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O que aprendi com a experiência de Embaixador

O que aprendi com a experiência de Embaixador

15:54 Sexta feira, 31 de dezembro de 2010

Este é meu último post enquanto Embaixador do Reino Unido em Portugal, e este blog acaba com o fim deste ciclo. Queria agradecer a todos, leitores e comentadores, pela vossa paciência com a minha mente errante e pensamentos aleatórios, expressos num Português às vezes estranho. Peço a vossa tolerância, uma mais vez - gostava de partilhar convosco algumas das lições que aprendi sobre o trabalho de um Embaixador.

- É muito mais fácil ser-se embaixador num país de que realmente se gosta, e eu gosto - faz uma enorme diferença!

- Grande parte da relação formal entre os dois países demonstra-se com respeito e preocupação mútua. O meu trabalho é, entre outras coisas, mostrar esse respeito.

- Parte do trabalho de um embaixador é dar a cara, é uma parte de que gostei. Não nos ficarmos pelos corredores dos Ministérios é muito importante.

Muitas pessoas têm uma ideia preconcebida sobre o que faz um embaixador e da postura que deve ter. É tentador seguir essas ideias, mas é um erro. É importante sermos nós próprios, existem muitas maneiras diferentes de se ser embaixador, e muitos estilos diferentes.

- A parte mais importante de um relacionamento entre dois países não é a parte formal, é a parte humana. O Reino Unido e Portugal conhecem-se bem, são nações antigas, com séculos de existência. É isso que importa, especialmente quando existem diferenças de opinião entre os dois países, e por vezes existem. O contacto humano, de estudantes, empresários, turistas, até mesmo de marido e mulher (como no meu caso) é a base desta relação, e que assim continue por muitos e bons anos.

Obrigado a todos, por tudo, e até logo, espero. Um abraço amigo.

Alex Ellis

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Coisas que nunca deverão mudar em Portugal

Coisas que nunca deverão mudar em Portugal

9:55 Segunda feira, 20 de dezembro de 2010

Portugueses: 2010 tem sido um ano difícil para muitos; incerteza, mudanças, ansiedade sobre o futuro. O espírito do momento e de pessimismo, não de alegria.  Mas o ânimo certo para entrar na época natalícia deve ser diferente. Por isso permitam-me,  em vésperas da minha partida pela segunda vez deste pequeno jardim, eleger dez coisas que espero bem que nunca mudem em Portugal.

1. A ligação intergeracional. Portugal é um país em que os jovens e os velhos conversam - normalmente dentro do contexto familiar. O estatuto de avô é altíssimo na sociedade portuguesa - e ainda bem. Os portugueses respeitam a primeira e a terceira idade, para o benefício de todos. 
 
2. O lugar central da comida na vida diária.  O almoço conta - não uma sandes comida com pressa e mal digerida, mas uma sopa, um prato quente etc, tudo comido à mesa e em companhia. Também aqui se reforça uma ligação com a família.
 
3. A variedade da paisagem.  Não conheço outro pais onde seja possível ver tanta coisa num dia só, desde a imponência do rio Douro até à beleza das planícies  do Alentejo, passando pelos planaltos e pela serra da Beira Interior. 
 
4. A tolerância. Nunca vivi num país que aceita tão bem os estrangeiros. Não é por acaso que Portugal é considerado um dos países mais abertos aos emigrantes pelo estudo internacional MIPEX.
 
5. O café e os cafés. Os lugares são simples, acolhedores e agradáveis; a bebida é um pequeno prazer diário, especialmente quando acompanhado por um pastel de nata quente.
 
6. A inocência.   É difícil descrever esta ideia em poucas palavras sem parecer paternalista; mas vi no meu primeiro fim de semana em Portugal, numa festa popular em Vila Real, adolescentes a dançar danças tradicionais com uma alegria e abertura que têm, na sua raiz, uma certa inocência.
 
7. Um profundo espírito de independência. Olhando para o mapa ibérico parece estranho que Portugal continue a ser um país independente. Mas é e não é por acaso. No fundo de cada português há um espírito profundamente autónomo e independentista.
 
8.  As mulheres. O Adido de Defesa na Embaixada há quinze anos deu-me um conselho precioso: "Jovem, se quiser uma coisa para ser mesmo bem feita neste país, dê a tarefa a uma mulher". Concordei tanto que me casei com uma portuguesa.
 
