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Tentações do diabo

8:00 Segunda feira, 29 de setembro de 2008
No último artigo procurei antecipar, com números, aquele que seria um orçamento 'normal' para 2009. E, sem que o tenha dito expressamente, creio que era óbvia a mensagem implícita: o Governo não tem espaço para loucuras eleitoralistas. Mas 2009 é um ano especial. Que convida a medidas especiais. E nada nos garante que as loucuras não apareçam, a pretexto de um fenómeno qualquer.

Hoje vou reflectir sobre algumas tentações que passam pela cabeça dos políticos.

A primeira tentação é o enquadramento orçamental. Nos cálculos que elaborei, assumi que o PIB cresceria 1,3%, com um deflator de 2,5%. Mas nada impede uma postura mais optimista: um crescimento de 2%, por exemplo, adicionaria às receitas mais de 500 milhões de euros. Também é possível admitir uma recuperação excepcional de receitas, assim como um diferimento excepcional de despesas: SCUT, fornecedores, etc. Tudo junto, poderíamos ter mais uns dois mil milhões para gastar.

Num outro plano, creio ser consensual o estado da nossa economia: produz pouco e distribui mal. A produção há-de melhorar-se um dia, quando ganharmos a batalha da produtividade. Mas a redistribuição pode atacar-se desde já, pela via fiscal. Imaginem que acrescíamos 10% à tributação das empresas (+IRC) e os transferíamos para os salários dos trabalhadores (-IRS): seriam 568 milhões de euros a passar duma classe para outra, a que se juntaria o sorriso aberto da ala esquerda do PS.

Mas há mais formas de redistribuir. Uma outra está no interior do próprio IRS. O PCP e o Bloco de Esquerda, honra lhes seja feita, não se cansam de referir o contraste chocante entre aqueles poucos que dispõem de fortunas colossais e a legião imensa dos que não têm nada e no limite recorrem à sopa dos pobres. Ou nem isso. O que faria sentido seria criar um escalão específico para estas grandes fortunas, taxá-las devidamente, e afectar o produto a esta vergonhosa exclusão social.

Por último, temos o défice. É óbvio que, no cenário normal, assumi um valor de apenas 1,5% do PIB, porque é esse que consta do PEC 2007-11 que o Governo fez validar em Bruxelas. Mas a situação alterou-se radicalmente. E creio que não seria difícil forçar um cenário mais expansionista, para aliviar a pressão. Pois bem, se em vez de 1,5% considerássemos 2,9% (o limite é 3%), teríamos mais 2,5 mil milhões de euros para gastar. Já imaginaram as 'obras' que se poderiam fazer?

Como se viu, todas estas hipóteses gerariam muito dinheiro. Mas nem todas são iguais. Forçar um enquadramento económico mais favorável seria perigoso, e haveria quem dissesse que se ultrapassara a barreira do plano ético. Aumentar o défice dentro dos limites tolerados apenas precisaria de uma exposição, porventura a juntar a outras de países tão aflitos quanto nós. Já as redistribuições de rendimento, estas ou outras, não passam de opções políticas que todos devemos respeitar.

Perguntará aqui o leitor: este texto é a sério ou uma provocação? Nem eu sei bem. Faça o leitor de escriba: o que é que acha? Às vezes há tentações do diabo...

Daniel Amaral

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cjours (seguir utilizador), 1 ponto , 15:30 | Sexta feira, 3 de outubro de 2008
Tudo isto é irrelevante. Na prática, a oposição vai sempre acusar o Governo de eleitoralismo, se o Governo 'abrir os cordões à bolsa'. Se o Governo não o fizer, será acusado de ser insensível à crise...
Não interessa o palavreado que uns e outros vão proferir. A única coisa que interessa são os resultados do próximo ano! Resultados, é isso que nós queremos ver e, a seu devido tempo, julgar.
De palavreado, projecções, cálculos, antevisões e análises estamos cheios!
 
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Tentações do Diabo
Manuel Almeida (seguir utilizador), 1 ponto , 17:39 | Terça feira, 7 de outubro de 2008
Daniel Amaral é um economista, analista e gestor. Para o orçamento de Estado assume um crescimento de 1,3% de crescimento para o ano que vem 2009! Se tudo correr bem admite que possa ser 1,5%! Estamos, como é obvio, no reino do puro delírio. Estamos em plena recessão e à beira de uma grande depressão (que pode ainda ser evitada) e Daniel Amaral prevê um crescimento de 1,3%. Fantástico. Que modelos robustos de previsão deve ter. Muito melhores do que os do FMI. Que poder de antecipação. De ver o que mais ninguém vê (só ele e o Governo).

Por outro lado arrisca chegar ao limite de 3% do déficit (2,9% admite). Que coragem. Quando todos os países mais importantes da Europa já referem que os 3% não se aplicam em tempos de crise, DA insiste que Portugal não deve ultrapassar esse mítico risco.

Nas opiniões de DA estão espelhadas as doutrinas económicas correntes, a falta de arrojo, a incapacidade de compreender o mundo em redor, a inultrapassável dificuldades das elites em gizar uma estratégia de crescimento para o país.

Quanto a diminuir as desigualdades o próprio DA admite que não passa de uma pequena provocação, como quem promete uma esmola mas se furta a dá-la no último minuto dizendo: “tenho melhor em que gastar este dinheiro”.
 
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