Exercendo entre quem o usa tranquilizante efeito igualizador, e suscitando em quem o vê sentimentos de reverência timorata, o unifome dos políticos não escapa à genérica semântica da farda, podendo merecer pretexto a meditação de algum interesse. E a circunstância de se reflectir no que se veste muito do contexto social que lhe subjaz, ajudando-nos na construção da velha identidade pátria, tradicionalmente fragilizada, tornará atempadas talvez as linhas que deixarmos aqui.
Se seleccionarmos como amostra o panorama do colectivo parlamentar que mais ou menos nos serve, eis que nele detectaremos um espectro de imperativos a que o uniforme responde, e que se manifesta inabalável por qualquer tentação de escolha individual. Aí figura o fato escuro com a gravata lisíssima, ou raramente listada, numa dinâmica que viaja da direita para a esquerda, mas que no percurso gradualmente se esvai da energia que a alimenta. Distinguindo-se embora o desconchavo da gravatinha coruscante, arvorada pelo deputado que haja descido das berças, a farda triunfa quase sem quebra nos membros do partido da maioria relativa, o que nos conduz a que pareçam estes mascarados, quando os avistamos em indumentária de fim-de-semana, passeando tristemente pelas galerias de um centro comercial. Se na formação da esquerda histórica predomina entretanto o mesmo adereço, nem sempre todavia alinhado com o minimalismo de bom tom, já no seio dos muito jovens se declara o contrafeito abandono de estigma semelhante, compensado porém pelo pelintra casaquinho do amanuense cumpridor. E só na esquerda mais à esquerda reina, e sem a mínima rebeldia, diferente disciplina, posto que não menos férrea, expressa no pullover desprovido do garrote que aperte as goelas.
Inúmeras indagações se mostram oportunas a este propósito, e desde logo a que procurasse estabelecer até que ponto influenciará no ânimo dos eleitores a representação do uniforme, e as fantasias que lhe vão conexas. Seria curioso também seguir as variantes da farda no feminino, e até para nos não acusarem de desrespeito de quotas, e auscultar a facilidade, ou a dificuldade, com que os uniformes das diversas áreas aceitariam a tatuagem, simpática porventura a uma faixa não assumida da direita mais à direita, se ousasse ela ir tão longe, ou o piercing, afecto talvez a um sector da esquerda mais à esquerda, se perdesse este completamente a vergonha. E não se duvide de que concluiria uma tal pesquisa, ao contemplar o valor da farda dos nossos mandatários como fétiche puro e simples, pela absoluta ineficácia dela como tónico libidinal.
Suponhamos que trocavam um dia destes, e entre si, de uniforme Paulo Portas e Francisco Louçã. Calcule-se com que espanto escandalizado haveriam de receber a metamorfose as respectivas bancadas, e com que troça reagiria a ela o sobejante da Assembleia da República. E imagine-se com que boa gargalhada os premiaria cada um de nós, e sobretudo os não tão sisudos como costumam ser os homens públicos, que vegetamos como meros cidadãos de um país que anda a despedir-se aos poucos, e sem disso se dar conta, da saudável vontade de rir.