9.  A curiosidade sobre, e o conhecimento, do mundo. A influência de "lá" é evidente cá, na comida, nas artes, nos nomes. Portugal é um pais ligado,  e que quer continuar ligado, aos outros continentes do mundo.      
    
10.  Que o dinheiro não é a coisa mais importante no mundo. As coisas boas de Portugal não são caras. Antes pelo contrário: não há nada melhor do que sair da praia ao fim da tarde e comer um peixe grelhado, acompanhado por um simples copo de vinho. 
 
Então,  terminaremos a contemplação do país não com miséria, mas com brindes e abraços. Feliz Natal.

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A uva e a parra de Cancún

A uva e a parra de Cancún

16:09 Terça feira, 14 de dezembro de 2010

Os resultados de Cancún foram melhores que o esperado - ao contrário do que aconteceu em Copenhaga há um ano, onde houve "muita parra e pouca uva". Talvez devamos prosseguir com a abordagem "low key" para alcançar melhores resultados no combate às alterações climáticas.  

Parabéns a todos os envolvidos nas negociações que decorreram ao longo das últimas duas semanas no México sobre o esforço colectivo do mundo perante uma das principais ameaças com que nos que defrontamos - as alterações climáticas. Um esforço comum, com destaque para o papel desempenhado pela Presidência Mexicana; pela União Europeia, que esteve unida e determinada; e - puxando a brasa à sardinha britânica, para o trabalho do nosso Ministro que teve um papel de relevo num dos assuntos mais delicados..... A Conferência das Partes das Nações Unidas sobre o Clima (para utilizar o título correcto da reunião), conseguiu alcançar resultados concretos para fazer avançar as negociações até um acordo global vinculativo para reduzir as emissões de CO2 e assim fazer abrandar e depois inverter o processo de aquecimento global.  Este mapa  mostra as consequências de não atacarmos o problema do aquecimento global. 

 mostra as consequências de não atacarmos o problema do aquecimento global.
 
Em concreto, o que ficou acordado em Cancún foi:
 
  • O reconhecimento oficial de que os actuais níveis de compromisso para a redução de emissões terão que aumentar
  • Um enquadramento para se poder pagar a certos países para se adaptarem  às inevitáveis alterações climáticas e para fazerem opções económicas de baixo carbono no futuro - nomeadamente a criação de um Fundo Verde
  • Acordo para a partilha de novas tecnologias de forma a que os países em desenvolvimento possam desenvolver processos mais ecológicos para produzir electricidade
  • Acordo sobre um sistema para monitorizar e reportar níveis nacionais de emissões de carbono
  • Acordo para diminuir a desflorestação
Não pretendo exagerar relativamente àquilo que foi conseguido; ainda falta o grande passo para convencer os maiores emissores do mundo (EUA, China) a fixarem objectivos, com valores concretos que possam ser validados, no que diz respeito às emissões de gases com efeito de estufa. Sem isso, não há acordo que valha muito. Mas esta foi a primeira vez que países desenvolvidos e em desenvolvimento - mesmo os grandes emissores -, estiveram reunidos conjuntamente no âmbito deste processo das Nações Unidas.

Isto foi um progresso para o combate às alterações climáticas e para o multilateralismo numa perspectiva mais ampla e, o que é mais importante, deverá representar um forte sinal de confiança para aqueles que investem to na economia verde.  Podemos afirmar com confiança que regressámos ao bom caminho.  Há hipóteses de se alcançar um acordo global na África do Sul daqui a um ano. E também - como disse William Hague na sua declaração no final da cimeira -, o acordo é uma prova da utilidade do caminho multilateral - problemas globais precisam de soluções globais.  

E as alterações climáticas?

19:07 Quinta feira, 2 de dezembro de 2010

Com todas as atenções viradas para mercados de obrigações, Euro, taxas de juro e sistema bancário, não surpreende que se dê menos destaque à cimeira do clima deste ano em Cancun do que à do ano passado, em Copenhaga. Mas é, ainda assim, importante.

