"Tony Manero" decorre no Chile de 1978, em plena repressão ditatorial do regime de Augusto Pinochet.
Vemos opositores políticos a serem perseguidos e eliminados em plena rua, mesmo ao lado do protagonista do filme. Mas nada disso o parece afectar por aí além.
Tudo o que interessa a Raúl Peralta (Alfredo Castro) é tornar-se num dançarino igual ao John Travolta do filme "A Febre de Sábado à Noite".
Raúl é um personagem asqueroso e assustador, um psicopata disposto a matar por uma ninharia, incapaz de sentir empatia por aqueles que o rodeiam, e que se projecta em algo totalmente de fora da sua realidade, a fantasia de se tornar numa estrela da disco-night.
Humor negro e sórdido
É em torno dessa gritante desadequação, da transposição de uma fantasia vinda do american way para a decadente realidade dos subúrbios da capital chilena, que o filme se torna cómico. Embora se trate de um humor muito negro e sórdido.
Um dia, Raúl vai ao cinema para ver, uma vez mais, "A Febre de Sábado à Noite", quando descobre que o filme deixou de estar em exibição. Mata o projeccionista e rouba a película, que ainda ali se encontra a um canto, prestes a ser devolvida.
Entretanto, vai continuando a preparar o seu número de dança (com três ajudantes, aos quais humilha repetidamente, como modo de despejar a sua profunda frustração) e constrói ele próprio, o melhor que consegue, um palco à imagem do do filme, num bar de terceira categoria da cidade de Santiago.
A sua maior ambição é, no entanto, vencer o concurso televisivo de imitações de John Travolta.
Produzido com poucos recursos e filmado com uma câmara de 16 mm, "Tony Manero" é um filme sui generis que recebeu o principal prémio do Festival de Turim em 2008. A realização é de Pablo Larrain. O actor principal, Alfredo Castro, é co-autor do argumento.
O filme estreia hoje no City Classic Alvalade, Lisboa, sendo antecedido pela exibição da curta-metragem portuguesa "Tony", sobre um rapaz que sonha ser a reencarnação do cantor Tony de Matos.