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Um bife mal passado

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Alexander Ellis, Embaixador Britânico
19:04 Segunda-feira, 8 de Fev de 2010

Os meus pais - que estão a chegar à casa dos oitenta - passaram férias no Irão no ano passado. Adoraram; o povo, a cultura, a hospitalidade. Ouvi o mesmo de muitas pessoas - o sonho do meu primeiro Embaixador, quando entrei para a carreira diplomática no Foreign Office, era regressar a Teerão.

Escrevo isto para demonstrar um ponto muito simples, que as diferenças que a comunidade internacional tem actualmente com o Irão não são com o seu povo ou com a sua cultura, mas com o comportamento do seu actual regime - com quem não faz sentido fingir que está tudo bem. Há problemas, e estão a tornar-se mais sérios.

Este fim de semana, Ali Akbar Salehi, chefe do programa nuclear iraniano comunicou que o país começaria, a partir de amanhã, a enriquecer urânio a 20%, e que dez novas fábricas de enriquecimento de urânio seriam construídas no próximo ano. Não interessa se estes planos são realmente atingíveis ou não, trata-se de uma provocação à comunidade internacional. As negociações sobre o potencial nuclear do Irão têm sido longas e duras.  O país tem o direito a um programa nuclear com fins pacíficos. Mas esse direito acarreta a responsabilidade de respeitar tratados internacionais, em particular, o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. A comunidade internacional ofereceu-se muitas vezes para ajudar o Irão no seu programa nuclear civil - mas sem sucesso. A comunidade internacional tem procurado, vezes sem conta, o diálogo com o Irão - mas sem sucesso.

Porque é que esta questão é importante? Porque o Irão conta - é um país grande, importante, com um papel fundamental na estabilidade, ou instabilidade, regional incluindo no Afeganistão e no Iraque. Mas há pouca confiança da comunidade internacional em torno do actual regime iraniano - por causa das suas acções nesta matéria, por exemplo, não declarar a existência de uma fábrica de enriquecimento de urânio em Qom; e também por outras razões, como a negação de quaisquer problemas com as eleições e a repressão contra o seu próprio povo depois das mesmas.

O Irão tem o potencial para ser um player importante no plano internacional no século XXI. Mas que tipo de player? A resposta a esta pergunta é importante para os Iranianos, e não só.

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Alexander Ellis, Embaixador Britânico
15:16 Sexta-feira, 29 de Jan de 2010

Uma das conclusões mais interessantes da Conferência do Afeganistão  que se realizou ontem em Londres, e que contou com a presença do Ministro de Estado Luís Amado, foi o lançamento de um Programa de Paz e de Reintegração, que oferece alternativas económicas para aqueles que queiram renunciar à violência, cortar laços com o terrorismo, e prefiram abraçar o processo democrático. Ontem, quando dei uma entrevista à rádio, o jornalista perguntou-me se isto não era negociar com terroristas. Não podemos olhar para a situação no Afeganistão de uma maneira tão simples. De certeza que há elementos dos talibãs que nunca vão renunciar à violência, que querem lutar até ao fim. Por isso, há tantas tropas aliadas no país , incluindo agora mais dez mil soldados britânicos e a chegada iminente de reforços portugueses também. Há, e haverá, sempre um aspecto de segurança nesta campanha; sem segurança, não há desenvolvimento.

Mas há outros que participam nas acções dos talibãs, que estão com eles por razões diferentes: por causa do dinheiro, do poder, do medo. Assim, o governo do Afeganistão, com o nosso apoio, tem que oferecer uma alternativa mais interessante. Parte disto passa por mostrar que a melhor garantia de segurança vem das forças internacionais e das forcas afegãs, que estão a crescer. Outro compromisso da Conferência de Londres foi acordar um novo objectivo para aumentar o tamanho do Exército Afegão e da sua Polícia, com o apoio da comunidade internacional, para 171 e 134 mil efectivos respectivamente até final de 2011, elevando o número total das forças de segurança para mais de 300 mil. Uma outra ideia é a de oferecer trabalho e oportunidades ao maior número possível de afegãos, se eles estiverem dispostos a abandonar a violência e a renunciar ao terrorismo. Isto não é negociar com terroristas; isto é fazer o que qualquer governo deve fazer; criar o espaço dentro do qual há possibilidades duma vida melhor para a população.

