Ele próprio não sabe, mas Sócrates tem um papel histórico a cumprir: mostrar - pela teimosia - que 'este' Estado social é insustentável; mostrar - pelo irrealismo - que o statu quo criado por Soares, Cavaco e Guterres chegou ao fim. A bem da nação, Sócrates tem cumprido esse papel na perfeição, e, nos últimos dias, até atingiu níveis hollywoodescos na sua teatralidade decadente. A muralha 'deste' Estado social está a desmoronar-se ao som da trombeta da realidade, mas Sócrates anda a dizer que Portugal é Camelot renascido.
Todos os dias chovem factos que comprovam a autodestruição desta cidadela socialista, mas o Lancelote do Rato não liga a esses factos. Nem pensar. Os factos são 'neoliberais', e têm de ser negados. Vai daí, o nosso Lancelote apenas critica aqueles que cometem o sacrilégio de apontar o dedo e dizer "olhem, as pedras estão a cair. Se calhar é preciso reformar a muralha". Eis, portanto, a fórmula da nossa presente situação: o statu quo é insustentável, mas Sócrates defende-o. Pior: Sócrates lança um ataque histérico contra aqueles que advogam as - inevitáveis - reformas. Ora, esta incapacidade terminal para conceber a 'mudança' tem um nome: reaccionarismo. Sócrates é um político reacionário. Aliás, toda a nossa esquerda é uma esquadra reacionária.
Este pantagruélico abismo entre a realidade e a retórica é um fenómeno que costuma anteceder o fim dos regimes. E é isso que está a suceder ao Estado social, tal como o conhecemos aqui em Portugal. Sócrates grita "ai, a escola pública", mas depois fecha 700 escolas. Sócrates grita "ai, os neoliberais", mas depois corta em todos os apoios sociais (repare-se: o nosso Lancelote toca nos desempregados, mas não toca na faraónica massa salarial da função pública). Sócrates grita "ai, o SNS", mas depois não consegue segurar os médicos no SNS (se calhar, os médicos, esses bandidos 'neoliberais', estudam Adam Smith nas aulas de anatomia).
Estas pornográficas contradições entre os factos e os berrinhos socráticos revelam que a mudança é inevitável. O país precisa de reformas profundas na estrutura do Estado, na saúde e na educação. Mas, como é óbvio, estas mudanças causam medo na população. E é isso que Sócrates está a usar: o medo natural das pessoas perante a mudança. Neste momento, Sócrates, o reacionário, assenta o seu discurso no medo. Medo, e só medo. O Lancelote do Rato está a assustar a população com o prognóstico de um Maleagant 'neoliberal' a destruir o Camelot à beira-mar plantado. Sucede que não existe semelhante vilão, nem Portugal é um Camelot socialista. Por outras palavras, o que está em causa não é o fim do Estado social (uma impossibilidade em todo o Ocidente), mas a reforma do Estado social.
A nossa esquerda reacionária não percebe que existem vários Estados sociais, e não apenas 'este' Estado social inventado por Soares, Cavaco e Guterres. Por exemplo, Portugal podia seguir o modelo sueco, muito mais flexível e eficaz. Mas, no mundinho bolorento de Sócrates, a matriz sueca é - adivinhem - 'neoliberal'. É isso mesmo: se fosse aplicado a Portugal, o modelo de educação da Suécia seria apelido de 'ultraje neoliberal'. Portanto, alguém faça o favor de avisar os suecos de que eles são uns 'neoliberais' duma figa, isto é, semifascistas que destroem o Estado social. O Lancelote do Rato é que sabe.
Henrique Raposo
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de agosto de 2010