É com satisfação que tenho constatado a reacção pujante dos professores de Harvard aos gurus mediúnicos de autoajuda. Quando de facto uma área considerável das livrarias (e hipermercados e gasolineiras) já está perdida para tudo o que é manual místico para resolver dramas quotidianos desta e da próxima vida, eis que os mais carismáticos cientistas colocam as suas palestras online num registo prime time TV: 25 minutos, com piadolas a pontuar, e slides a resumir. Este semestre tirei uma especialização em neurociência, enquanto estava por casa a dobrar meias e a tratar da roupa. As coisas do cérebro sempre me interessaram e dá melhor conversa de bar do que o Espaço não só pelo desinvestimento da NASA mas porque até os próprios planetas estão a ser despromovidos.
Em contrapartida o que se passa com o cérebro é um turbilhão notável de actividade noticiosa. Todas as semanas há novidades sobre o que lá se extrai de luzinhas a piscar nas Ressonâncias Magnéticas. Ainda há dias noticiava o Expresso que as memórias traumatizantes já podem ser apagadas. Uma destas tardes fiquei pespegado a um documentário no Discovery a ver um cientista explicar a dificuldade de conduzir uma experiência sobre as diferenças entre o orgasmo feminino e masculino no cérebro. A questão - fascinante - foi como colocar os objectos de estudo numa monstruosa máquina de scanner, injectar-lhes um líquido de contraste que só dura dois minutos e pedir-lhes que tivessem ali um orgasmo.
Uma das mais interessantes investigações está relacionada com a existência de Deus no cérebro seja no modo como as crenças religiosas "acendem" diversas zonas como na própria conclusão de que afinal Ele já se escapou de lá não existindo um único "Ponto Deus" - o "God Spot" - responsável pelas experiências divinas.
Ora quem chegou até aqui dirá que dobro muita peúga. Mas o propósito deste texto tem a ver com o modo como o cérebro banaliza e anula a felicidade de ganhar o totoloto (isto é Harvard, via Daniel Gilbert, do melhor, hein?). Há dias tentei sacar este material num jantar natalício com um estrangeiro que dizia que os portugueses eram todos uns pategos que não sabiam ser felizes. Expliquei que isso da felicidade é fruto de um simulador de experiências que temos no córtex cerebral, uma dança de neurónios, e que até funciona bastante mal quanto à capacidade de prever o que nos irá fazer feliz. A verdade, disse com complacência, é que tendemos para exagerar o impacto que determinados eventos irão ter em nós: sejam eles negativos ou positivos, triviais e de coração, namoros ou infidelidades, carreira e promoções, gafes, vitórias e derrotas, mas também desejos obsessivos como emagrecer ou mudar de carro. Esses eventos, disse ao beberricar a cola-light, diluem-se nas nossas vidas rapidamente. Há mesmo experiências científicas feitas com vencedores de lotaria e com pessoas que ficaram paraplégicas. Ao fim de um período de tempo essas pessoas estão igualmente felizes (ou infelizes) ao que estavam antes desse acontecimento marcante.
E embora sejamos maus a decidir e a calcular o que nos faz feliz no futuro - porque evoluímos muito depressa de grupos pequenos que tinham vidas curtas e queriam procriar - somos muito bons a racionalizar as novas situações em que nos encontramos: quer tenhamos ganho dez milhões ou tenham publicado uma foto nossa todo nu na primeira página da revista de fofocas. Pensei avançar com a equação de Bernoulli aplicada ao valor das decisões mas o peru de Natal chegou.
Digo-vos que este é naco de primeira para arrasar com preconceitos antropológicos sobre a infelicidade dos povos. "Que portuga mais babaca", disse-me o meu interlocutor etilizado e com cara de quem não tinha estado a pescar uma palavra da bela teoria do córtex pré-frontal com neurónios dançarinos. Lá falhara a capacidade de prever o futuro. Para a próxima limito-me a cantar o fado.
Daniel Gilbert
Professor de Psicologia em Harvard e uma das maiores sumidades sobre o modo como o cérebro produz e cria imunidade à felicidade é autor de uma série documental de seis horas para a PBS em Janeiro que estará à venda durante 2010. "This Emotional Life" conta com a participação de vários cientistas e de personalidades como Chevy Chase, Larry David, Alanis Morissette, Dalai Lama, John Leguizamo e Richard Gere.
Palestras de Gilbert no seu site pessoal
http://www.wjh.harvard.edu/~dtg/gilbert.htm
Documentário - This Emotional Life - Understanding our Human Nature
http://www.pbs.org/thisemotionallife/
Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009