09/02/2010 actualizado às 21:03
Raul Solnado (1929-2009) Solnado sem capacete  «  Raul Solnado (1929-2009)  «  Dossiês  «  Dossiês  « Página Inicial |

Solnado sem capacete

Raul Solnado não gosta dos palavrões, "género" que define como "sub-riso" e cujo sucesso o arrepia. Visite o especial dossiê Raul Solnado (1929-2009) .

José Alves Mendes
15:39 Sábado, 8 de Ago de 2009
Deixe aqui o seu comentário 1 comentário   [1416 visitas]
Aumentar Texto Diminuir Texto Link para esta página Imprimir Enviar por email
del.icio.us technorati digg facebook myspace reddit google search.live newsvine
Viajante incansável, nunca teve saudades de Lisboa, "
só ciúmes"
Viajante incansável, nunca teve saudades de Lisboa, " só ciúmes"
Jorge Simão

Este ano, Raul Solnado passa a integrar o clube dos octogenários. Não anda desagradado com o que dele dizem e dizer como gostaria de ser recordado é a única pergunta para a qual insiste em não ter resposta.

Clique para aceder ao índice do DOSSIÊ RAUL SOLNADO (1929-2009)

Anda cansado. Diz que boa parte da culpa é da América, que é como quem diz do primeiro filme de João Nuno Pinto, América!, em que o comediante participa: "A minha personagem morre e tive de filmar aquilo de uns dez ângulos diferentes. Dez mortes é muito para um homem só", suspira a rir, como só ele sabe.

A reedição de O Irresistível Raul Solnado, CD com dez monólogos (abre com "A Guerra de 1908") e duas canções, fê-lo andar em bolandas. Ainda o surpreende como é que "aquilo" funciona, passado quase meio século. De resto fica por casa, um simples apartamento sobranceiro à Mesquita de Lisboa, onde vive há 45 anos. Sai para jantar fora, viver entre amigos e dar aulas de poesia na Sociedade Guilherme Cossoul: "Não declamo, mas aprendi que podia ensinar poesia, ora pasmem-se!" À sua maneira, Raul vive para o prazer e sorri à gargalhada segundo o velho dito brasileiro que reza "quem não ri do que deve ser rido, morre com a boca cheia de formigas".

Viajante incansável, nunca teve saudades de Lisboa, "só ciúmes". Ali nasceu, no Pátio do Sarmento, Travessa de Santa Quitéria, a 19 de Outubro de 1929: "Fiz a infância e a juventude normais para alguém modelado num bairro popular lisboeta, com berlinde, eixo, sardinha, arco e gancheta, gritarias, porradas emuito riso avulso, claro." Vivia em frente da Guilherme Cossoul e logo se fez sócio. Ali há-de organizar um grupo de teatro, com José Viana e Jacinto Ramos, entre outros, feito de repertório clássico e moderno.

Uma crítica marcou-o: "Saiu no jornal que a Cossoul era o Conservatório da Esperança. Vivíamos ali numa euforia cultural desordenada e acho que foi então que entendi que o teatro tinha chegado à minha vida, exactamente na hora do gong." Estreia-se no Maxime e logo segue para o Parque Mayer onde fica uma década a fazer teatro de revista: "Queria aprender a minha profissão sem pressa e espreitava pelas cortinas a tentar perceber como é que aqueles grandes actores, António Silva, Vasco Santana, Laura Alves, João Villaret, deslizavam pelo palco, como mexiam as mãos, respiravam, como preparavam e atiravam as piadas." Sentiu que podia estar perante uma tarefa longa, mas a decisão estava tomada: "Os actores começavam por fazer papéis de netos e podiam acabar a fazer papéis de bisavós."

O Parque Mayer impressionou o jovem Solnado, que nele viu uma monarquia acantonada numa república penosa e áspera: "Era um centro de descompressão de angústias e um lugar de pequenas e médias subversões. Nunca chegaram a fazer a revolta, mas sempre estiveram à espera dela. E, claro, a muralha de aço da Censura: "Os censores ganhavam uns dinheiros que só lhes dava para ajeitar o vencimento e não podiam deixar passar uma frase, uma palavra ou um gesto que não estivesse de acordo com as normas. Havia um único sinal de abertura, nos quatro dias do Carnaval, em que em qualquer teatro um actor podia dizer a palavra 'merda'. Uma vez em cada sessão."