Lembram-se da Conferência de Copenhaga sobre alterações climáticas? Era suposto ter salvo o mundo, através da obtenção de um acordo global e vinculativo para redução de emissões de gases de efeito estufa, que visava reduzir o impacto humano no fenómeno das alterações climáticas. Falhámos. Não completamente, porque se conseguiu uma série de compromissos políticos. Mas não houve um acordo global e vinculativo.


Então e o que acontece a seguir? Durante esta semana e a próxima terá lugar uma outra reunião da ONU com o objectivo de se chegar a esse acordo global e vinculativo para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Não será alcançado . Acordos globais e vinculativos demoram muito tempo a negociar, como vos dirá qualquer pessoa que tenha negociado acordos comerciais à escala global (levam uma década, pelo menos). Mas o mundo precisa de um acordo, porque as alterações climáticas não pararam e continuam a afectar-nos. A última década no Reino Unido foi a mais quente desde que há registos e este ano será, provavelmente, o mais quente ou o segundo mais quente de sempre - para surpresa de cientistas. As previsões para o futuro indicam que a temperatura global continuará a aumentar e que Portugal será um dos países europeus com os aumentos de temperatura mais elevados .
 
Esta não é, no entanto, uma história só de fracassos. O Reino Unido já atingiu o objectivo previsto no último acordo das Nações Unidas em matéria de alterações climáticas (Kyoto em 1998) de reduzir as suas emissões em 12,5% em relação a 1990; na realidade, já conseguiu um corte superior aos 19%. E a União Europeia está bem encaminhada para cumprir a sua própria meta de um corte de 20% até 2020. Em 2009, as suas emissões estavam 17% abaixo dos níveis de 1990. 
  
Mas os maiores emissores do mundo não estão na Europa. A China e os EUA são o primeiro e segundo maiores emissores do mundo (embora, per capita, a China esteja bem atrás dos EUA ). Eles, e as grandes economias emergentes para além da China, são cruciais para qualquer acordo global. 
  
Então, no meio de toda esta agitação e preocupação com a economia, não esqueçamos as alterações climáticas.

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A Cimeira da NATO

15:21 Quarta feira, 24 de novembro de 2010

Se o maior problema da Cimeira da NATO foram os blindados que não chegaram para o motim que não aconteceu, é um indicador de que a cimeira foi um sucesso. E foi.

Para lá da fanfarra, a Cimeira da NATO deu origem a algo de substancial. Em três áreas em particular:
 
- Modernizou o conceito estratégico da NATO, de modo a que se encaixe na realidade que a NATO enfrenta hoje, em particular as novas ameaças como o terrorismo, os ataques cibernéticos e outros.
 
- Estabeleceu as bases para um novo sistema de defesa anti-míssil, que vai proteger todos os países da NATO. Aqui está um exemplo da forma de actuar da NATO em relação a uma nova ameaça, de um dos muitos países que podem potencialmente desenvolver sistemas de mísseis balísticos. O acordo para um trabalho conjunto nesta questão revela uma nova relação entre NATO e Rússia, que deverá trazer benefícios a ambos.
 
- Fixou um calendário para a transferência da responsabilidade pela segurança do Afeganistão para as forças afegãs, com início no próximo ano. É isso que o presidente Karzai deseja, e é isso que queremos. Estão cerca de 10 mil militares britânicos no Afeganistão, e temos estado, desde 2006, envolvidos em alguns combates muito difíceis, na província de Helmand por exemplo, onde, infelizmente, se têm registado mortes com regularidade. Temos dado uma contribuição significativa para a formação das forças afegãs, ainda assim a contribuição adicional de formadores de Portugal é muito bem-vinda. O primeiro-ministro Britânico David Cameron anunciou que vai retirar as tropas de combate até 2015, mas que, naturalmente, continuaremos a trabalhar no aprofundamento dos laços diplomáticos e comercias, na ajuda ao desenvolvimento e na segurança do Afeganistão. O objectivo sempre foi o de dar condições aos afegãos para serem responsáveis pela sua própria segurança, de modo a que a Al-Qaeda não possa voltar a utilizar o Afeganistão como base para ataques contra o Ocidente, como o de 11 de Setembro.
 
É muito para uma cimeira de 24 horas. Foi muito bem organizada, de forma hospitaleira, por Portugal, apesar da chuva e da preocupação com a economia. Uma vez mais, Portugal mostrou a sua melhor face quando os visitantes estrangeiros estiveram de visita. Parabéns.

