As celebrações dos trinta e cinco anos da Revolução de Abril merecem seguramente mais atenção do que a que lhe foi concedida, condicionada logo no dia seguinte pelos múltiplos factores de crise que o país atravessa.
Parece indispensável desde logo sublinhar que há na ligação do povo português à Revolução dos Cravos aspectos invulgares e particularmente significativos da profundidade das transformações por ela geradas. Mais de três décadas decorridas, ano a ano as comemorações mantêm uma incontornável vitalidade, determinantemente marcada pela dimensão e características da participação popular.
É difícil encontrar nas sociedades contemporâneas paralelos para esta celebração colectiva de uma efeméride. A título de exemplo, atente-se no que ocorre por toda a Europa com as comemorações de um acontecimento com a importância e profundidade do final da II Guerra e pense-se se como em 1980, decorridos idênticos trinta e cinco anos após a vitória aliada de 1945, a memória se esfumava já e se acantonava em celebrações oficiais com fraca expressão pública.
E não é seguramente um dos traços menos relevantes das manifestações em Portugal o facto de elas apresentarem a sugestiva conjugação do memorial e celebrativo - rodeado, aliás, por uma muito especial afectividade, revelada nos mais pequenos aspectos, da profusão inabalável dos simbólicos cravos à crescente presença de pais e suas crianças - com um constante aggiornamento traduzido na cada ano diferente e renovada presença de todas as esperanças, de todas as lutas, de todas as afirmações. O 25 de Abril celebra 1974 mas cada ano acolhe as batalhas e os problemas desse ano, do momento que se vive, da grande reivindicação ao pequeno cartaz de desabafo quase pessoal. Celebra-se a conquista da liberdade num colectivo e individual mergulhar na liberdade.
Em 2009, traduzindo uma tendência tão positiva quanto natural, assistiu-se igualmente a múltiplas iniciativas visando a reflexão, a fixação da memória, o debate interpretativo, tudo procurando uma estimulante densificação da análise histórica.
Da conferência ou colóquio de dimensão local a iniciativas mais ambiciosas como o ciclo 'Vozes da Revolução' promovido pelo ISCTE, cada ano soma mais elementos não apenas à preservação mas também ao aprofundamento e compreensão da História.
Impõe-se referência à publicação da longa, bem documentada e excelentemente conduzida entrevista de Maria Manuela Cruzeiro a um dos principais protagonistas do Movimento dos Capitães, Vasco Lourenço ("Do Interior da Revolução", Âncora Editora. Coimbra, Abril de 2009). São quase 600 páginas servidas por uma assinalável memória, reflectindo naturalmente os pontos de vista pessoais do entrevistado, particularmente interessantes do ponto de vista factual, mas também na revelação de ambientes, de cambiantes pessoais e humanas.
Voltaremos ao livro. Merece uma boa polémica...
Ruben de Carvalho