13/02/2012 atualizado às 10:21
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Trocar de casa para fazer férias

Acomodam-se nas moradias de estrangeiros desconhecidos, conduzem o carro deles e tratam das plantas e animais de estimação. Em troca emprestam as suas chaves de casa. É a nova tendência de férias low cost .

Bernardo Mendonça (www.expresso.pt)
12:33 Quinta feira, 29 de julho de 2010
Isabel Pinto e os filhos Laura, 16 anos, e Miguel, de 12
Isabel Pinto e os filhos Laura, 16 anos, e Miguel, de 12

Roam-se de inveja. Nos últimos anos as férias da fotógrafa Isabel Pinto e dos seus três filhos nada têm de comparável com as da maior parte dos portugueses. Esta morena de 47 anos, divorciada, com sorriso cativante, já passou uma temporada num monumental e premiado loft de arquitetos em Munique, numa casa-barco nos canais de Amesterdão ou numa vivenda em Marselha, com uma assombrosa vista para o mar Mediterrâneo.

 

 O incrível nesta história é que não pagou um cêntimo por nenhuma destas estadas de luxo, apesar de não ser amiga dos proprietários das residências, nem ter sido recomendada por ninguém. Como? Simples, inscreveu-se nos vários sites de troca de casas que existem na internet (ex: intervac-online.com e trocacasa.com ) pagou 50 euros pela inscrição anual de cada um e passou a negociar a permuta do seu T4 pela morada de outras pessoas no estrangeiro que, como ela, queriam viajar e fazer férias alternativas à via tradicional dos hotéis e 'pacotes de agência'. Foi há cinco anos, através de um amigo, que 'Beli' - assim é tratada pelos amigos - ouviu falar pela primeira vez do admirável mundo novo das trocas de casa.

 

Aliciada pela ideia de viajar mais e melhor a menor custo, submeteu as fotos do apartamento onde vive aos ditos sites e não se amedrontou com a hipótese de receber desconhecidos no seu apartamento. "Nasci em África, Moçambique, e as crianças por lá crescem de porta aberta. Estou convicta de que essa liberdade me deu uma maior abertura de espírito para a vida", reflete.

 

Mas não se pense que Isabel faz isto por necessidade. Com editoriais feitos para a "Marie Claire", "Elle" e "Máxima", e autora de inúmeras capas de discos para artistas como Mariza, Carminho ou Camané, vive com os três filhos num condomínio privado, em Linda-a-Velha, com garagem, piscina e vista privilegiada para o Tejo. É por opção e atitude na vida que escolheu fazer férias assim. "Ao trocar um hotel por uma casa onde vivem pessoas da localidade, estou a entrar mais profundamente na realidade e na cultura desse país que estou a visitar. É uma troca de vidas, hábitos e culturas que me interessa. Alarga-me horizontes e poupo dinheiro", traduz.

 

O casal Octávio e Isabel Ferreira
O casal Octávio e Isabel Ferreira
Semanas depois de se ter inscrito na rede de trocas começaram a chover no seu e-mail propostas da Austrália, Canadá, França e países nórdicos. Para primeira experiência escolheu estar 15 dias numa vivenda com piscina em Marselha, a segunda maior cidade de França. Comprou um bilhete de avião low cost e, além da casa, combinou trocar de carro com a família francesa. Mas, como caloira que era nestas andanças, aprendeu logo uma importante lição: a hospitalidade tem de ser levada muito a sério.

 

A grande 'barraca'

Conta-nos que antes de receber os franceses na sua casa, teve o 'cuidado' de esvaziar o frigorífico e a despensa para que assim os visitantes estivessem "mais à vontade". Limpou e arrumou a sua casa e depois partiu descansada para Marselha com os filhos e uma amiga, deixando instruções ao irmão para entregar as chaves do seu apartamento e do seu carro aos franceses. Por uma irónica coincidência ambos chegaram à mesma hora às novas moradas.

 

Quando Isabel entra na moradia de Marselha é surpreendida com uma monumental mesa com queijos, vinhos e outras delícias daquela região do sul de França e sentiu de imediato um arrepio e uma vontade urgente de se meter num buraco. " Fiquei para morrer. Imaginei logo aquele casal com filhos pequenos a chegar à noite a minha casa e a reparar que não tinha rigorosamente nada para comer. Nem leite, nem cereais sequer. Liguei-lhes a pedir desculpa e contactei o meu irmão para que lhes levasse qualquer coisa...". Acabou por correr tudo bem. Mesmo apesar do casal francês ter cometido igualmente 'uma argolada' por abastecer gasolina em vez de gasóleo no carro de Isabel. "Eles foram muito simpáticos e civilizados, pois pagaram-me de imediato o arranjo do carro", esclarece.

