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Última hora: blogger do Expresso vítima de queda de arriba em praia algarvia

A notícia do título não aconteceu. Ainda. Mas enquanto eu estiver de férias, pode acontecer. Serei inconsciente, imprudente, ou simplesmente demasiado humano?

Vasco Campilho (www.expresso.pt)
0:01 Quarta feira, 11 de agosto de 2010

O litoral de Lagoa é dos mais bonitos do Algarve: falésias escarpadas, recortadas, trabalhadas pelo mar escondem praias recônditas que nelas se encaixam, muitas delas praticamente inacessíveis. A exígua superfície arenosa proíbe a implantação de grandes unidades hoteleiras: Lagoa é reino de aldeamentos e vivendas espalhadas entre a costa e a N125. Uma semana por aqui, com o Levante a aquecer as águas, é do mais parecido com o paraíso que o mês de Agosto tem para oferecer em Portugal.

Mas este ano, encontrei este paraíso inquieto, perturbado por umas singelas plaquinhas dispostas pela ARH do Algarve à entrada da praia. Risco de queda da arriba, explica a placa em português e inglês. Um curto parágrafo expõe o carácter dinâmico das arribas (trocado por miúdos: isto pode cair a qualquer altura) enquanto que um ortofotomapa de 2007 ostenta a zona de risco - uma vez e meia a altura da arriba contada a partir da sua base, ou seja, todo o areal e ainda um pouco de mar. Claro que podia ir a outra praia. Mas a casa onde estou fica mesmo por cima deste areal, a uns escassos 30 metros da arriba. É descer umas escadinhas e já está. Estar agora a meter-me no carro, a poluir o ambiente, para ir a outra praia onde provavelmente vou encontrar o mesmo aviso? Deixa estar.

A verdade é que nada mudou nesta praia - embora entre os veraneantes se especule se aqueles pedregulhos que cortam a praia a meio já lá estavam todos no Verão passado. A maioria acha que não. Aquilo que mudou mesmo está nas nossas cabeças. De vez em quando, alguém lança um olhar à arriba, que permanece imperturbável ante as nossas inconfessadas angústias. Nota-se que as pessoas evitam colocar-se à sombra da falésia, e as reentrâncias anteriormente tão apreciadas pela sua frescura estão quase vazias. O que me parece irracional: se toda a praia é zona de risco, porque não aproveitar a sombra? Mas verdade seja dita que também eu não estico ali a minha toalha.

Evidentemente que este é um comportamento de risco, reconheço-o sem dificuldade. E eu nem sou muito dado a correr riscos: uso protector solar de factor elevado, quando nado nunca me afasto muito da costa, olho para os dois lados antes de atravessar a rua. Mas a este risco, mortal, sujeito-me sem grandes hesitações. Porquê? Não se pode dizer que seja por inconsciência: na realidade, corro este risco de forma totalmente consciente, graças à diligência da ARH do Algarve e das suas informativas plaquinhas. Imprudente, serei com certeza. Mas quando olho para uma praia cheia de gente, não me convenço de que todos sejam pessoas mais imprudentes do que a média. Tem de haver outra explicação.

E há. A verdade é que o ser humano sabe lidar bem com três tipos de risco, mas há um quarto com o qual lidamos muito mal. Sabemos lidar bem com os riscos de alta probabilidade e alto impacto: fugimos deles como o diabo da cruz. Sabemos lidar bem com os riscos de alta probabilidade e de baixo impacto: protegemo-nos deles e seguimos em frente. Sabemos lidar bem com os riscos de baixa probabilidade e baixo impacto: ignoramo-los totalmente e assumimos os custos. Mas lidamos muito mal com os riscos de baixa probabilidade e alto impacto: tentamos esquecê-los, justamente porque não podemos assumir os seus custos.

Fazer praia à sombra de arribas instáveis é apenas um exemplo deste tipo de comportamento humano, demasiado humano. Outro exemplo é construir cidades à sombra de um vulcão: Nápoles é humana, demasiado humana. Outro exemplo é esperar tranquilamente o próximo grande terramoto em edifícios de duvidosa anti-sismicidade: Lisboa é humana, demasiado humana. Outro exemplo ainda é explorar petróleo a 4 000 metros de profundidade sem ter tecnologia para colmatar uma fuga: a BP é humana, e a agência governamental que autorizou a BP a furar é comprovadamente demasiado humana.

E eu também sou humano. Demasiado humano. E quando olho de relance para as arribas, enquanto nado, sinto que esta humanidade um dia me vai pregar uma partida. Mas o mais provável é que esse dia não seja hoje. Está-se tão bem na água. E as arribas estão tão quietinhas. Deixem-se estar assim mais uns dias, está bem?

Palavras-chave  Blogues, Política, Portugal 2009
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A hora da sésta
águiadois (seguir utilizador), 2 pontos , 8:34 | Quarta feira, 11 de agosto de 2010
Só por distração se dá o exemplo da BP nas considerações sobre as arribas: então tem alguma coisa a ver uma boa soneca á sombra da rocha com a especulação calculiata,dura e corrupta da petrolífera BP, no Golfo Pérsico?
Lá que tivesse falado da falha da Califórnia,ainda aliviava, mas assim é mau demais: Da próxima é meter o raciocínio na caixa do correio e deixar o pessoal em Paz.
 
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Parabéns pela crónica
Manuel Pio (seguir utilizador), 1 ponto , 1:40 | Quarta feira, 11 de agosto de 2010
Retrata bem o nosso 'deixa andar'.
 
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