Recomendo muito um artigo sobre os Talibãs que descobri através do blogue do Ministro de Negócios Estrangeiros David Milband (que, naturalmente, recomendo também) - o artigo fala em pormenor do elemento regional deste conflito e das relações profundas e complicadas entre Paquistão e Afeganistão, que estão ligadas no que diz respeito aos talibãs.

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Alexander Ellis, Embaixador Britânico
16:21 Quarta-feira, 20 de Jan de 2010

Não é fácil fazer discursos brilhantes sobre o Afeganistão. Nem o Presidente Obama, o mestre da versão moderna da retórica, conseguiu alcançar o nível habitual quando falou aos alunos de West Point no mês passado . Porquê? Porque não há escolhas fáceis, ou soluções rápidas. Esta é uma campanha de longa duração, para alcançar fins que dependem de muitos actores para além das forças armadas da ISAF .

Porque a comunidade internacional, com mais de 40 nações envolvidas, continua a lutar no Afeganistão.
Porque vai Portugal enviar, nas próximas semanas, um grupo de militares sem restrições para se juntar às forças já presentes? Citei num post , há alguns meses, as razões principais para a presença no Afeganistão. O melhor resumo destas razões ouvi-as recentemente de um General Britânico, Sir Peter Wall , que disse que a luta no Afeganistão era uma luta sobre que forma de governação resultaria - a dos Talibãs, ou uma que ofereça à população local alternativas melhores. Alternativas como, por exemplo, ir à escola ou ter acesso a cuidados básicos de saúde. A comunidade internacional quer um Afeganistão estável e seguro, soberano em toda a extensão do seu território e capaz de dar ao seu povo um governo representativo e condições para a prosperidade económica.

Mas há uma segunda pergunta. Porque nos importa a forma de governação dum território tão distante e desconhecido? Há quase dois séculos que os meus compatriotas não estavam presentes naquela parte do mundo para melhorar a forma da democracia, ou os direitos dos locais. Mas houve uma profunda mudança desde essa altura. Hoje em dia, a forma de governação no Afeganistão tem um impacto directo sobre a segurança do Reino Unido, e não só. Não se pode dissociar uma da outra.

Por isso, Gordon Brown será anfitrião, juntamente com o Presidente Karzai e Ban Ki-moon, duma conferência em Londres no dia 28 de Janeiro sobre o futuro caminho do Afeganistão . O Ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Amado será um dos participantes. Os objectivos da reunião são claros; definir as condições para o Afeganistão controlar por completo a sua segurança e  a forma como a comunidade internacional pode ajudar o Presidente Karzai a atingir as metas estabelecidas no seu discurso de tomada de posse nas áreas de:
·       segurança;
·       desenvolvimento e governação;
·       enquadramento regional e internacional.

Os três elementos estão nitidamente ligados. Não há desenvolvimento sem segurança. Mas também não há segurança sem um quadro regional mais estável. Por isso se fala em 'Af/Pak'. Foi por isso que David Miliband visitou recentemente  Paquistão .

O espírito de Obama deve manter-se. Yes we can, mesmo no Afeganistão. Mas o 'we' desta frase são muitos, que devem trabalhar juntos. Daí a Conferência de Londres.

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Alexander Ellis, Embaixador Britânico
18:54 Terça-feira, 12 de Jan de 2010

Estou a ler, devagar e às vezes com a ajuda de um dicionário ambulante, - uma maneira pouco delicada de me referir à minha mulher - "O Crime do Padre Amaro", em português. É a terceira obra do mestre português que leio, depois de "Os Maias", que é o começo obrigatório e, a seguir, a "A cidade e as serras".