 

Toma lá o meu carro

Mas não receia, além da casa, emprestar o carro a estranhos? "É hábito acordar a permuta de viaturas. Tudo na base da confiança", explica. Desde aí, estabelece trocas todos os verões e faz questão de presentear todas as famílias com uma nota de boas-vindas e uma mesa posta na sala com sabores bem portugueses: pão alentejano, queijo da Serra, vinho tinto, pastéis de nata... Deixa também num cesto mapas da cidade e guias culturais. "Nunca achei uma invasão o facto de receber em casa pessoas que não conheço. É dar e receber". Esta mentalidade é também partilhada pelos seus filhos Francisco, de 18 anos, Laura, de 16 anos e Miguel, de 12 anos. 

 

Só os amigos desta fotógrafa é que franzem a cara ao assunto. "Não conseguem imaginar terem perfeitos desconhecidos em casa a espreitarem as gavetas, a tocarem nos valores, a dormirem nas suas camas, com as cabeças deitadas nas suas almofadas. A mim não me faz confusão. Sou um espírito mais livre", comenta. Ainda nos explica que antes avançar com cada "acordo", troca inúmeros e-mails com as pessoas envolvidas e, aos poucos, começa a estabelecer-se alguma cumplicidade. Garantias de segurança não há. "Tenho sempre fé que tudo correrá bem", esclarece num sorriso desarmante. E confessa que tem um crédito para gozar numa belíssima casa, na ilha de Boipeba, com direito a praia privativa, na zona sul da Bahia. "Talvez seja o próximo destino de férias".

  Atualmente existem 145 casas em Portugal prontas a serem trocadas pelas dos 37 mil membros do trocacasa.com espalhados por 130 países. Desde que esta rede de contactos foi criada em 1992 pelo norte-americano Ed Kushins (presidente da HomeExchange) as inscrições não param de crescer nos vários pontos do globo. Está a tornar-se moda. Tudo começou a partir de uma convicção de Ed: "As férias não têm que custar mais do que estar em casa". A ideia é revolucionária e parece estar a pegar entre os portugueses.  

 

António Baptista e a mulher, Helena
António Baptista e a mulher, Helena
A semana passada as figuras de proa deste mar de casas reuniram-se em Vilamoura, no Algarve para discutirem as estratégias de marketing do HomeExchange. "Quiseram conhecer as potencialidades da região e arranjar estratégias para mais portugueses aderirem a esta forma diferente de fazer férias".

 

Isto é ecoturismo

Quem nos dá o norte é António Baptista, 44 anos, o representante português deste site. Desde 2005 que este jornalista colaborador do jornal da Marinha Grande estabelece trocas com os seus dois apartamentos de férias, um na zona de Alcobaça e outra em Vilamoura. Desta forma já esteve com a mulher Helena, professora primária, e os seus dois filhos de 12 e 11 anos, em "grandes casarões" em Paris, assim como em Montreal e Quebeque, no Canadá, ou em Hermosa Beach, na Califórnia. "Tenho vivido umas férias de sonho. Se, por exemplo, no Canadá eu tivesse que pagar o alojamento nas duas vivendas de luxo onde fiquei, mais o aluguer dos carros de gama alta que conduzi teria que ter despendido largos milhares de euros. Assim paguei apenas a viagem e senti-me a contribuir para a economia local e não para um qualquer grupo económico que explora os turistas e desfigura a paisagem local. É ecoturismo", considera.  

Troco monte alentejano por château francês

Carlos Neffe a a mulher, Anita
Carlos Neffe a a mulher, Anita
Para chegar ao Monte Ara é preciso percorrer cerca de 180 km de estrada desde Lisboa até à aldeia de Covões, perto de Avis, num caminho sinuoso emoldurado por oliveiras e sobreiros. Junto ao portão de entrada da casa de campo do engenheiro Carlos Neffe, 74 anos, avistam-se dois cães: a 'Beca', um golden retriever, e 'Cindy', um cocker spaniel, entretidos a farejar os cantos daquele espaço bucólico, poético, com campos de feno a perder de vista. Atrás deles vem o dono, ar bonacheirão, de rabo de cavalo grisalho que nos recebe com uma tirada bem-humorada.