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In memoriam D. Adelina Pires MBE

In memoriam D. Adelina Pires MBE

19:22 Terça feira, 16 de novembro de 2010

Morreu a D. Adelina.  Tinha 100 anos e dedicou 70 anos da sua vida a cuidar do cemitério britânico em Lisboa.

Sra Adelina Pires, 1996
Sra Adelina Pires, 1996
Foto gentilmente cedida por Jorge Paula, fotografo do Correio da Manhã

  A Sra  Adelina Pires, guardiã do Cemitério Britânico em Lisboa, que dedicou mais que 70 anos da sua vida a cuidar e a guardar este Cemitério  em Lisboa, morreu na semana passada com a bonita idade de 100 anos.  Tinha sida condecorada por Sua Majestade Britânica, a Rainha Isabel II, em reconhecimento dos serviços prestados à comunidade britânica em Portugal.

Bem merecia esta condecoração. A Sra Adelina foi desde há longos anos uma figura muito conhecida e estimada no seio da comunidade britânica em Portugal, pela sua dedicação à Igreja e ao Cemitério Britânico em Lisboa, sendo considerada como um marco importante na presença britânica em Portugal.  A Sra Adelina veio viver para o jardim do Cemitério Britânico em 1937 quando casou com Pedro Pires, na altura sacristão e fabricante de caixões.  Posteriormente, trabalhou como encarregada da limpeza da Igreja de São Jorge (Estrela) e como empregada doméstica de diversos padres da Igreja Anglicana. Após a morte do seu marido, ela continuou a trabalhar cuidando da Igreja e do Cemitério, sem receber qualquer salário.  Até quase ao dia da sua morte, apesar da sua idade avançada, ela continuava a prestar serviço no Cemitério de forma leal e dedicada.  A Sra Adelina foi, e é, extremamente apreciada pelos preciosos conhecimentos que foi acumulando ao longo da sua vida sobre o Cemitério Britânico, sobre a presença de famílias britânicas em Portugal e sobre as personalidades britânicas de relevo que morreram em Portugal e ali foram enterradas. Ela foi sempre uma guardiã dedicada, tendo estado permanentemente disponível ao longo dos anos para orientar todos aqueles que quiseram visitar o Cemitério e para partilhar com eles todos o seus conhecimentos e as suas valiosas memórias.

Tal como o personagem Firs na peça "O Ginjal" (ou o Pomar das Cerejas) de Tchekhov, a Sra Adelina  estava profundamente enraizada na terra que a rodeava; fazia parte integrante do cemitério e era difícil distingui-la dele.  Mas ao contrário do personagem naquela peça de teatro, a Sra Adelina  não foi nem será esquecida -  longe disso; ela continua a fazer parte do seu sítio, um oásis em termos de beleza natural e quietude no coração da cidade de Lisboa.

Obrigado Senhora Adelina!

Alex Ellis

Que flor vermelha é essa na sua lapela?

Que flor vermelha é essa na sua lapela?

16:39 Quarta feira, 10 de novembro de 2010

Não é um cravo, é uma outra flor vermelha, a papoila, símbolo de comemoração e recordação daqueles que perderam a vida na guerra. Vou usá-la com orgulho este ano para marcar o Dia do Armistício.

Vários amigos portugueses têm-me perguntado, nos últimos dias, o porquê de usar uma pequena flor vermelha - uma papoila - na lapela do casaco. Porque o Reino Unido, em conjunto com outros países da Commonwealth, comemora o Rememberance Day a 11 de Novembro. A papoila é o símbolo desse dia. Terão lugar cerimónias nas igrejas anglicanas espalhadas por Portugal e eu vou estar numa delas no Porto , como fiz no ano passado na Madeira e no ano anterior no Algarve .

O hábito de usar uma flor remonta à Primeira Guerra Mundial, quando as batalhas em França e na Bélgica agitavam de tal forma as terras que as sementes de papoila, há muito adormecidas, floresceram no chão como nunca. Este fenómeno inspirou o soldado canadiano John McCrae a escrever o seu famoso poema "In Flanders Field" , no qual a papoila, com o seu vermelho vivo, simboliza os nossos mortos de guerra. As duas primeiras linhas são poderosas:

'In Flanders Field, the poppies grow,
Between the crosses, row on row.'

