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Suficientemente loucos para jogar

Os jogadores em 'piloto automático'. Afinal, para que serve um treinador, desterrado num banco, quando só o jogador pode tocar na bola?

Luís Freitas Lobo (www.expresso.pt)
9:00 Quarta feira, 8 de setembro de 2010
Depois de longa ausência, o regresso de Quaresma pode ser uma boa notícia para a seleção
Depois de longa ausência, o regresso de Quaresma pode ser uma boa notícia para a seleção
Hugo Delgado/Lusa

As pessoas já não acreditam em heróis. Esquecem os mitos, só comunicam com seres meramente terrenos e resignam-se à fatalidade do destino. Este 'fim do heroísmo' que marca os nossos dias é, afinal, a prova que algo se partiu na ligação entre esses seres que faziam sonhar (atores, pintores, futebolistas...) e a multidão que os segue. O futebol tenta resistir a essa queda. Há alguns sinais (jogadores) de resistência. Cada vez mais ténues, porque são cada vez menos futebolistas, para serem mais atores. Depois, entram em campo com um estado de ansiedade acrescido que os faz parecer piores do que realmente são. A única solução para eles sobreviverem na relva, e resgatarem a sua essência, está na fuga à realidade que os rodeia. Não é fácil. Mas alguma vez terá sido?

Morreu esta semana, um mito de outras eras. Francisco Varallo. Era o último jogador vivo a ter disputado a primeira final do Mundial de futebol, em 1930. Tinha feito 100 anos há pouco tempo. Argentino, era o mais jovem em campo (19 anos) nessa longínqua tarde dos anos 30. Ficou eternizado como "El Cañoncito", pelo seu forte pontapé, mas, nesse dia, não foi suficiente para ganhar o jogo, apesar de ter chegado ao intervalo a vencer 2-1. No segundo tempo, tudo mudou. Ganhou o Uruguai, 4-2. Há uns tempos, ainda lúcido, falava das razões para a derrota: "Não foi falta de coragem. O que nos faltou foi loucura!". E confessava que ainda agora, ao lembrar-se do jogo, chorava e ficava zangado. "Nesse dia, não fomos suficientemente loucos para ganhar".

A "loucura" de que falava Varallo é um bem de primeira necessidade num jogador de vocação ganhadora. No fundo, simboliza a capacidade de ele se abstrair de tudo o que o rodeia e, dentro do relvado, jogar sem nunca sentir o sufoco da ansiedade. Muitos jogadores que o fazem são vistos como rebeldes, subversivos taticamente, ou, no limite... loucos. A seleção, hoje presa numa teia de problemas, necessita, mais do que nunca, de jogadores desse tipo. É algo que vive muito para lá da questão do 'piloto automático'. É, antes, uma questão de jogadores 'suficiente loucos' para jogar abstraídos da realidade em que vivem.

É nesse cenário que regressa um dos maiores 'loucos' do nosso futebol, Quaresma, um talento insubmisso que, após a depressão italiana, se reacendeu na Turquia. Afinal, para que serve um treinador, durante 90 minutos desterrado num banco à margem das quatro linhas, quando dentro do campo só o jogador pode tocar na bola? É tentador pensar assim, mas não se pode ver as coisas dessa forma. Porque o heroísmo (como a coragem ou a loucura) tem, quase sempre, a desvantagem de ser desordenado. E a verdade é que os melhores tempos do gipsy king da bola foram sempre quando teve treinadores que melhor o entenderam (de Co Adriaanse a Jesualdo). Pelo contrário, Mourinho, não teve 'paciência' com ele.

Nesta altura, o único vinculo que resta à seleção com o público (país), está nas botas dos jogadores. É um esforço de imaginação difícil para todos (jogadores e público). Os sintomas da patologia que afetam "a seleção sem selecionador" têm distinta gravidade, mas estão todos relacionados com a chamada 'síndroma do umbigo'.

Só os jogadores podem tirar a equipa desse estado de estupefação. Por isso, o regresso, neste momento, de um 'louco' como Quaresma é quase uma ironia perfeita. Porque só a loucura tem o poder de influir sobre o piloto automático e as trevas que rodeiam a equipa. Depois disso, ainda fica tempo para tudo.

