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Traçar a linha

A proibição da "burka" no espaço público francês traça uma linha essencial.

0:00 Sábado, 13 de fevereiro de 2010

A lei destinada a proibir o uso da burka no espaço público francês tem causado uma polémica incompreensível. Uma mulher da tribo Bororo pode passear-se por Paris com o seu traje típico, que consiste no corpo nu pintado com argila? Uma francesa pode entrar numa repartição pública com o biquíni que usa na praia?

O argumento religioso não colhe, porque em nenhuma página do Corão se refere a obrigatoriedade do véu integral. A religião sempre teve as costas largas - mas há limites, e convém começar a assinalá-los, sob pena de ficarmos entregues ao arbítrio dos senhores que a dirigem, senhores desumanos, demasiado desumanos, em particular nos países islâmicos. Esta semana soubemos que uma menina de 13 anos, na Arábia Saudita, vai ser sujeita a 90 chicotadas e dois meses de prisão. Não soubemos quantas mulheres foram - na Arábia Saudita, ou no Irão, no Paquistão, etc. - espancadas pelos maridos, ou quantas crianças foram vendidas como esposas a velhos que nunca tinham visto. Mas sabemos que basta de justificações religiosas para este massacre de metade da população, em vigor em quase todos os países islâmicos.

Sandeep Gopalan, responsável pelo Departamento de Direito da Universidade Nacional da Irlanda, perguntava no "The New York Times": "Onde é que se traça a linha?" Seguir-se-ão os turbantes, os saris, as saias compridas, os crucifixos? Esta interrogação é a mãe de toda a demagogia, a nascente de onde brota o caudaloso rio onde se afoga a ética. A mesmíssima atitude mental que põe em causa a justiça dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo invocando os direitos dos poligâmicos. Ou que sobrepõe os direitos dos pais biológicos aos das crianças. Quando se pergunta onde traçar a linha está-se a fazer mais do que justificar a tradição, por bruta que seja - está-se a procurar intencionalmente confundir os espíritos alheios, criando um sistema de tábua rasa em que tudo se equivale e nenhum sistema de valores resiste. Esta atitude visa assustar as populações e torná-las resistentes a qualquer tipo de mudança. Venha da direita ou da esquerda, é uma atitude profundamente reaccionária - e de um paternalismo insidioso. É sempre possível traçar uma linha, sim. É mesmo necessário e urgente fazê-lo.

Não é porque as estatísticas dizem que só 1900 mulheres usam véu integral em França que a lei deixa de ser urgente. Esse número, aliás, parece-me altíssimo - e sabemos como estes números são falaciosos, porque as mulheres de burka não são sujeitos de direitos nem fáceis de recensear. Que muitas delas sejam já cidadãs francesas de segunda ou terceira geração só significa que a lei peca por tardia. Mesmo que muitas dessas mulheres se manifestem defensoras do traje que as anula, a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros - e um ser fantasmático, sem rosto, sem identidade, é uma ameaça evidente a todos os outros que circulam no espaço público. Não faz sentido que, ao mesmo tempo que se afinam as máquinas de detecção de bombas nos aeroportos, se deixem circular por escolas, hospitais e museus potenciais bombas humanas. E não faz sentido que, num país com as responsabilidades históricas que a França tem na conquista de uma civilização laica, com direitos iguais para todos, se passeiem pelas ruas mulheres tapadas como monstros ou criminosos. O exemplo da humilhação humilha - a burka é um enxovalho para todas as mulheres e homens que se vêem como seres livres e iguais. Se, no recato das suas casas, as mulheres quiserem usar burkas, ou homens e mulheres adultos tiverem prazer em ser chicoteados, insultados, ou andar pela trela, é lá com eles (desde que não estejam crianças presentes). Esta não é uma questão francesa, mas europeia, de defesa elementar dos direitos humanos - que são, como não se cansa de explicar o filósofo Antonio Cicero, uma vitória da razão e não da cultura ocidental, que criou, tolerou e tolera ainda variadas barbáries.

Em Portugal, no século XXI, ainda é possível que um homem supostamente ilustrado afirme a um jornal: "Não estou a ver uma mulher a ler Montaigne, (...) são valores e preocupações masculinos." Ou: "A capacidade de efabulação e dramatização é rara nas mulheres." A liberdade inclui o disparate. Mas não inclui a tolerância para com o esmagamento das mulheres debaixo de burkas.

Texto publicado na edição da Única de 6 de Fevereiro de 2010
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Eu até era contra a burka
AvôMetralha (seguir utilizador), 2 pontos (Divertido), 1:20 | Sábado, 13 de fevereiro de 2010
Mas agora que me deu o exemplo da mulher bororo a passear nua só pintadinha de argila, mudei de opinião 180 graus! Viva a burka das árabes! Bora lá as bororos a rebolarem nuazinhas à nossa frente cheias de argila. E as francesas de bikini na rua! Já agora, as alemãs em topless, as naturistas como vieram ao mundo, as brasileiras de fio dental! Que mundo maravilhoso! Deixem lá as burkas em paz, se faz favor. Vamos lá a respeitar as tradições todas, sobretudo as das bororas. Sim, acima de tudo as bororas. Deixem as bororas em paz! se querem andar só de argila ninguém tem nada a ver com isso.
 