Assim, a primeira razão porque uso uma papoila é para lembrar com gratidão o sacrifício daqueles que morreram na guerra para que possamos agora viver em paz. O Dia do Armistício e a recordação dos mortos são um acontecimento internacional; vários países associam-se às comemorações em Portugal, que também recorda os seus mortos todos os anos neste dia, num evento organizado pela Liga dos Combatentes . E um momento para lembrar os sacrifícios dos Portugueses, por exemplo aqueles que morreram em La Lys

Os túmulos das vítimas britânicas têm sido preservados ao longo do tempo. Túmulos e memoriais estão marcados e são mantidos pela Comissão de Túmulos de Guerra da Commonwealth. Esta notável organização cuida das últimas moradas de mais de 900 mil soldados que jazem em lugares marcados e de mais de 700 mil inscrições com nomes de desaparecidos. Como disse Albert Schweitzer, os túmulos destes soldados são os "maiores pregadores da paz".

Uso também a papoila para apoiar a Poppy Appeal , que angaria fundos para a Royal British Legion . Esta instituição de solidariedade dá apoio aos milhões que serviram e servem as nossas Forças Armadas e também às suas famílias. Este ano, a ênfase é a ajuda àqueles que estão ou estiveram em missão no Afeganistão. Pode encontrar mais detalhes sobre como pode, em Portugal, ajudar esta causa aqui .

Por tudo isto, este ano em Novembro voltei a usar a minha papoila com orgulho e gratidão.

A inutilidade e a utilidade da arte

A inutilidade e a utilidade da arte

16:55 Terça feira, 26 de outubro de 2010

A ligação entre o debate sobre os fins da arte e a personificação da criatividade num membro de uma organização para pessoas com deficiência no seu desenvolvimento intelectual.

Para que servem as artes? Para nada, segundo vários artistas que ouvi debater esta questão há umas semanas numa conferência do Institute of Ideas , que teve o apoio do Instituto Britânico . Os artistas fizeram questão de rejeitar a ideia de serem "úteis", de se sentir obrigados a justificar a sua existência através de qualquer benefício económico ou social; apesar das tentativas do Professor Augusto Mateus de explicar que sim, há   benefícios económicos (entre outros) que vêm da criatividade. "Orgulhosamente inútil" não é um slogan para todos, mas os artistas fizeram uma eficaz rejeição do conceito de utilidade. Tamanha convicção tem uma tradição longa; posso citar como exemplos deste raciocínio dois dos meus poetas preferidos - "poetry makes nothing happen" escreveu WH Auden no seu epitáfio sobre WB Yeats , e o próprio Yeats mostrou o seu desdém pela utilidade pública, ou pelo menos, pela popularidade da arte, no seu poema sobre um potencial mecenas para a Galeria Municipal de Dublin.

Um comentário nesta orgia de negação veio de um participante que disse que a arte é intrínseca a qualquer ser humano. Concordo plenamente; para mim o acto criativo, de auto-expressão, e tão fundamental para nós como respirar.

Pode vir em muitas formas. Vi uma na semana passada, no contexto de um evento que a Embaixada organizou com a Crinabel , uma instituição que contribui para a educação, reabilitação e integração de pessoas com deficiência no seu desenvolvimento intelectual. Parte do dia foi preenchida por uma sessão de teatro na qual participaram vários membros da Crinabel . Um deles saiu da sua cadeira de rodas para dançar, junto aos seus colegas. Fiquei de boca aberta; poucas vezes na minha vida tinha visto tanta energia, tanto desejo de expressão, tanta força num ser humano - é uma imagem que ficará na minha memória e no meu imaginário. Os fins da arte são muitos; um deles tem de ser a capacidade de nos fazer sentir vivos.

PARABÉNS, PORTUGAL!

16:35 Sexta feira, 15 de outubro de 2010

A diplomacia portuguesa conseguiu um triunfo notável com a sua vitória nas eleições para o Conselho de Segurança das Nações Unidas; fruto de uma campanha longa e difícil. E agora começa o trabalho.