Escrevo isto com uma certa trepidação. Vocês obviamente conhecem a obra de Eça de Queiroz melhor que eu. Faz parte da educação portuguesa, da cultura portuguesa. Nós temos Dickens, os franceses Zola, e vocês o tal Eça. Estou a arriscar muito ao pôr o pé em águas já bem navegadas por outros, mas não consigo controlar o meu entusiasmo. Ele é mesmo brilhante, por muitas razões. Mas, para mim, Eça é brilhante sobretudo porque consegue juntar a arte narrativa à arte descritiva, como quase nenhum outro autor que já tenha lido. Talvez seja uma sorte que, por causa das minhas limitações linguísticas, eu tenha que avançar pelo texto lentamente e, assim, possa saborear devagar cada palavra e cada frase.

Há muita coisa que me interessa nas obras que já li, nomeadamente o pano de fundo político do século XIX, que serve como entrada para a narrativa. Por exemplo, as referências no início de "Os Maias" ao encontro do avô do Jacinto com D. Miguel, a descrição do pároco miguelista da Sé de Leiria, a história liberal de Afonso da Maia.

Mas o elemento mais notável para mim nestes romances é a sensualidade. Eça de Queiroz é incapaz de descrever uma cadeira sem entrar numa descrição do tecido que a cobre, um vestido sem dizer a sua cor, uma mulher sem fazer referência aos braços, aos olhos. Porque a sensualidade nestes livros é também dos objectos, não apenas das pessoas e cobre todos os aspectos. Basta citar o fim do segundo capítulo "Amaro abriu o seu Breviário, ajoelhou aos pés da cama, persignou-se; mas estava fatigado, vinham-lhe grandes bocejos; e então por cima, sobre o tecto, através das orações rituais que maquinalmente ia lendo, começou a sentir o tique-tique das botinas de Amélia e o ruído das saias engomadas que ela sacudia ao despir-se".

Outro aspecto destas delícias descritivas está nas refeições; não só a comida - o famoso peixe que fica preso no elevador na casa do Jacinto em Paris, les petits pois à la Cohen que faz parte do hilariante jantar do Cohen, a sumptuosa cabidela do Abade da Cortegaça - mas também o ambiente à mesa. O almoço do abade e o jantar dos Cohen seguem ritmos bastante parecidos, com explosões violentas; o grito de Ega "Portugal não necessita reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão espanhola", a fúria do Amaro quando o padre Natário lhe pergunta com espanto "toma a confissão a sério?"; e depois das explosões a calma, com as frases para pacificar as almas perturbadas "há talento, há saber" do Cohen, a chegada do vinho do Porto para tranquilizar Amaro.

Ele é, de facto, um génio; e falta-me apreciar quase toda a sua obra. Algumas recomendações suas para o próximo livro?

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Alexander Ellis, Embaixador Britânico
19:18 Sexta-feira, 18 de Dez de 2009

Chegou a época do espírito natalício. Então, deixemos de lado quaisquer miserabilismos e concentremo-nos nas coisas boas - não como escape mas como realidade. Vivi em Portugal há quinze anos. Agora, de volta, quero sugerir dez coisas, entre muitas outras, que melhoraram em Portugal desde a minha primeira estadia. Não incluo aqui coisas que já eram, e ainda são, fantásticas (desde a forma como acolhem os estrangeiros até à pastelaria). Aqui ficam algumas sugestões de melhorias:

- Mortalidade nas estradas; as estatísticas não mentem - o número de pessoas que morre em acidentes rodoviários é muito menor, cerca de 2000 em 1993 e de 776 em 2008. A experiência de conduzir na marginal é agora de prazer, não de terror. O tempo do Fiat Uno a 180km/h colado a nós nas aut-estradas está a passar.

- O vinho; já era bom, mas agora a variedade e a inovação são notáveis, com muito mais oferta e experiências agradáveis. Também se pode dizer a mesma coisa sobre o azeite e outros produtos tradicionais.

