Os pilotos da TAP vão fazer uma greve. Não está aqui em causa o seu acerto ou erro. Não me daria ao trabalho de repetir um lugar comum: que a greve é um direito. Nos primórdios do sindicalismo, esse direito foi conquistado as custas do emprego, da liberdade e às vezes da própria vida.
As sociedades democráticas trataram de regulamentar e defender esse direito. Partindo do princípio: sendo o poder numa empresa desigual, os regimes democráticos dão aos trabalhadores um instrumento que, equilibrando as coisas, impede o abuso e obriga à negociação. Hoje, é impensável falar em democracia sem incluir sindicatos livres e direito à greve.
Porque, apesar de todos os sinais que dão alguns empresários, sempre pensei que isto era um ponto assente, nunca perderia muito tempo a escrever estas evidência. Muito menos em Portugal, onde este é um direito recente.
Mas Fernando Pinto, presidente do conselho de Administração da TAP, disse alto o que muitos gestores e empresários pensam baixinho: "a greve é uma coisa do século passado"
. O insulto que esta frase representa é ainda mais grave quando este senhor, que eu tinha por uma pessoa civilizada e familiarizada com a nossa constituição e as regras democráticas (apesar de recentemente ter dado alguns sinais de desconforto com elas
), é administrador de uma empresa que pertence ao Estado. Pode, como é evidente - e é natural que o faça -, pôr em causa a justeza da greve. Não pode, nem por palavras nem por actos, pôr em causa o direito à greve. Era só o que nos faltava.
Mas a culpa não é apenas dele. É tal o domínio mediático daqueles que vivem mal com alguns direitos democráticos - a greve, a negociação colectiva, o sindicalismo -, que o senhor pode ter ficado baralhado e julgado que viviamos em alguma ditadura ou que tinha regressado ao século XIX. Bom seria que o ministro da tutela lhe explicasse em que parte do planeta está a cumprir a sua função de administrador de empresas e, de forma simpática, lhe solicitasse um pedido de desculpas aos trabalhadores. Isto, claro, se o partido que nos governa tiver um pingo de orgulho na palavra "socialista", que ainda ostenta no seu nome.