Em Outubro de 1961 estreia em palco o monólogo Ida à Guerra (por cá conhecido como "A Guerra de 1908"), do espanhol Miguel Gila (1919-2001). A guerra no chamado Ultramar vai no começo. A coincidência é nula: "Naquela altura tudo era político." Para Solnado é como se fosse o primeiro dia do resto da sua vida, pelo menos em termos de popularidade. Vai tê-la a rodos.

Na rua, as pessoas abordam-no para lhe contar piadas, as suas próprias piadas. O sucesso é tão grande que as coisas parecem fadadas a fugir ao controle: "Imagina o que é estares a fazer a 'guerra' e toda a gente na plateia estar a dizer o texto ao mesmo tempo... já sabiam aquilo de trás para a frente e de frente para trás. A partir daí, sabes que é altura de parar." Não foi o caso, como o demonstra o disco que foi um dos trunfos deste Natal. Mas se em disco a fortuna sorria a Solnado, em televisão a dita estava pronta a ir às lágrimas.

A 24 deMaio de 1969 é gravado o primeiro programa de "Zip Zip". A inspiração vinha da televisão norte-americana, mas fazer um produto em regime de estúdio aberto quando a Primavera marcelista se fazia Outono invernoso num abrir e fechar de olhos não era ideia que vingasse. O público dava a impressão de rir por tudo e por nada: "Para eles aquilo era uma libertação, quase um riso nervoso, mas não riam mais nem menos do que as pessoas de hoje."O pequeno ecrã continuará a ser benfazejo para Solnado, mesmo que em intervalos irregulares.

Regressa à "ribalta do sofá" com "A Visita da Cornélia", em 1977, que ainda hoje vê como uma experiência gratificante que não se compara, mesmo assim, com outro concurso, o esquecido "Faz de Conta", onde dava réplica aos concorrentes: "Ele podiam vencer-me no meu próprio jogo, o que era óptimo." A "sitcómica" "Lá em Casa Tudo Bem" e a telenovela "A Banqueira do Povo", ao lado de Eunice Muñoz, marcam também o seu legado na TV.

Podia haver mais qualquer coisa, como ele sabe bem. Num país onde o teatro está há muito arredado dos televisores, Raul ainda hoje lamenta como atordoada pena que se tenha perdido o registo de O Valente Soldado Schweik, que protagonizou no Teatro Maria Matos. Ele sabe na pele o que é não ter meios para fazer teatro para televisão ou recusar, por uma posição ética que chega ao prurido, que as câmaras entrem nos teatros. Perdem-se os registos.

Daí até perder-se a memória vai um passo: "O cinema é que fica", diz ele, que de Dom Roberto a A Balada da Praia dos Cães tem motivos de sobra para se orgulhar do que vem deixando no grande ecrã.

Vai vendo o trabalho alheio, a começar pelo humor. Gosta dos "Gato Fedorento" e enaltece o talento de Ricardo Araújo Pereira, vê "Os Contemporâneos" ("melhoraram muito desde o primeiro episódio") e só não gosta dos palavrões, "género" que define como "sub-riso" e cujo sucesso o arrepia.

Por graça, lembra que ele próprio cedeu ao "estilo" uma única vez, quando tinha quatro anos e um "pombo amestrado" lhe cravou as garras no ombro. O puto disse "foda-xe": "Foi a primeira gargalhada que eu provoquei", lembra ele a abrir A Vida Não Se Perdeu, a sua biografia assinada pela "cúmplice" Leonor Xavier, livro a pedir reedição devidamente aumentada.

Solnado chega aos 80 anos ciente de ter feito tudo o que podia. Pelo teatro, o riso e, já agora, o país. Ele que criou um teatro de raiz (o Teatro Villaret), sustenta a mesma visão quanto à relação entre o teatro e o público. Para tanto gosta de lembrar uns ditos de Racine: "Que tudo quanto fizerdes a todo o teatro seja simples e uno, que a principal de todas as regras é agradar e emocionar." É tomado por uma indignação que tem pouco de leveza: "Nesta nossa faustosa democracia, o teatro continua desequilibrado.

