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Li no "i" online a longa entrevista de Mário Soares, a pretexto dos seus 85 anos. Longa e, como sempre, interessante, porque Soares teve uma vida fascinante e é um notável contador de histórias. Aos 85 anos, ele mantém, intactas, essa fabulosa alegria de viver, curiosidade e optimismo que só encontramos em raros homens do poder (estou a lembrar-me das memórias de juventude de Churchill, que ando agora a ler). Pense-se o que se pensar do percurso político e das ideias de Mário Soares, a grande verdade é que ele destoa no oceano de mediocridade envolvente. Soares é um dos maiores portugueses do seu tempo, o português mais admirado no estrangeiro (sim, gentes, mais do que o Cristiano Ronaldo), e, sobretudo, um homem com um pacto de vida jamais traído com a liberdade - coisa tão rara em terra onde a liberdade sempre foi tão pouco estimada.
Acabo de ler a entrevista e vejo os posts dos leitores a comentá-la: um chorrilho de insultos, de calúnias reaccionárias de sempre, um misto de ódio, inveja e desprezo à flor da pele que arrepiam de nojo. Que gente é esta? Que nação é esta que produz gente assim? Que, pela frente, calam, obedecem e curvam a espinha, e, por trás caluniam, insultam, inventam, e vomitam até à náusea essa tão antiga e fatal característica portuguesa: a inveja. Mais uma vez me convenço de que esse território do anonimato e da impunidade dos blogues e redes sociais foi inventado como uma luva para satisfazer a insaciável frustração desta gente. A inveja e a cobardia escorrem por ali como o mel em terra prometida. Pois que morram de indigestão de tanto prazer solitário!
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Também era de esperar isto: como nem os apelos da drª Ferreira Leite, em momento de particular lucidez democrática, convenceram o PGR a divulgar o teor das gravações das conversas entre Sócrates e Armando Vara, o povo da net, frustrado no seu voyeurismo justicialista, resolveu o assunto inventando-as. Algum 'Chico esperto', certamente mal aproveitado neste seu talento, fabricou um documento com cabeçalho falso do tribunal e produziu, fingindo reproduzir, o teor das conversas - tal como ele gostaria que fossem. O 'povo', as 'vítimas' dos políticos agarraram na coisa com mãos ambas e, num fósforo, transformaram a calúnia em incêndio na floresta: é assim o poder imensamente 'democrático' da net.
Ai de quem tenha o azar de cair nas garras dos fabricantes de 'verdades' da net: nunca mais se livra delas, é a velha regra de Goebbels em todo o seu esplendor. Acreditem, sei bem do que falo, pois que vivo com duas vidas: uma verdadeira, outra a que consta da net. A semana passada, por exemplo, recebi um mail de uma senhora, que, num rebate de consciência, me vinha pedir desculpa por ter habitado blogues onde colocava posts com o meu nome: ou seja, falava, escrevia e discutia, como sendo eu. Coisa pouca, para o habitual: só blogues falsos, aparentemente criados e alimentados por mim, já topei com dois; frases supostamente ditas por mim e que nunca disse, são várias - uma das quais tem dado imenso jeito 'argumentativo' à malta da Fenprof. Enfim, um tipo habitua-se - que mais pode fazer?
Vem agora o senhor PGR dizer que vai mandar "investigar" quem fabricou a tal transcrição falsa das conversas gravadas a Sócrates e Vara. Afinal de contas, caramba, não é assim tão irrelevante inventar uma conversa do primeiro-ministro! Se isto passa impune, restará alguma coisa que não seja impune? Mas não vale a pena incomodar-se, dr. Pinto Monteiro: eu posso explicar-lhe, por experiência própria junto dos seus serviços, como acabará a investigação. Acabará em nada. Porque, mesmo que um juiz daqui se dê ao incómodo de mandar uma carta rogatória a um juiz americano, pedindo-lhe que notifique o servidor americano da net para que este diga quem utiliza a conta de onde partiu o mail original, o americano responderá que, ao abrigo da 5ª Emenda Constitucional sobre a liberdade de informação, a identidade do utente está protegida. Assim vai o mundo, gente: a liberdade de informação protege o anonimato, a calúnia e a falsificação! E só quem escreve publicamente, assina por baixo e está mais do que identificado, é que responde pelo que escreve.
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Nunca percebi porquê, mas a Procuradoria-Geral da República também goza do privilégio de poder dar 'pareceres' interpretativos sobre as leis, os quais se transformam em fontes de direito, acatadas pela Administração Pública, como se da sentença de um tribunal superior se tratasse. Agora, a PGR acaba de dar um parecer que, satisfazendo as pretensões do Sindicato Unificado da Polícia, decretou que a lei que, em 2001, suspendeu a atribuição dos subsídios de turno, patrulha e comando aos polícias que se encontrem de baixa de maternidade ou paternidade é ilegal, ela própria.
Em consequência, o MAI vai ter de pagar retroactivos de todos esses subsídios desde 2001: uns milhões a mais de dívida para um Estado falido. Ora, eu, por acaso, acho que a polícia devia ser mais bem paga, acho que é mesmo uma das prioridades remuneratórias do Estado. Mas também acho que essa prática habitual de pagar um mau ordenado e compensar com subsídios de toda a espécie, além de sair mais cara ao Estado, é fonte de permanente batota e frequentes motivos de espanto e indignação.
Então, um polícia que está de baixa - de paternidade ou o que quer que seja - vai receber subsídio de turno, de patrulha e de comando? Mas como, se ele está em casa, e não de turno, em patrulha ou em comando? Alguém me consegue explicar a lógica do douto parecer da PGR?
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As boas empresas, com alguma dimensão, costumam fazer, uma vez por ano pelo menos, sessões de brainstorming entre os seus quadros decisores. Retiram-se um fim-de-semana para um local agradável e, quando não se dedicam a ridículas brincadeiras retardadas, como jogar paintball, ocupam-se em tentar descobrir a sério o que vai mal na empresa ou o que vai bem e tem de ser continuado.
Já participei em algumas, poucas, experiências destas e concluí que a coisa até pode ser útil, se alguém conseguir calar o insuportável 'criativo' de serviço, que sempre existe em todo o lado e que não resiste a exibir-se, quer no paintball quer nas sessões de trabalho. Se tomarmos Portugal como uma empresa em sérias dificuldades, talvez fosse altura de sugerir aos partidos políticos que cada um escolhesse quatro ou cinco dos seus melhores quadros e que todos juntos se retirassem durante uns dias para pensar no destino que a coisa leva. Longe dos holofotes e da ribalta mediática, onde, visivelmente, a histeria e a falta de rumo parecem ter-se apoderado de todos.
Não é um pacto de regime, porque a democracia não precisa de ser suspensa, antes pelo contrário: é apenas a definição de um mínimo de objectivos comuns e soluções para lá chegar, seja qual for o governo do momento. Coisas tão óbvias como a resposta à pergunta 'levamos isto à falência ou não?'. Assim como se estivéssemos em guerra e a pergunta fosse 'é para tentar ganhar ou para fingir que se combateu?'.
Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Dezembro de 2009