadilhe
9:00 Domingo, 31 de maio de 2009

O futebol entrou tarde na minha vida, e mesmo assim não por opção pessoal mas por obrigações profissionais. Até aos 34 anos eu mal sabia distinguir um penálti de uma baliza, um fiscal de linha de um fora de jogo. Foi durante esse meu épico pessoal da volta do mundo sem aviões que precisei de desenvolver um diálogo coerente e sério sobre futebol. A viagem decorreu nos anos de 2003 e 2004, durante esse crescendo que conduziu ao Euro 2004. Por onde quer que eu passasse e desvendasse a minha nacionalidade, recebia logo um "Ah!, Figo". E depois "Nuno Gomes, Ronaldo, Rui Costa", e por aí fora. Nas primeiras vezes passava pela vergonha de ter que perguntar quem eram estes nomes e apelidos que até pareciam portugueses. Depois, acabei por decifrar o que esses sotaques exóticos pretendiam transmitir com pasmo e aprovação: estavam a honrar a minha nacionalidade enumerando os representantes da selecção nacional de futebol.

Aprendi a composição da equipa lusa, as suas fraquezas e as suas virtudes, quem atacava, quem defendia, quem estava já na curva descendente, quem eram as novas promessas. Anos mais tarde, ou seja, agora, continuo a ver a minha nacionalidade homenageada com o mesmo pasmo e aprovação em idiomas exóticos.

O idioma de turno hoje é o Bahasa, a língua oficial da Indonésia. Quem o fala é o meu companheiro de mesa do barracão que serve cafés e biscoitos do porto de Padang. Linguisticamente, e culturalmente, ninguém podia estar mais longe de mim do que este estivador. A incompreensão é total. Mas temos uma coisa em comum: uma lista de jogadores.

Espero o ferry semidestroçado que uma vez por semana liga Padang ao arquipélago das Mentawai. Espero sentado. Um estrangeiro é um bom pretexto para uma pausa, um café, um cigarro. Como é pequeno o mundo nos pequenos prazeres do quotidiano. Mais estivadores juntam-se a nós. Voltamos a enumerar os meus jogadores com pasmo e aprovação.

"Ricardo" lança um deles para a mesa. Consenso do grupo mais suado de estivadores. "Deco", sugere outro. Muitos abanões positivos de cabeça nos bancos mais à sombra. "Cristiano Ronaldinho", diz um terceiro. Movimento agitado da bancada a bombordo. "Figo", exclamo eu. "Figo", repete o coro com solenidade.

O que tem o Figo que os outros não têm? Continua a ser o mais popular e respeitado jogador português em idiomas exóticos, tanto quanto sei. Será aquela cara, metade ocidental, metade médio-oriental, que sugere tolerância e antiguidade, e lhe conquista as simpatias do sul do mundo? Será a ideia de fiabilidade e sentido de honra que acompanha a expressão sisuda? Será a Fundação, a vida de família, os valores mais altos?

O café na Indonésia, mais do que a bebida nacional, é uma bebida ritual. A cerveja não faz parte do imaginário colectivo, estamos num país quase todo muçulmano e o álcool, como se sabe, não fica bem. Deita-se uma colher de café de saco num copo de água a ferver, espera-se uns minutos que o pó afunde, e bebe-se da taça enquanto existe só líquido. Saber parar antes dos lábios e os dentes ficarem cheios de borra é uma arte que eu ainda tenho que dominar. O meu terceiro "Luís Figo" exclamado sai-me da boca junto com uma rajada de pontos negros.

Reparo melhor no aspecto duro e desgraçado dos estivadores do porto de Padang. Na percepção ocidental, cada um destes homens podia representar a parte do serial killer nos filmes do Sandokan: é assim que nós imaginamos o malaio mau da fita. E, no entanto, tratam-me com candor e amizade. E não me deixam pagar os meus cafés. Cada um custa 4 mil rupias, insisto que pago o meu, aliás que pago a rodada. Não deixam.

Faço contas. 4000 rupias são cerca de 25 cêntimos de euro. Um ordenado mensal na Indonésia andará à volta dos cem euros. Um ordenado médio em Portugal andará à volta dos 800 euros, quanto custaria este café lá? Regra de três simples, 25 cêntimos está para cem euros como x está para 800.

O equivalente em generosidade para mim seria pagar uma conta de 2 euros num bar a um estrangeiro desconhecido. É provável que não o fizesse. A não ser que ele viesse da estiva do porto de Padang - ou, mais simplesmente, que eu o associasse a uma ideia de honradez e tolerância, a valores mais altos e profundos.


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