Ter mundo
Sócrates seria um personagem fácil de conceber na oficina de qualquer escritor. Ao fim e ao cabo, encarna características que são bastante comuns no nosso dia-a-dia das últimas décadas. Até na prosódica - o tom da voz diz muitas vezes o contrário do que se afirma - ele é o homem que 'subiu na vida' depois da cadeira de Salazar estalar em mil bocados. O baú de Sócrates que, nos últimos anos, se foi desvendando não é lá muito famoso. É evidente que no mundo da comunicação - e não no do altar da ética -, nem sempre uma tal arqueologia é letal. Seja como for, a imagem de Sócrates é estável: um homem bem sucedido que foi sempre sorrindo para o (muito relativo) mérito. Projectos que assinou, diplomas que conseguiu, casas que comprou: tudo legal, mas tudo devidamente enevoado. Muita astúcia e natural portuguesismo. Enfim: o homem da província que veio para Lisboa, como dantes - descomplexadamente - se dizia.
Ter futuro
O futuro pertence a homens como Sócrates. Muitos pequenos fôlegos ao sabor de uma maratona maior. Falar da tecnologia, do Magalhães e de fibra em vez de qualquer paixão (fosse pelo que fosse), como fez Guterres. Agarrar com intuição e boas palavras 'o que está a dar'. E saber sempre separar - com algum maniqueísmo - o trigo do joio, aliás na tradição dos bons pregadores: ou nós... ou quase o fim do mundo. O futuro pertence a homens como Sócrates, não haja a mínima dúvida. A saga dos 3% de défice - já quase esquecida - provou que, sem reveses, tudo lhe pode correr bem. Lindamente.
Ter estrela
A 'comunicação pela comunicação' é o aquário em que Sócrates, um dia, veio ao ser. Há quatro anos, mostrou ao mundo como se pode falar em teleponto, passando depois, sem continências irónicas, a discorrer como mandam as regras. E capitalizou o seu jeito de pequena frase, nada jesuítica ou instruída, numa notável arte de persuasão que foi fazendo pontos. Como se em terra de cegos, bastasse abrir a boca para dizer "Ota" ou "Alcochete". Até que, a 15 de Setembro de 2009, o Lehman Brothers anunciou falência. A partir daí a 'comunicação pela comunicação' tornou-se em capital cada vez mais de risco.
Ter um desejo mobilizador
Não há desejo de fundo em Sócrates. Ou seja: não há romance - no sentido romântico do termo - do ainda actual PM que os portugueses queiram partilhar. Os vaticínios do estilo Sócrates são por natureza disseminados: muitas apresentações com PowerPoint, muitas medidas anunciadas, muitas cerimónias para que a crença seja sempre crença. Mas não um desejo de fundo que possa ser contagioso, dada a sua medida estratégica e a sua consistência.
Ter retaguarda
Sim: o jogging matinal, a simpática namorada, as férias muito ao longe e a coragem de andar a pé no Bairro Alto. Este lado 'humano' de Sócrates - a sua quase recatada vida pessoal - nada tem que ver com o tempo das bem-aventuranças. Sá Carneiro vivia no Olimpo e Sócrates viveu na Covilhã. Com as cortinas pouco corridas, Sócrates não consegue deixar de se tornar um tanto indiferente. Além do mais, um caso como o Freeport ensombra 'o que se diz' e faz esquecer 'o que se não diz'. Na mais piedosa das alvuras pode sempre cair mancha.
Estar aberto à contingência
O caso do Aeroporto da Ota demonstrou mais versatilidade do que escrúpulo. O adiamento do TGV demonstrou espírito de Pilatos. A crise dos mercados revelou-se, por sua vez - para muitos dos que são próximos de Sócrates -, como um azar monumental tendo em conta a bonança que vinha sendo seguida até há um ano. Em suma: a pouca maleabilidade sempre apareceu a nu nas sessões tecnológicas onde, a sós, Sócrates adorou - e adora - lucubrar. Sem contratempos no horizonte. Sem trovoadas. Pois então.
Luís Carmelo
Professor universitário e autor