A única pessoa autorizada a dizer que o Presidente do Brasil é analfabeto é o próprio. Aliás, ele faz mais do que dizê-lo: proclama-o como uma qualidade distintiva, que o superioriza face a "esses intelectuais" que, quando estiveram no poder - vide, Fernando Henrique Cardoso - não conseguiram fazer metade do que ele fez.
É verdade que o perfil de Lula da Silva, designadamente o facto de ter nascido numa família cheia de dificuldades, lhe concedeu um estado de graça único, feito do amor dos desfavorecidos e da diminuição de expectativas dos favorecidos. E convém não esquecer que, apesar do extraordinário crescimento económico do Brasil, os desfavorecidos continuam a ser a grande maioria dos quase duzentos milhões de brasileiros.
O portão de embarque do avião de São Paulo para Aracaju parece um terminal de rodoviária em hora de ponta, e muitos dos viajantes de hoje não teriam, há dez anos, hipótese de entrar num avião - a senhora de ar modesto que pede ajuda para encontrar o voo, porque não sabe ler, é um exemplo disso. Nesse terminal interno do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, as cadeiras escasseiam e não há ar condicionado. Achará o Governo Lula que não vale a pena, já que o povo está acostumado? A notícia da gloriosa modernidade do Brasil ainda não parece ter chegado ao interior do Nordeste. A cidade de Itabaianinha, que usa como cartaz turístico a sua alta percentagem de anões (130 famílias, resultantes da tenaz endogamia da miséria) é um museu interactivo tão eloquente quanto o ultratecnológico Museu da Língua, em São Paulo, uma espécie de avesso hiperrealista desse sonho.
O Brasil que melhorou é o das margens da telenovela. Mas o Brasil é imenso.
Lula soube desenvolver as reformas iniciadas por Fernando Henrique e mostrar que a inteligência não é um derivado dos estudos académicos - mas ao repetir, como repete, frases como: "tem gente que pensa que a inteligência está ligada à quantidade de anos de escolaridade que você tem. Nada mais burro do que isso", presta um péssimo serviço aos seu país. Se Lula chegou lá sem aprender línguas, nem universidade, nem nada, para quê estudar? - perguntarão os jovens e os seus pais.
O estudo oferece distanciamento crítico, respeito em relação a ideias diferentes e capacidade de encaixe: três coisas que faltam calamitosamente a Lula. Quando algum jornalista ousa falar-lhe do escândalo do mensalão - e são poucos aqueles aos quais é permitido ousar, e mesmo assim só depois de meia hora de preliminares bajulatórios - o Presidente do Brasil quase salta de fúria da cadeira e responde que é tudo mentira, perseguição e inveja. E quando Caetano Veloso refere que o discurso de Lula é analfabeto, grosseiro e cafona - três evidências que aliás muito contribuem para o seu êxito - o escândalo toma tal volume que a própria mãe de Caetano se vê catapultada, aos 102 anos, para as capas políticas dos jornais, explicando que vai pedir desculpa ao Presidente por essa frase do filho.
O pedido de desculpas de Dona Canô surgiu na sequência desta carta assinada por Rodrigo Velloso, irmão de Caetano e secretário municipal de Cultura na cidade em que Caetano nasceu, Santo Amaro da Purificação: "Venho a público esclarecer que a recente declaração, feita pelo cantor e compositor Caetano Veloso sobre o Presidente Lula não expressa, em nenhuma hipótese, a opinião da família Velloso". Os Vellosos (com duplo l) demarcam-se assim do Veloso (só de um l), em defesa do Presidente proletário. Caetano dispensou sempre a pretensão aristocrática do duplo ll (pretensão tão brasileira, tão portuguesa, tão provinciana...) : tudo o que é, deve-o a si mesmo. Nesse aspecto, é mais parecido com Lula do que com o seu mano Rodrigo - seria este senhor secretário de Cultura se não tivesse os manos famosos (Bethânia e Caetano) que tem? Duvido que Maria Bethânia - que nunca usou nome de família, sempre e só o primeiro nome, escolhido para ela, à nascença, pelo mano Caetano - entenda que "a família Velloso" possa ou deva representar uma opinião única. A opinião é assunto da intimidade e precariedade de cada alma.
E o direito à expressão é a condição mínima da democracia. Todas as complicações do mundo advêm da negação das coisas simples. O mais recente disco de Caetano chama-se "zii e zie", que significa tios e tias em italiano. A ligação do título ao seu conteúdo é voluntariamente ténue, quase só uma sibilante em transformação sussurrada. Mas os tios e tias estão aí, vigilantes e surdos, sempre prontos para detectar o escândalo na nota errada.
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009