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    sou a rosa preocupada com o senhor avômetralha    Ver comentário
Rosa Engeitada (seguir utilizador), 2 pontos , 21:11 | Domingo, 14 de fevereiro de 2010
    Eu sou o avometralha e quero o telefone...    Ver comentário
AvôMetralha (seguir utilizador), 2 pontos , 20:32 | Segunda feira, 15 de fevereiro de 2010
    sou a rosa preocupada com o senhor avometralha    Ver comentário
Rosa Engeitada (seguir utilizador), 2 pontos , 14:05 | Terça feira, 16 de fevereiro de 2010
    Re: Eu até era contra a burka    Ver comentário
RTa (seguir utilizador), 1 ponto , 12:16 | Sábado, 13 de fevereiro de 2010
    Um deserto dentro das suas orelhas...    Ver comentário
AvôMetralha (seguir utilizador), 1 ponto , 14:00 | Sábado, 13 de fevereiro de 2010
A questão é como e onde "traçar a linha"
CondestavelXXI (seguir utilizador), 2 pontos , 14:22 | Sábado, 13 de fevereiro de 2010
Concordo com os pressupostos de Inês Pedrosa mas entendo que é necessário ter o máximo cuidado quando se traçam as linhas se queremos que sejam eficazes. Basta que haja uma excepção, cumprimentos a meias ou situações do tipo "gato escondido com o rabo de fora", para esbater ou inutilizar completamente a tal linha.
Por exemplo, se no ocidente se decide que toda a gente tem que andar de cara destapada em qualquer lugar público (dar a cara, ou responsabilar-se pelos actos é um preceito iniludível da nossa civilização :-))) ) não temos que proibir a burka mas toda e qualquer forma de esconder, disfarçar ou alterar a fisionomia do rosto, o que poderia implicar, por exemplo, a proibição de todo tipo de enfeites capilares que afectem o visual do rosto ou até mesmo certas próteses não registadas como óculos, piercings, etc, etc. Se proibimos a burka, é uma perseguição aos muçulmanos. Se proibimos a burka mais os trajes de freira que escondam o rosto é uma perseguição religiosa.
Se proibirmos todos os trajes compridos ou folgados pela possibilidade de encobrirem coisas que não seja o corpo humanos, então talvez tivéssemos que proibir sotainas, sobretudos, blusões com recheio térmico, etc, etc.

 
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    Re: A questão é como e onde    Ver comentário
stiffo (seguir utilizador), 2 pontos , 17:19 | Sábado, 13 de fevereiro de 2010
    Re: A questão é como e onde    Ver comentário
CondestavelXXI (seguir utilizador), 2 pontos , 19:21 | Sábado, 13 de fevereiro de 2010
Só temos que concordar
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 21:00 | Domingo, 14 de fevereiro de 2010
Sem qualquer problema e sem ressalvas, expõe a sua opinião. De si, outro texto não seria de esperar, contrariando a tendência de, "compreensão" dos atropelos aos direitos da mulher.

Principalmente se a decisão ou a Lei partir de um Governo considerado de Direita. Para os complexados de esquerda e principalmente para os que antes de iniciar o discurso, têm o pormenor de dizer "as mulheres e os homens", para que ninguém pense que se esqueceram delas.

Esses são os que mais defendem as "diferenças" culturais - é cultura desde que a vítima da seja mulher, mesmo criança - com o argumento que ninguém se queixa. Chegam mesmo ao desplante de darem a entender que já dialogaram com essas mulheres, como se isso fosse possível sem a presença do homem que as domina.

Até em relação à discriminação que as jovens ciganas estão sujeitas, levantam-se poucas ou nenhumas vozes e se um dia o Governo tomar decisões para terminar com essas situações, um clamor de revolta bem-pensante se ouvirá.

  Aí, espero as suas "palavras" para os contrariar.

Cumprimentos
 
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A VINGANÇA
José Telhado (seguir utilizador), 1 ponto , 21:28 | Domingo, 14 de fevereiro de 2010
No outro dia um tipo que casou com uma mulher de cara tapada, verificou depois que ela tinha barba e era vesga.
Bem feito!
 
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    Re: A VINGANÇA    Ver comentário
JF Pereira (seguir utilizador), 1 ponto , 16:01 | Segunda feira, 15 de fevereiro de 2010
Uma aluna de burka integral numa sala de aula?
yourmag (seguir utilizador), 1 ponto , 11:49 | Terça feira, 16 de fevereiro de 2010
No semestre passado os meus alunos discutiram no âmbito do relativismo cultural este tema. E as opiniões dividiram-se. Estou inteiramente de acordo com os argumentos de Inês Pedrosa. O relativismo cultural tem alguns benefícios como uma maior tolerância, mas admite as maiores atrocidades aos direitos humanos.
A única questão que coloquei aos meus alunos foi: uma aluna de burka integral numa sala de aula?
 
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    Re: Uma aluna de burka integral numa sala de aula?    Ver comentário
CondestavelXXI (seguir utilizador), 2 pontos , 15:17 | Terça feira, 16 de fevereiro de 2010
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