Não é muito normal um anfitrião fazer tudo para incomodar o seu convidado, mas é o que acontece hoje em Israel. A visita de Joseph Biden, vice-presidente dos Estados Unidos da América, tem sido pontuada pelo anúncio de novos colonatos israelitas em território palestiniano, num espírito contrário ao que levou o número dois de Barack Obama a Israel: relançar o processo de paz com a Palestina.
Após um encontro com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, Biden afirmou que a construção de colonatos judaicos em território palestinano "é precisamente o tipo de medida que mina a confiança de que precisamos". Israel anunciou, ontem, que vai erguer 1600 novas casas para judeus ultraortodoxos no bairro de Ramat Shlomo, em Jerusalém Oriental, a parte da cidade que é a suposta capital do futuro Estado palestiniano. Já na segunda-feira, horas antes da chegada do número dois de Barack Obama, Israel divulgara a construção de 112 novos apartamentos
em Beitar Illit, na Cisjordânia, suscitando críticas do lado palestiniano.
O Governo israelita já pediu desculpa, hoje, pela vergonha causada a Biden. "Não tínhamos intenção nem desejo de ofender ou incomodar um homem tão importante", afirmou o ministro do Interior, Eli Yishai. Defendeu, porém, a medida em causa, reconhecendo apenas o "mau timing" da medida. Os ficam em terras ocupadas por Israel desde 1967, sem reconhecimento internacional, e ampliá-los contraria a promessa feita por Netanyahu a Obama em 2009. "Isto vai contra os debates construtivos que tenho tido", lastima Joseph Biden, para quem Israel está a prejudicar o trabalho da diplomacia americana em prol do processo de paz, paralisado desde a guerra de Gaza, no final de 2008.
O vice-presidente, que se encontrará hoje, em Ramallah, com o Presidente palestiniano Mahmud Abbas, lembrou que "a paz exige cedências histórias e corajosas a ambos os lados". Segundo o canal Bloomberg, a administração americana não foi previamente informada deste anúncio.
Críticas também vêm de dentro
A decisão de ampliar os colonatos foi criticada em todo o mundo árabe, mas a reacção mais surpreendente veio de dentro do Governo israelita. O ministro da Defesa, Ehud Barak (do Partido Trabalhista, parceiro do conservador Likud na coligação governamental), afirmou estar "em cólera" com uma medida que ameaça deitar por terra "longos meses de contactos para criar a confiança entre as partes para que as negociações pudessem ser recolocadas em marcha".
Também as Nações Unidas se mostram iradas. O secretário-geral da organização, Ban Ki-moon, escreveu num comunicado que "todos os colonatos são ilegais à luz da lei internacional (...) e as actividades dos colonatos são contrárias às obrigações estabelecidas pelo roteiro de paz, minando todos os esforços no sentido de um processo de paz viável". Ghassan Khatib, porta-voz do Governo palestiniano, afirmou na rádio que a decisão é "mais um indicador de que a prioridade do Executivo israelita é consolidar a ocupação ilegal e não contribuir para o êxito das negociações". E o ministro da Informação da Jordânia, Nabil Sharif, também se mostrou desagradado.
Israel defende-se afirmando que a decisão é "técnica" e estava tomada há três anos, pelo que agora se trata apenas de concretizá-la. O ministro do Interior, Eli Yishai, garante que não quis "provocar" os palestinianos e recorda que Jerusalém Oriental não foi incluída na promessa de suspender a construção de novos colonatos. O que leva Daniel Kurtzer, antigo embaixador americano em Israel, a afirmar que "esta suspensão de colonatos é um queijo suíço. Não é a sério".
O diplomata concorda que a decisão põe em risco o regresso ao diálogo, anunciado pelo enviado de Obama ao Médio Oriente, George Mitchell, há dois dias. Estas negociações - às quais a Liga Árabe e a Organização de Libertação da Palestina aceitaram conceder quatro meses - são indirectas, mediadas por Washington, precisamente devido à questão dos colonatos. Mahmud Abbas só aceitaria falar com Netanyahu sem intermediários caso houvesse um congelamento total dos colonatos. Obama pediu-o, mas o primeiro-ministro israelita disse "não".