Conhecem-se as dificuldades das pequenas e médias empresas em Portugal e como elas são importantes no tecido empresarial português; assim como se conhecem as dificuldades próprias desta época em que uma crise brutal se abateu sobre o mundo financeiro e passou para a economia real, que tem acrescidas dificuldades para conseguir financiar-se.
Mas é altura de perguntar: que empresas são as nossas que afirmam não conseguir pagar mais de 460 euros de salário mínimo? Este valor, contraposto ao já ridículo valor que o Governo vai impor - 475 euros - é absolutamente inacreditável. E, se tomarmos em conta dados revelados esta semana, verificamos que o salário mínimo é hoje, em termos relativos, menor do que há 30 anos. O que significa que as empresas actuais não podem, sequer, pagar o mesmo do que pagavam há mais 30 anos.
Acresce que as prestações sociais, como o subsídio de desemprego ou o rendimento mínimo, por muito pequenos que sejam, entram directamente em competição com estes salários miseráveis, uma vez que a mera deslocação para o trabalho acarreta despesas (como transportes, por exemplo). Logo, o incentivo ao trabalho e à produção torna-se insignificante, ou nulo, pelo que o salário mínimo acaba por ser uma espécie de incentivo a que se trabalhe para aquecer.
Claro que tudo isto é estranho. Claro que uma boa ideia seria ver o que aconteceu aos salários dos donos e quadros superiores das mesmas empresas, aos lucros legítimos que cada uma delas tem. E a uma de duas conclusões podemos chegar: ou a distribuição está muito mal feita e os trabalhadores são deveras penalizados, não lhes dando mais do que migalhas; ou as empresas não têm qualquer viabilidade e, de dia para dia, debilitam-se, definham, vêem-se incapazes de cumprir compromissos essenciais.
Porque uma empresa que não consegue pagar a um trabalhador sequer o que os particulares pagam a uma empregada de limpeza, não tem, seguramente, futuro.
Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009