Dos três grandes sarilhos que o Império Britânico deixou ao mundo - Caxemira, Chipre e Palestina - o último é o que mais incómodo dá. Chipre dificulta as relações da União Europeia com a Turquia; Caxemira atiça perigosamente hostilidades entre a Índia e o Paquistão e complica a questão afegã; a Palestina - ou melhor, a relação do estado de Israel com os estados árabes vizinhos e com os habitantes da Cisjordânia e da faixa de Gaza - envenena as relações do Ocidente com o mundo árabe e é um desafio à capacidade hegemónica norte-americana.
Toda a gente sabe quais os passos indispensáveis que israelitas e palestinianos terão de dar para chegarem a entendimento durável: devolução de territórios ocupados; renúncia à violência; reconhecimento do direito à existência de Israel. E toda a gente sabe que só há um poder no mundo capaz de os obrigar a dá-los: os Estados Unidos da América. Cada inquilino que chega à Casa Branca tenta. Até Bush filho, que por leitura literal da Bíblia e por querer fazer sempre o contrário do pai pouco quis arbitrar na questão - convencido de que assim ajudaria Israel - acabou por ser o primeiro Presidente americano a exigir a criação de um estado palestino.
Obama chegou cheio de sangue na guelra e sublinhou que para se reencetarem negociações entre as partes a construção de colonatos tinha de parar. A pouco e pouco, porém, foi enfraquecendo a exigência: Hillary Clinton disse recentemente em Israel que a suspensão temporária de (algumas) construções pelo Governo de Netanyahu era um gesto conciliatório sem precedentes (afirmando, depois de protestos árabes, que a posição americana sobre os colonatos não mudara). Obama recebeu Netanyahu quase às escondidas. As coisas são como são: Israel tem o seu Governo mais à direita de sempre; os Estados Unidos, o seu mais à esquerda desde Jimmy Carter. Mas Obama já na campanha eleitoral se distanciara do seu antigo director espiritual (e pastor que o casara), senão anti-semita pelo menos anti-sionista. Hoje o seu conselheiro principal e o seu chefe de gabinete são judeus, tendo o último sido voluntário no exército de Israel durante a 1ª Guerra do Golfo.
Como nalgumas outras iniciativas de Obama, estaremos a começar a ver o túnel ao fundo da luz? Talvez não. Talvez a pressão sobre a extrema-direita israelita se reafirme - sem ela não haverá paz - mas só um Presidente americano, Bush pai, foi capaz de a manter. Por outro lado, Washington tem de se opor ao coro actual de ataques assassinos e difamatórios a Israel. (Neste, vozes europeias oportunistas suscitam má vontade em Washington, o que é mau, e traem valores não negociáveis, o que é péssimo).
Ambas as partes têm boas razões e muita má fé. Até se entenderem passarão muitos anos. Entretanto, para sua própria segurança, americanos e europeus não podem consentir que Israel viva em permanente perigo de morte, à mercê de extremistas islâmicos e de moderados confusos que julgam entender as razões destes.
José Cutileiro
Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009