Dizia-me esta semana o presidente português do ramo de uma grande multinacional instalada em Portugal: o TGV entre Lisboa e Madrid vai ser mais um argumento para as grandes empresas transnacionais se instalarem em Madrid e gerirem os mercados espanhol e português a partir daquela capital. Ora aqui está um argumento que certamente não entrou nas cogitações do Governo e de José Sócrates, que insistem nos grandes investimentos públicos, em particular do TGV (cujo concurso para o primeiro troço Caia-Poceirão já foi aliás adjudicado), como forma de relançar a economia.
Mesmo descontando o facto de com a ligação a Lisboa, Madrid se tornar o indiscutível centro da Península Ibérica - o que, obviamente, e sob qualquer ponto de vista, não será benéfico para os interesses nacionais - não deixa de ser surpreendente como o Governo insiste na construção do TGV contra todas as evidências. Em primeiro lugar, muito mais que uma ligação para passageiros, o país precisa desesperadamente é de boas ligações rodoviárias de mercadorias a Espanha e ao resto da Europa, que potenciem os nossos portos, em particular Sines. Em segundo, o país precisa desesperadamente de investimento estruturante (e o TGV até pode sê-lo), mas que tenha uma forte componente nacional, que crie empregos duradouros e qualificados e que alavanque as nossas exportações. O TGV não faz nada disto. Assim como não contribui para a redução do nosso desequilíbrio externo. Pelo contrário, vai agravá-lo. Finalmente, o TGV passará a ser no futuro um encargo para as novas gerações, porque como já se percebeu (e todos os estudos previsionais apontam nesse sentido) a maior parte das ligações previstas será deficitária, à semelhança do que acontece com a actividade da CP, Refer ou Carris.
Ora quer o Governo e José Sócrates queiram ou não, Portugal será fortemente pressionado em 2010 pela Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e agências de notação para tomar medidas que corrijam o défice orçamental, a dívida pública e o endividamento externo. E isso quer dizer que o Estado, os bancos e as empresas terão dificuldades acrescidas para captar financiamentos internacionais e que eles terão condições cada vez mais gravosas.
A Moody's desceu esta semana a notação para a dívida da Grécia. Outras agências não tardarão em segui-la. E infelizmente os mercados anglo-saxónicos fazem a ligação da situação grega com a de Portugal, a que juntam também Irlanda e Espanha, países a que pejorativamente apelidam de PIGS, as iniciais dos quatro Estados-membros.
Não há, pois, volta a dar. Temos de demonstrar, como aqui se escreveu a semana passada, que não somos a Grécia. Como? Tomando medidas concretas no Orçamento do Estado para 2010, mas também em relação a projectos que estão em carteira, como o TGV. Temos, aliás, a cobertura do presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, para adiar esse investimento - e contaremos com o bom senso de Bruxelas quando dissermos que postergamos o projecto para voltar rapidamente a um défice abaixo dos 3% e a uma dívida inferior a 60% do PIB.
O artigo da semana passada de Daniel Bessa no Expresso era arrasador. Vamos ter de reduzir em dez mil milhões de euros por ano o défice orçamental para chegar a 3% do PIB em 2012. Dava várias alternativas, entre as quais subir o IVA para 35%, ou o IRS para 87%; ou reduzir em 47% os salários da função pública; ou privatizar 35% dos serviços públicos. Depois, claro, há várias combinações destas opções extremas. Mas o recado é evidente. O país não entra nos eixos sem grandes sacrifícios e opções muito difíceis. E não tenhamos dúvidas. Se não formos nós a tomarmos essas opções, alguém nos obrigará a fazê-lo.