A revolução começou por condenar e prescrever o chamado teatro comercial, como se todo o teatro não fosse comercial.O teatro tem que ser uma oferta global." Dito assim, não é difícil adivinhar o que lhe vai na alma sobre os subsídios e os "experimentalismos". Sabe que os actores têm direito à sua vaidade e chegou a uma dolorosa conclusão: "Os críticos, quando comentam os espectáculos, falam do texto, do cenário ou da encenação, mas muito raramente avaliam a prestação dos actores. Isto para nós é humilhante e deprimente."

E remata, afundado em sombras: "Pessoalmente tenho muita sorte, porque estou quase a terminar a minha carreira." Já não está interessado em viajar, ele que reconhece que as suas muitas idas ao Brasil o mudaram e moldaram como pessoa e actor. Em rigor, também não está à espera que o tempo passe, que assista a cada vez mais funerais e amenos baptizados. O principal está feito. Enquanto humorista, continua a ver o ridículo através de uma lupa muito grande, ciente da dor que isso lhe traz. Diz que, portanto, os humoristas nunca são divertidos. Nem o Solnado? "Tenho dias, tenho dias", ri-se ele.

Artigo publicado no Actual da edição do Expresso de 3 de Janeiro de 2009.

Palavras-chave  Raul Solnado  actor  humorista
Relacionados
08 Ago 2009 Vídeos: Recordar Raul Solnado
[1855 visitas]
08 Ago 2009 Fotogaleria: O "senhor gargalhada" fechou os olhos
[1564 visitas]
08 Ago 2009 Português e malmequer
[2881 visitas]
1 comentários
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Um gentleman
oindesejado (seguir utilizador), 1 ponto , 0:35 | Domingo, 9 de Ago de 2009
Solnado partiu como viveu de discreto e sem alardes, sofria da doença que só os mais atentos aos media sabiam, mas ainda assim surpreendeu a nação, como o fazia quando estava em palco, na TV ou no cinema.

Devo dizer que é dos poucos humoristas que me conseguia fazer rir com a maior das facilidades, ali o humor respeitava a intelegência do público e respeitava o outro.

Só lamento que aqueles que agora tecem loas á sua memória, não lhe tenham dado em vida as oportunidades que merecia no pequeno écran.

Onde quer que esteja este cavalheiro, continuará a merecer a minha consideração, continuará a ser o humorista português do Sec. XX, a par de outros 2 grandes vultos Vasco Santana e António Silva.

É pena que portugueses deste calibre não sejam reconhecidos em devido tempo.

Ainda bem, que há videos e registos audio.

Até sempre Solnado.
 Como funciona a comunidade no Expresso Responder
1 comentários
Página 1 de 1   
PUB
 


Aviso
FAQ. Como funciona a comunidade no Expresso
Para fazer o seu comentário precisa de estar registado. O registo é gratuito e demora pouco mais de 30 segundos.

Se já for utilizador registado, coloque o seu mail e palavra-chave nos campos para o efeito, na página de registo. Depois disso, poderá comentar qualquer conteúdo.

Clique aqui  para se registar.

Em caso de dúvida escreva-nos para novosite@expresso.pt, seremos tão breves quanto possível a responder.

Miguel Martins, Editor de Multimédia do Expresso

Raul

8:00 Quarta-feira, 19 de Ago de 2009,
[1017 visitas]

Raul

8:00 Terça-feira, 18 de Ago de 2009,
[530 visitas]

António Costa propõe nome de Solnado para o Teatro Capitólio

10:30 Quarta-feira, 12 de Ago de 2009,
[1174 visitas]

Meio milhar de pessoas despedem-se com aplausos

20:53 Domingo, 9 de Ago de 2009,
[1401 visitas]

Encontro imediato de grau cómico

17:45 Domingo, 9 de Ago de 2009,
[1956 visitas]

Reacções à morte de Raul Solnado

22:52 Sábado, 8 de Ago de 2009,
[2707 visitas]

Áudio: "Até sempre Raul"

21:42 Sábado, 8 de Ago de 2009,
[1332 visitas]

A história do Solnado

19:36 Sábado, 8 de Ago de 2009,
[822 visitas]

O irresistível Raul Solnado que já não vai à guerra

17:59 Sábado, 8 de Ago de 2009,
[1469 visitas]

Vídeos: Recordar Raul Solnado

17:28 Sábado, 8 de Ago de 2009,
[1855 visitas]
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
Primus Inter Pares
Grupo ImpresaACAP