Quando esta crónica chegar às mãos do leitor estarei ausente do país, por motivo de férias. O facto condicionou-me na escolha do tema, preocupado como estava em fugir ao tom depressivo que hoje caracteriza a sociedade portuguesa.
Precisava de ser optimista, estimulante, mobilizador. A primeira ideia que me ocorreu foi ler 'O Segredo', mas ao fim de 20 páginas desisti: aquilo é para atrasados mentais. A força mobilizadora teria de vir de mim próprio. Pensei, pensei, pensei...
Ponto prévio. Quando dizemos que a crise por que passamos é universal, estamos a exagerar o conceito. Ela não passa de uma crise de países ricos, já que o resto do mundo não se queixa. Ora tomem nota de alguns países cujo PIB está em alta: China (9,8%), Índia (7,7%), Rússia (7,5%), Brasil (4,6%). O próprio crescimento económico mundial deverá rondar os 4% em 2008, não muito longe do período dourado de 2004-07, que terá sido o melhor de sempre. A Terra continua a mover-se...
De todos os países em crise, importa falar dos EUA, porque foi aí que ocorreu a maldita "subprime" com que tudo começou. Resultados até agora: a inflação subiu dois pontos para os 4,4% e o desemprego aumentou meio ponto para os 5,5%. Não sendo agradável, também não é dramático. Mas, em contrapartida, o dólar estabilizou, as transacções correntes melhoraram e o PIB, com os seus quase 2% no segundo trimestre, duplicou a "performance" face ao trimestre anterior. Não acham positivo?
O caso do dólar é especial. De acordo com um estudo recente da OCDE, que para o efeito utilizou as paridades de poder de compra, um euro 'vale' hoje 1,16 dólares, pelo que qualquer número acima disto significa desvalorização da moeda americana, que o tempo se encarregará de corrigir.
Mas, se bem se recordam, foi o dólar fraco que, em grande parte, fez disparar o preço do petróleo, que arrastou o dos produtos alimentares. Ora, se o dólar já inverteu a tendência e o petróleo está a acompanhá-lo...
Falemos então de petróleo. Naquela escalada infernal que todos conhecem, o barril do crude chegou aos 147 dólares e parou. Invertida a tendência, e a julgar pelo momento em que escrevo, em breve cairá abaixo dos 100 dólares - um valor que, a preços constantes, já será inferior ao máximo histórico que se registou em 1979.
Estejam atentos ao novo ciclo: com o petróleo, deverão cair a inflação e as taxas de juro; e, com o dinheiro mais barato, subirão o investimento, o produto e o emprego.
Nota final sobre Portugal. Em Julho, a inflação homóloga atingiu 3,1%, bastante menos que os 4% da média europeia. E a tendência é para descer. Quanto ao desemprego, os nossos 7,3%, sendo maus, estão em linha com a Europa e muito abaixo da Espanha.
O resto é comum: os juros estabilizaram, o PSI 20 inverteu, o petróleo caiu - tudo normal. Mas atenção: Portugal é um dos pouquíssimos países para os quais se admite que 2009 já será melhor que 2008.
Pronto. Acho que consegui. Vou para férias com este pensamento positivo: o nosso "turnaround" poderá ocorrer a qualquer momento.
Daniel Amaral