Quando um Embaixador Britânico tenta explicar porque é que o seu país conta no mundo, começa por dizer que fazemos parte, como membro permanente, do Conselho da Segurança das Nações Unidas ; é um lugar de onde se podem tomar muitas decisões sobre muitas actividades diferentes, da segurança ao desenvolvimento, em todas as partes do mundo, de Cabul a Kigali.  

Daí a importância da eleição, esta semana, de Portugal para o Conselho de Segurança. Há quem pense que uma campanha eleitoral nacional já é uma maratona, seja de semanas ou de meses - mas tudo isto são "peanuts", como dizemos em bom inglês, se compararmos com a campanha para o Conselho de Segurança, que desta vez demorou, se não me engano, uma década! A Alemanha, que ganhou em conjunto com Portugal o outro lugar no grupo Ocidental do Conselho, foi encarada como "arrivista" por só ter começado a sua campanha em meados da década.    

A eleição de Portugal é uma prova da determinação do país, de uma campanha eficaz comandada pelos líderes políticos e diplomatas portugueses, e talvez, acima de tudo, do facto de Portugal ser um país com uma visão e ambição globais,  que desperta interesse pelo mundo fora, e que conhece todos os continentes. Foi sempre uma surpresa agradável para mim descobrir um português em qualquer país que tenha visitado na minha carreira, da Gronelândia, onde conheci a família de um caçador de baleias açoriano ao Darfur, onde me cruzei com um português num campo de refugiados.  

Então, com este conhecimento e visão, Portugal tem muito para oferecer ao Conselho de Segurança. Vai ser um Conselho interessante, com a participação, além dos cinco membros permanentes e Portugal, da maioria dos candidatos para um lugar permanente (Índia, Brasil, Alemanha, Nigéria e África do Sul). Quando este Conselho se exprimir em unanimidade, terá muita força.

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Os ideais que são a inspiração da República não são fáceis de representar. Qual será o melhor símbolo da República?

16:12 Quarta feira, 6 de outubro de 2010

Pensei nisto ontem quando assistia às comemorações do centenário da República. Falou-se muito sobre os valores da Republica, mas representá-los não é fácil. Uma jovem, a bandeira, o Zé Povinho?

Nas festas familiares da minha infância, muitas vezes fazíamos jogos; o meu preferido era aquele em que cada pessoa tinha que desenhar alguma coisa para que os outros membros da equipa adivinhassem o que era; podia ser uma pessoa, ou uma coisa mais abstracta; lembro muito bem que a coisa mais difícil de desenhar era um conceito, por exemplo "liberdade".  Pensei nisso ontem quando estive presente nas celebrações (foram mais isto do que só comemorações, a meu ver) do centenário da República. Os vários oradores falaram muito sobre os valores integrantes da República: liberdade, progresso, educação etc. Durante estes discursos olhei para o toldo que se estendia por cima dos convidados na Praça em frente da Câmara Municipal de Lisboa.  Ali estavam representadas varias imagens da República - uma mulher, meio nua, e um homem severo - cada um com uma função representativa; acho que vi a palavra "sufrágio" ao lado do homem severo.  A meu ver, uma imagem politica que precisa dum rótulo para explicar para o que serve, é menos eficaz que uma obra que não precisa de explicação; quando olhamos para a coluna de Nelson em Londres, ou para o Marquês de Pombal em Lisboa, sabemos quem é, e porque há uma estátua em honra eles. Mas estátuas para representar ideias abstractas (mas importantes) são menos fáceis de lembrar - talvez a melhor excepção a esta regra seja a Estátua da Liberdade - de facto os Franceses (que ofereceram a estátua aos Estados Unidos) conseguiram uma solução criativa com a encarnação dos ideais da república na personagem de "Marianne".  Então, ontem perguntei a dois sábios portugueses o que eles pensavam ser o melhor símbolo da República.  Um sugeriu a bandeira - que confesso que associo mais com Portugal e patriotismo do que com a República propriamente dita. A outra fez uma sugestão que me fez pensar muito - que o melhor símbolo era o Zé Povinho, a caricatura feita por Bordalo Pinheiro. Isto interessa-me porque os comentários que ontem receberam os maiores aplausos foram sobre o facto de que a legitimidade da República provem do povo.  

Então temos - uma jovem, a bandeira, o Zé Povinho; ou alguma outra coisa diferente. Qual será na sua opinião o melhor símbolo da República? 

 

Alex Ellis

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