Três jornadas


Três jornadas, três jogos apenas, é curto para tirar conclusões, mas, no futebol como na vida, é fundamental perceber a importância das primeiras impressões (aquelas para as quais não existe uma segunda oportunidade). Nesse sentido, o Benfica deixou a sensação de ter entrado competitivamente com o nariz demasiado no ar. Chamem-lhe complexo de superioridade, mas, em campo, o problema, para além da questão do guarda-redes, retirou à equipa consistência e dinâmica tática. O FC Porto entrou em reconstrução, mais combativo a meio-campo, menos rápido, mas com mais vontade de ter a bola, mesmo que seja só para 'descansar' com ela. É a diferença de estilo entre Villas-Boas e Jesualdo. O Sporting parece que já podia ser melhor equipa do que é neste momento. Fica a ideia de Paulo Sérgio mexer-lhe demais, numa fase em que é fundamental criar um padrão (e onze) de jogo base. O Braga de Domingos deixou de ser o candidato-surpresa para ganhar com naturalidade. Joga de 'olhos fechados'.

A questão Roberto


Depois de muito debate, Roberto permanece na baliza do Benfica. Entre uma falha arrepiante contra o Nacional e um penalty defendido contra o Setúbal está um abismo no qual caíram todas as análises que aconselhavam à sua troca e empréstimo. Qualquer decisão (dispensar ou ficar com o guarda-redes) é legítima. O que não faz sentido algum é alterá-la apenas por causa de um penalty defendido. O problema de Roberto nunca esteve entre os postes, mas sim nas saídas da baliza, sobretudo a cruzamentos. É uma deficiência técnica ou um problema (mental) de confiança? Sejam quais forem as respostas, já são perguntas demais para fazer a um guarda-redes titular do Benfica, o qual, por definição, nunca deveria suscitar tantas dúvidas.

O polvo e a nuvem


Olhamos para as últimas três décadas da seleção, e é impossível encontrar uma relação pacífica entre Federação e selecionador na hora da saída. Há sempre uma degradação dessa relação até ao ponto em que a lógica (sensibilidade e bom senso) desaparece. O caso Queiroz tem a sua especificidade mas é impossível dissociar tudo isto deste constante status adulterado da nossa federação e guerra de poderes que a envolve. Queiroz fala em "justiça governamental" na sequência de um processo que ultrapassa questões técnicas, as únicas nas quais verdadeiramente se deve analisar o trabalho de um treinador de futebol. Porque o futuro do futebol português é algo demasiado importante para ficar suspenso em função de uma frase, por mais deselegante que ela seja, dita por um treinador a um médico.

Depois da Federação ter considerado "desportivamente positivo" o comportamento da seleção no Mundial, é impossível ela agora questionar tecnicamente o trabalho de Queiroz. Considerando a 'justiça' da ADoP como algo que escapa à Federação, o que poderá levar Queiroz a um 'beco sem saída' é uma sua afirmação posterior que pode ser, no fundo, o 'buraco da fechadura' para a federação sair desse seu primeiro comunicado de elogio desportivo e encontrar um argumento para prescindir do selecionador. É, claro, quando ele fala de um vice-presidente como a cabeça de um polvo que o quer tramar. Esta semana, Queiroz tentou compor essa frase (polvo significa nuvem...) mas o processo que decorre sobre essa sua afirmação é, claramente, o mais grave de tudo isto (a história do doping da Covilhã é, literalmente, um processo kafkiano). Após estes dois jogos, Madaíl tem de sair do seu 'casulo calculista' e tomar uma posição definitiva. Porque é insustentável ter uma Federação em 'piloto automático'.

Texto publicado na edição do Expresso de 4 de setembro de 2010


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Encher chouriços
bigbrotherx (seguir utilizador), 1 ponto , 13:08 | Sexta feira, 10 de setembro de 2010
Cada vez tenho menos duvidas em considerar os seus comentários insípidos, considera o futebol de formação em decadência e ignora a franca melhoria no sector e os valores nacionais, hiper-valoriza o contributo de Queiroz como formador e esquece que os melhores 9's dos ultimos anos passaram completamente despercebidos ao então selecionador, encontra lacunas no Roberto mas não as vê nos colegas de profissão com a mesma intensidade, cavalgar a onda mediática é fácil basta saber encher chouriços. Então a "geração de ouro" não tem valor intrínseco, são as poucas semanas que o professor os acompanhou que determinou o seu sucesso profissional ao longo de anos e anos? Sinceramente, a bajulação tem limites.
 
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