- O mar; Lisboa, em 1994, era uma cidade virada de costas para o mar; poucos restaurantes ou bares com vista, e pouca gente no mar. Hoje, vemos esplanadas e surfistas em toda a parte. Muita gente a aproveitar melhor um dos recursos naturais mais importantes do país.

- A zona da Expo; era horrível em 1994, cheia de poluição, com as antigas instalações petrolíferas. Agora é uma zona urbana belíssima, com museus e um Oceanário entre os melhores que há no Mundo.

- A saúde; muitas das minhas colegas têm feito esta sugestão - a qualidade do tratamento é muito melhor hoje em dia, apesar das dificuldades financeiras, etc. A prova está no aumento da esperança de vida, de cerca de 74 em 1993 para 78 anos em 2008.

- Os parques naturais; viajei muito este ano do Gerês a Monserrate ; tudo mais limpo, melhor sinalizado, mais agradável. O pequeno jardim está, de facto, mais bem cuidado.

- O cheiro. Sendo por natureza liberal nos costumes sociais, não fui grande fã da proibição de fumar - mas, confesso, a experiência de estar num bar ou num restaurante em Portugal é hoje mais agradável com a ausência de tabagismo. E a minha roupa cheira menos mal no dia seguinte.

- A inovação; talvez seja fruto da minha ignorância do país em 1994, mas fico de boca aberta quando visito algumas das empresas que estão a investir no Reino Unido ; altíssima tecnologia, quadros dinâmicos e - o mais importante de tudo - não há medo. Acreditam que estão entre os melhores do mundo, e vão ao meu país, entre outros, para prová-lo.

- O metro de Lisboa. É limpo, rápido, acessível e tem estações bonitas.

- As cores; Portugal tem e sempre teve cores naturais bonitas. Mas a minha memória de 1994 era o aspecto visual bastante cinzento das cidades, desde a roupa até aos carros. Hoje há mais alegria - recordo um português que me disse, talvez com tristeza, que o país estava a tornar-se mais tropical. Em termos de imagem, parece-me um elogio!

Esta é a minha lista. E a sua? 

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Alexander Ellis, Embaixador Britânico
18:25 Sexta-feira, 11 de Dez de 2009

O debate sobre as alterações climáticas que se está a desenrolar em Copenhaga  faz lembrar-me muito do debate sobre a ajuda ao desenvolvimento; nomeadamente, o risco de se confundirem os meios com os fins e, assim, reduzir tudo a uma questão de dinheiro. Não estou com isto a diminuir a importância do dinheiro. Mas não é tudo.

Primeiro, a cimeira de Copenhaga. Alguns países menos desenvolvidos reclamam que, sem um pacote financeiro ambicioso para os ajudar a mitigar e a adaptar às realidades das alterações climáticas, não vai ser possível um acordo global para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. Por isso, Reino Unido, França e outros países europeus prometeram um montante substancial no Conselho Europeu de hoje para rapidamente apoiar os tais países em desenvolvimento. Mas vale sempre a pena recordar qual o objectivo - não maximizar o dinheiro gasto mas minimizar o aumento da temperatura do planeta, que já está a acontecer devido à actividade humana, segundo a grande maioria de peritos, através das emissões de gases com efeito de estufa. Gastar dinheiro para alcançar este objectivo é essencial - dinheiro privado para além do público. Mas temos de nos focar no fim a atingir - mitigar as alterações climáticas. E fazemos isto não só com dinheiro mas também com liderança política, objectivos claros e empenho comum, incluindo dos dois maiores emissores globais - a China e os EUA.

Recordo os debates sobre ajuda ao desenvolvimento porque também se resumia o seu sucesso à quantidade de dinheiro envolvida. E, com certeza, a ajuda financeira pode facilitar o desenvolvimento. Mas será incorrecto reduzir desenvolvimento a uma questão orçamental, porque não é - primeiro porque o objectivo não é gastar dinheiro mas promover o progresso de encontro aos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio . E segundo porque há vários meios para alcançar este objectivo - entre eles, o comércio. Parece-me que o crescimento da China com base nas exportações tem feito mais para reduzir o número de pessoas pobres no Mundo do que qualquer outra politica, seja ela orçamental, privada ou pública.