Como a UBS ajoelhou
Os Bastidores de Um Escândalo" é um livro que explica como um dos mais sólidos bancos suíços esteve à beira de implodir em 2008. Myret Zaki, a autora, não tem dúvidas: no cerne do problema está o fracasso do UBS AG de Zurique em exercer uma autoridade hierárquica sobre as suas equipas do UBS Investment Bank em Nova Iorque e em Stanford. Marcel Ospel, o então presidente do UBS, contratou especialistas norte-americanos, com perfil de corretores ou de dealmakers, que ganhavam milhões, apostando em actividades especulativas. A integração desses resultados permitia aos altos gestores do UBS maximizar os próprios salários. E assim estes não se mostravam demasiado esquisitos em relação aos riscos que aqueles faziam o banco correr - e que se traduziram numa exposição a activos tóxicos da ordem dos 50 mil milhões de dólares. O resultado sabe-se: a 16 de Outubro de 2008, a Confederação Suíça e o Banco Nacional da Suíça vieram em ajuda do UBS com um pacote de 60 mil milhões de dólares, Ospel demitiu-se e o banco regressou às suas áreas tradicionais: gestão de fortunas; banca de retalho; e banca comercial. Pelo meio, fica a política de Alan Greenspan à frente da FED, que potenciou o desastre.
O frio e o aquecimento
Está um frio de rachar e em Copenhaga os dirigentes mundiais discutiram imenso o aquecimento do clima. Está um frio de rachar e não se percebe porque é que, se o aquecimento global é tão evidente, foi necessário apresentar um filme a abrir a conferência em que uma menina vive sucessivos pesadelos climáticos. Está um frio de rachar, mas Phil Jones, o responsável pelo banco de dados do Climate Research Unit, teve de se demitir, depois de hackers terem entrado no seu computador e divulgado e-mails em que se prova que manipulou dados por forma a que se registasse em 2000 uma subida inusitada e repentina de calor. Está um frio de rachar mas os EUA só vão reduzir em 3% as suas emissões de CO2 até 2020. Está um frio de rachar e em Copenhaga a União Europeia fez o papel da tia pateta na festa, ao prometer cortar as emissões em 20% ou mesmo 30%...Está um frio de rachar.
Olha quem investe!
Investimento Directo Estrangeiro, IDE. Nos anos 80 tivemos a Renault. Nos anos 90, a Ford/ Volkswagen. Foram investimentos estruturantes para a economia portuguesa, que permitiram a criação de uma indústria nacional de componentes para automóveis.
É esse tipo de investimentos que precisamos como de pão para a boca: com uma alta componente exportadora, que criem postos de trabalho qualificados e que integrem uma forte componente nacional. Nem todos cumprem estes requisitos. Como aqui se referiu a semana passada, a fábrica de baterias de iões de lítio da Renault-Nissan, que vai arrancar em Cacia, terá uma componente nacional reduzidíssima, quase todos os seus elementos serão importados e a produção das células será exclusivamente feita no Japão.
Para lá destes aspectos, emerge agora um outro. O investimento estrangeiro a sério que o país tem conseguido atrair nos últimos anos vem, na quase totalidade, de fora da Europa e dos Estados Unidos - e, dentro destes, dos que falam português: Angola, sobretudo, e Brasil.
Esta semana tivemos mais dois exemplos: a OPA da Companhia Nacional Siderúrgica do Brasil sobre a Cimpor, a maior cimenteira portuguesa, e a tomada de 10% da ZON pela empresária angolana Isabel dos Santos. A conclusão admissível é que Portugal pode estar a emergir como um primeiro passo do processo da internacionalização de empresas desses países, um trunfo que pode e deve ser potenciado.
Há, no entanto, diferenças que convém não ignorar. E uma delas é que, enquanto o investimento brasileiro tem também apostado na criação de estruturas de raiz (a plataforma logística, a fábrica da Embraer), o investimento angolano concentra-se unicamente até agora na tomada de participações financeiras em bancos (BCP, BPI), empresas petrolíferas (Galp) ou de telecomunicações (ZON) - e não é nada de esperar que altere este padrão de comportamento. Por isso, faz sentido utilizar esta abertura de Portugal ao investimento angolano, para obter certas vantagens para o investimento e as exportações portuguesas para Angola. E quem melhor que Isabel dos Santos ou Manuel Vicente, presidente da Sonangol, para sensibilizar o poder político angolano para estas questões?
Uma coisa é certa: continuamos a atrair investimento estrangeiro. O futuro dirá se é este que nos interessa.
Nicolau Santos
Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009