A Associação Novo Macau Democrático aproveitou a visita do presidente chinês Hu Jintao para promover uma manifestação, a reclamar mais democracia e contra a corrupção (ver fotogaleria no fim do texto). Principal força da oposição, conseguiu eleger em Setembro último três dos 12 deputados eleitos por voto universal - os outros 17 ou são eleitos de forma indirecta pelos numerosos lobbies organizados, ou são nomeados pelo próprio chefe do governo.
A manifestação, que foi coberta por largas dezenas de jornalistas - muitos dos quais vindos para as cerimónias dos dez anos da transferência -, reuniu mais de um milhar de pessoas. O principal dístico, inscrito a branco num enorme plástico verde - precisamente as cores da bandeira da RAEM -, reclamava para 2019 a generalização do voto universal nas eleições para a Assembleia Legislativa. Noutros dos numerosos dísticos - todos em chinês, à excepção de meia dúzia em inglês - podia ler-se, por exemplo, "Democracia completa para salvar Macau" e "Poder absoluto, corrupção absoluta".
Uma manifestação impossível na China
O desfile teve início no largo de Iao Hon e tinha à cabeça o deputado Ng Kuok Cheong, o líder da corrente democrata chinesa de Macau, muito influenciada pelo Partido Democrata de Hong Kong. Era visível uma forte componente do povo pobre de Macau, com muitos idosos e mulheres, por vezes com máscaras anti-gripe A, e a quem mais tocam os graves problemas da saúde e da habitação.
Sempre enquadrada por forças da polícia, a manifestação decorreu sem qualquer incidente assinalável, com os jovens e os mais militantes a gritarem permanentemente palavras de ordem, acompanhadas do erguer do punho direito.
Ao longo do percurso, foi fotografada e filmada por muitas centenas de transeuntes, residentes em Macau mas sobretudo turistas chineses. Como se sabe, uma manifestação do género no resto da China seria simplesmente impensável (excepção feita à também região administrativa especial de Hong Kong ...)
"Tem que perguntar ao meu superior"
Ao fim de mais de uma hora, a manifestação passou defronte da Escola Portuguesa, após o que curvou á direita, para entrar na avenida Dr. Mário Soares, entre o hotel Sintra e o Emperor, um dos novos casinos, conhecido pelas 78 barras de ouro que exibe no chão do hall de entrada - cada uma delas rodeada de vários brilhantes, que se diz serem diamantes...
O termo da manifestação foi em frente do Palácio do Governo - o mesmo onde, há dez anos, decorreu a cena do arriar da bandeira nacional, que a seguir o general Rocha Vieira encostou ao peito. Uma delegação dos manifestantes fez a entrega de várias petições a um desconhecido funcionário da palácio. O repórter tentou saber junto do próprio o nome e o cargo. A pergunta foi feita em inglês e português. A resposta do funcionário veio num bom português: "Tem que perguntar ao meu superior". O superior, de olhar no chão, respondeu com um aceno negativo da cabeça.
Posse do novo Chefe do Executivo
Maior aposta na educação e na formação de quadros, que permita a Macau diversificar a economia - foram as duas principais mensagens que o presidente chinês deixou na tomada de posse do novo Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM).
Hu Jintao, que reconheceu os êxitos alcançados durante os dois mandatos de Edmund Ho, disse que o novo Governo deve garantir a prosperidade da população. O serviço público deve ser dirigido em primeiro lugar aos residentes, defendeu o Chefe de Estado chinês. O Presidente da República Popular da China sublinhou ainda a necessidade de a conduta dos governantes ser exemplar, frisando que Macau deve ter uma administração limpa e transparente.
No primeiro discurso depois de tomar posse como Chefe do Executivo, Fernando Chui Sai On disse que o novo Executivo quer melhorar a qualidade de vida da população. O sucessor de Edmund Ho, que quer "elevar a competitividade" de Macau, vai apostar na implementação de incentivos à criação de novas indústrias. "Pretendemos reforçar a gestão administrativa, dar a maior atenção às acções de consulta pública e à promoção do valor da integridade", preconizou Fernando Chui Sai On.
O beija-mão a Stanley Ho
O magnata dos casinos de Macau, internado há mais de quatro meses, depois de ter sofrido um traumatismo craniano e uma intervenção cirúrgica, surpreendeu toda a gente ao comparecer na cerimónia.
Acompanhado por uma enfermeira e da quarta mulher, Angela Leong, fez-se transportar numa cadeira de rodas. Visivelmente diminuído e envelhecido, Stanley Ho, de 88 anos, fez questão de presenciar a tomada de posse de Fernando Chui Sai On, que contou sempre com o seu apoio na candidatura a líder da RAEM.
No final, Stanley Ho foi cumprimentado por inúmeros dos presentes na tomada de posse, incluindo o próprio presidente chinês Hu Jintao.