Então, quando definimos objectivos fixos para cimeiras, sejam elas europeias ou não, devemos sempre olhar com muito cuidado para como medimos o seu sucesso. Devemos estabelecer um fim, não apenas os meios; porque se conseguirmos alcançar os  meios, mas mesmo assim não atingirmos o fim desejado, todo o esforço feito é posto em causa. Sim, podemos e devemos investir muito dinheiro - mas este investimento tem que ter um retorno, seja em termos de controlo da temperatura do planeta, seja em termos de erradicação de pobreza e miséria. Dinheiro só não chega.

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Alexander Ellis, Embaixador Britânico
18:04 Sexta-feira, 4 de Dez de 2009

Finalmente há Tratado. Lisboa celebrou com discursos e fogo de artifício na terça-feira. O sentimento predominante nas celebrações foi mais alívio que alegria. Alívio que haja um  resultado  de tantas horas de reuniões, de debate político, e até de referendos. Alívio que finalmente a União Europeia possa concentrar-se menos em questões institucionais e mais nas questões determinantes para o nosso futuro colectivo; a retoma económica e a luta contra o  desemprego, as alterações climáticas, a necessidade de ter uma Europa capaz de alcançar os seus objectivos em parceria com os poderes mundiais existentes e emergentes. Não  podemos  ter  o luxo de olhar sempre para o nosso umbigo institucional -  não  quero dizer  com  isso que as instituições não  sejam importantes - são, por natureza,  um elemento essencial na construção europeia. Mas há  um fosso cada vez maior entre o mundo de Bruxelas e o resto de Europa, que os  intermináveis debates sobre  as instituições tendem  a  aumentar,  e não diminuir.

Concordo com o Presidente da Comissão Europeia quando ele disse em Lisboa nas celebrações que este Tratado termina um ciclo europeu que a queda do mundo de Berlim iniciou. Penso que daqui a cem anos os cursos universitários sobre a politica europeia vão ser dedicados ao fim do Comunismo e ao tratado de Maastricht - a resposta europeia  à emergência duma Alemanha unida  (resta saber  se estes cursos formarão uma parte essencial do currículo universitário dos estudantes chineses ou  se no futuro serão apenas uma curiosidade esotérica sobre historia do século XXI ... ).  O Tratado de Lisboa talvez  seja  visto como o ultimo acto de digestão do processo  começado em Maastricht.

O que quer dizer o Tratado de Lisboa, na prática? Durante as  campanhas de ratificação houve muito debate sobre a complexidade do Tratado, em contraste com os objectivos da reforma institucional estabelecidos pelos líderes europeus na declaração de Laeken em 2001 "as instituições europeias  devem tornar-se mais próximas dos cidadãos".  Mas para ter uma verdadeira compreensão do sentido de qualquer texto político temos que ler não só as suas palavras,  mas também a maneira  como é posto em prática. Como  disseram alguns oradores na  terça-feira, um Tratado não basta  por si próprio; tem que haver vontade política.  Enfim, acho que a melhor resposta à pergunta é aquela do Deng Xao Ping quando  lhe  foi perguntado o que foram as consequências da Revolução Francesa - "é  demasiado cedo  para  saber".    

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Alexander Ellis, Embaixador Britânico
19:23 Sexta-feira, 27 de Nov de 2009

Porquê ser diplomata? Tentei dar ontem uma resposta aos alunos de Direito da Universidade Católica, num painel para ajudar as "vítimas" de curso de Direito a escolher carreiras. Fui explícito com os alunos; o meu objectivo foi tentar salvar pelo menos uma alma do purgatório de trabalhar numa sociedade de advogados nos próximos quarenta anos.