 

Isto pode ser muito bom ou muito mau. Quanto é bom, é excecional. Quando é mau é um verdadeiro horror", começa em jeito de provocação. O que Carlos quer dizer é que este monte, no Alentejo profundo, é ideal para quem gosta de natureza e quer isolar-se da cidade e do stresse urbano. Porém pode despoletar uma solidão insuportável dependendo da personalidade e estado de espírito de cada um. "Não aconselho este lugar para casais muito jovens. Vão aborrecer-se de morte!". Carlos e Anita, a sua vistosa esposa inglesa, não são de todo um casal do campo. O que eles são é um casal de viagens. E nem a idade avançada os tem impedido de desbravar mundo. Assumem-se como pessoas profundamente urbanas, por isso vivem há cinquenta anos numa moradia no centro de Cascais.

 O monte no Alentejo que reconstruíram há 15 anos é o destino tranquilo para relaxarem em alguns fins de semana e a moeda de troca para algumas das melhores férias que este casal já passou na sua longa vida. Até agora já permutaram quatro vezes de casa.

No topo das experiências deste casal está a estada de 15 dias num aristocrático château, na Normandia, no noroeste da França, habitado por um casal de condes. Esses condes procuravam um lugar idílico e sossegado para descansar em Portugal, e Carlos e Anita desejavam usufruir das maravilhas de um castelo em França.

 

O encontro perfeito. Anita recorda em inglês os dias mágicos passados no château, com divisões amplas, grandes escadarias, quadros e tapeçarias do século XVIII por todo o lado e até um lago e um terreno com cavalos. Diz que se sentiu uma mulher da nobreza: "It was wonderfull!"

 

No quarto até havia um botão que fazia descer um televisor do teto para a frente da cama de dossel. "Wow! Sentimo-nos como nobres", traduz Anita que com Carlos viveu por uns dias uma espécie de conto de fadas de época. Carlos afirma-se "completamente vendido" ao conceito toma lá a minha casa e dá cá a tua. "Um hotel não tem jeito nenhum. É impessoal. E nós à conta disto temos estado em casas do caraças!", esclarece sempre bem disposto. Nova Iorque (EUA), Lago de Garda (Itália) e Paris (França) foram os outros destinos onde trocaram de casa. Carlos é muito meticuloso nas relações de permuta, demora meses a negociar as trocas por e-mail e está atento a todos os detalhes.

 

Como raramente se cruza com os parceiros de permuta, envia-lhes um manual escrito denominado "Como sobreviver no Monte Ara" - porque viver no campo pode ser como estar na selva -, onde os informa de coisas tão básicas como onde está o quadro elétrico e a quem se devem dirigir se alguma coisa correr mal.

Carlos não se esquece também de deixar aos convidados alguns alimentos no frigorífico, uma nota de boas-vindas e duas garrafas de vinho tinto em cima da mesa. E, se acaso trocar de carro, deixa o depósito de gasóleo cheio e informa as autoridades (GNR) que a sua viatura foi emprestada. "Se alugasse casa no estrangeiro pagaria o equivalente a várias dezenas de depósitos de gasolina", considera. De todas as vezes que receberam visitas no monte alentejano apenas um puxador apareceu estragado. "Não tenham dúvidas que este conceito vale a pena! Proporciona-vos umas férias muito mais giras".

À atenção de Cavaco Silva

Octávio Ferreira, 58 anos, engenheiro silvicultor e a mulher Isabel Ferreira, 56 anos, professora de história, têm a mesma convicção e já não se imaginam a gozar o verão de outra maneira. Residentes na Marinha Grande também eles usam a sua segunda casa, na Nazaré, como base de troca para as férias. Descobriram o site trocacasa.com através de amigos em 2005 e, desde aí, já conseguiram residência em Londres, Frankfurt, Estrasburgo ou Barcelona, na base da troca de chaves. "Cavaco Silva pediu este ano aos portugueses para não fazerem férias no estrangeiro. O ministro da economia Vieira da Silva disse depois que esperava que os outros países não fizessem o mesmo. Respondo a essa questão convicto de que a minha família está a seguir o melhor caminho. Não estamos a fazer férias num hotel e trazemos estrangeiros para cá, que sempre fazem alguma despesa."

Publicado na Revista Única de 24 de Julho de 2010

Palavras-chave  Life & Style, casa, Troca, trocas, Low Cost
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