Então, o que há de tão aliciante na diplomacia? Disse que a minha profissão não é para todos. Tem algumas características que podem ser vistas como inconvenientes, entre as quais:

- A necessidade de mudar de casa de três em três anos. 
- A dificuldade de manter duas carreiras activas quando há tanta mudança.
- A obrigação de respeitar a hierarquia.

Mas por outro lado.... o trabalho é fascinante. Dá acesso a pessoas, culturas e situações que nunca imaginei conhecer na minha vida. Não são só as pessoas ou os sítios mais conhecidos que são necessariamente os mais cativantes. Ouvir vítimas de tortura dar um testemunho das suas experiências, ou ir até uma pequena aldeia da Gronelândia para aprender sobre os efeitos das alterações climáticas para os pescadores indígenas são experiências inesquecíveis.

A aprendizagem é constante; esta é verdadeiramente uma carreira de "life long learning", na qual se aprendem novas "skills" (tive muitas dificuldades em traduzir esta palavra, agradeço a ajuda do leitor) de negociar a gerir, falar em público e, também, o stand still em actos oficiais (mais difícil do que parece).

A variedade deste trabalho é enorme; desde dar apoio a um preso britânico a conduzir negociações através de um adido de imprensa ou, como eu faço actualmente, comandar um pequeno barco em águas estrangeiras.

Mas, como disse, não é para todos. E cabe-nos a nós, diplomatas, darmos a imagem certa do nosso trabalho. Porque senão podemos incentivar pessoas a entrar na diplomacia por, a meu ver, más razões;

- Para ser Embaixador. O meu trabalho actual é pouco representativo daquilo que a maioria dos diplomatas fazem (e do que fiz antes de aqui chegar).
- Para ser servido de luva branca. Há poucas luvas. E ainda menos que sejam brancas. E quando há, normalmente são os diplomatas que estão a servir, não a ser servidos....
- Para comer chocolates Ferrero Rocher . A publicidade engana - são menos acessíveis do que eu esperava.

E uma profissão estanha, um bocado solta; mas quase nunca aborrecida. 

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Alexander Ellis, Embaixador Britânico
15:50 Terça-feira, 24 de Nov de 2009

Este verão, no fim de um longo e agradável dia no Porto  a jogar cricket com amigos, e depois de ter jantado bem e brindado à nossa amizade, fomos a uma discoteca nos arredores do Porto, a Bela Cruz . Resultado: nunca me senti tão velho na minha vida. Quando entrei, apercebi-me que a minha roupa e a minha cara me separavam um par de décadas dos rapazes e raparigas que ali estavam e que eram de uma geração bem diferente da minha. Ainda bem que não me atrevi a dançar...

Foi um bocado assim, na semana passada, ao ouvir o famoso guru britânico da gestão, Charles Leadbeater , falar no (excelente) Congresso da APDC . Descreveu de uma maneira muito simples a forma como a internet transformou o ambiente de trabalho ao valorizar um espírito de colaboração e não tanto de direcção.

Leadbeat ilustrou esta ideia com um clip do YouTube que mostra um rapaz a tocar a guitarra no seu quarto. Uma banalidade, mas uma banalidade que mais que 60 milhões de pessoas já viram na internet. 60 milhões! Mais do que a população inteira do Reino Unido. Charles Leadbeater explicou-nos que este clip deu origem a uma comunidade de pessoas (imagino que muito deles rapazes - com guitarras e quartos) a tocar aquela música. Realçou todas as coisas de que este rapaz não precisou para chegar a 60 milhões de pessoas. Não precisou de um realizador ou de equipamento especial. Não teve que fazer parte dum programa da televisão. Não precisou de ser famoso, etc.

E então? Claro, todos conhecemos a capacidade que a Net tem de criar comunidades. Não há nada de novo nisso. Mas a questão é: como é que aplicamos isto às nossas próprias organizações; a forma de gerir "mandando" não dá. Trabalhamos "com" não "para".

Isto implica que eu, como Embaixador, devo esforçar-me mais por saber encorajar e acolher a criatividade de todos e de fazê-lo não através do "hub and spoke" (no qual peço individualmente a cada pessoa o seu contributo); o que precisamos é de criar comunidades, isto é, grupos de pessoas, que saibam trabalhar juntos. Neste cenário, a minha função será  mais definir os objectivos finais da Embaixada do que definir as formas de os alcançar.

Charles Leadbeater utilizou a imagem de alguém a tentar convencer um pássaro de voar do sítio A para o sítio B. Na sua opinião, um consultor externo sugeriria amarrar o pássaro a uma pedra e depois atirar a pedra para o sítio B. Trabalho feito (pena que o pássaro tenha morrido à chegada). Explicou que a gestão por propulsão não funciona e que a gestão por atracção é muito mais certeira. Ou seja, em vez de atirar pedras, devemos espalhar sementes. As pessoas encontram o seu próprio caminho. O que eu posso fazer é indicar a direcção. Eu sugiro o "onde", mas os meus colegas são melhores a definir o "como".

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Alexander Ellis, Embaixador Britânico
18:49 Sexta-feira, 13 de Nov de 2009

Fui visitar a bonita ilha da Madeira, no passado fim-de-semana, para participar no acto de lembrança das vítimas da guerra. A origem deste acto vem dos anos que se seguiram à I Guerra Mundial, que foi sangrenta duma maneira que não era imaginável no seu começo. Nessa altura, para lembrar os mortos, realizou-se um acto de recordação no dia do Armistício, que tem sido observado todos os anos desde então; esta não é só uma tradição britânica; os franceses fazem a mesma coisa e participei, no dia 11, num acto parecido em Torres Vedras na presença do Senhor Presidente da República. O símbolo deste evento é a papoila, que uso até ao dia 11; a papoila, porque foi a única flor que cresceu nos campos de "morte" do norte de França e da Bélgica.

Mas estou longe de ser o único britânico a visitar a Madeira. Temos, além duma comunidade activa (e histórica) de mais de mil britânicos, à volta de 250.000 visitantes anuais só à Madeira, graças aos voos "low cost", mas também à forma como os meus compatriotas lá são acolhidos, na boa tradição das estadias de Winston Churchill no famoso Hotel Reid's . Isto sem falar dos milhares de turistas britânicos que chegam todos os dias nos barcos cruzeiro que fazem parte da paisagem do porto do Funchal.

Onde há britânicos, há consulados. De facto, os meus colegas do Consulado do Funchal (e em Lisboa, Portimão, Porto e Ponta Delgada) são uma peça essencial no nosso trabalho. Oferecem assistência a "distressed British nationals" que tenham, por exemplo, perdido um passaporte, sido hospitalizados ou, felizmente poucos são os casos, presos. Também oferecem serviços para a comunidade residente (que é agora de cerca de 80.000, a sua maioria no Algarve), por exemplo, registos de nascimento e óbitos, legalização de traduções, emissão de certificados consulares vários. Também fazemos cerimónias de cidadania para novos cidadãos britânicos e organizamos ainda processos para possibilitar a união - civil partnership - entre duas pessoas do mesmo sexo - sendo que um/a dele/as tem obrigatoriamente que ter nacionalidade britânica e, por razões legais, nenhuma pode ter nacionalidade portuguesa.

O trabalho consular é um trabalho exigente, muito variado, às vezes difícil, com situações humanas delicadas e complexas. É, também, um trabalho muito gratificante pelas mesmas razões que às vezes é difícil - envolve-nos, seres humanos, em todo nosso esplendor. Admiro os meus colegas que, no ano passado, tiveram que emitir 498 passaportes de emergência, lidar com 189 mortes e 93 hospitalizações, entre outros casos. E fazem isto com uma vontade e desempenhos notáveis - e ainda bem que é assim. Antigamente, o trabalho consular não era suficientemente apreciado no Ministério - mas agora todos nós, diplomatas, percebemos que os nossos Consulados são a primeira e, muitas vezes, a única parte do Foreign Office que os cidadãos Britânicos vêem. A nossa imagem junto do público depende muito dos meus colegas consulares.

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