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Sócrates como personagem romanesco

Esta é a terceira de uma série de crónicas em que venho analisando - até ao fim de Outubro - alguns dos personagens em que iremos, muito em breve, votar. Há duas semanas, dei conta dos seis dons a que recorro nesta breve leitura. Recupero-os sinteticamente mais abaixo, agora confrontados com o segundo caso em análise: o de José Sócrates.

Luís Carmelo (www.expresso.pt)
8:00 Domingo, 20 de setembro de 2009

Ter mundo


Sócrates seria um personagem fácil de conceber na oficina de qualquer escritor. Ao fim e ao cabo, encarna características que são bastante comuns no nosso dia-a-dia das últimas décadas. Até na prosódica - o tom da voz diz muitas vezes o contrário do que se afirma - ele é o homem que 'subiu na vida' depois da cadeira de Salazar estalar em mil bocados. O baú de Sócrates que, nos últimos anos, se foi desvendando não é lá muito famoso. É evidente que no mundo da comunicação - e não no do altar da ética -, nem sempre uma tal arqueologia é letal. Seja como for, a imagem de Sócrates é estável: um homem bem sucedido que foi sempre sorrindo para o (muito relativo) mérito. Projectos que assinou, diplomas que conseguiu, casas que comprou: tudo legal, mas tudo devidamente enevoado. Muita astúcia e natural portuguesismo. Enfim: o homem da província que veio para Lisboa, como dantes - descomplexadamente - se dizia.

Ter futuro


O futuro pertence a homens como Sócrates. Muitos pequenos fôlegos ao sabor de uma maratona maior. Falar da tecnologia, do Magalhães e de fibra em vez de qualquer paixão (fosse pelo que fosse), como fez Guterres. Agarrar com intuição e boas palavras 'o que está a dar'. E saber sempre separar - com algum maniqueísmo - o trigo do joio, aliás na tradição dos bons pregadores: ou nós... ou quase o fim do mundo. O futuro pertence a homens como Sócrates, não haja a mínima dúvida. A saga dos 3% de défice - já quase esquecida - provou que, sem reveses, tudo lhe pode correr bem. Lindamente. 

Ter estrela


A 'comunicação pela comunicação' é o aquário em que Sócrates, um dia, veio ao ser. Há quatro anos, mostrou ao mundo como se pode falar em teleponto, passando depois, sem continências irónicas, a discorrer como mandam as regras. E capitalizou o seu jeito de pequena frase, nada jesuítica ou instruída, numa notável arte de persuasão que foi fazendo pontos. Como se em terra de cegos, bastasse abrir a boca para dizer "Ota" ou "Alcochete". Até que, a 15 de Setembro de 2009, o Lehman Brothers anunciou falência. A partir daí a 'comunicação pela comunicação' tornou-se em capital cada vez mais de risco.

Ter um desejo mobilizador


Não há desejo de fundo em Sócrates. Ou seja: não há romance - no sentido romântico do termo - do ainda actual PM que os portugueses queiram partilhar. Os vaticínios do estilo Sócrates são por natureza disseminados: muitas apresentações com PowerPoint, muitas medidas anunciadas, muitas cerimónias para que a crença seja sempre crença. Mas não um desejo de fundo que possa ser contagioso, dada a sua medida estratégica e a sua consistência.

Ter retaguarda


Sim: o jogging matinal, a simpática namorada, as férias muito ao longe e a coragem de andar a pé no Bairro Alto. Este lado 'humano' de Sócrates - a sua quase recatada vida pessoal - nada tem que ver com o tempo das bem-aventuranças. Sá Carneiro vivia no Olimpo e Sócrates viveu na Covilhã. Com as cortinas pouco corridas, Sócrates não consegue deixar de se tornar um tanto indiferente. Além do mais, um caso como o Freeport ensombra 'o que se diz' e faz esquecer 'o que se não diz'. Na mais piedosa das alvuras pode sempre cair mancha.

Estar aberto à contingência


O caso do Aeroporto da Ota demonstrou mais versatilidade do que escrúpulo. O adiamento do TGV demonstrou espírito de Pilatos. A crise dos mercados revelou-se, por sua vez - para muitos dos que são próximos de Sócrates -, como um azar monumental tendo em conta a bonança que vinha sendo seguida até há um ano. Em suma: a pouca maleabilidade sempre apareceu a nu nas sessões tecnológicas onde, a sós, Sócrates adorou - e adora - lucubrar. Sem contratempos no horizonte. Sem trovoadas. Pois então.  

Luís Carmelo
Professor universitário e autor

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Sócrates como personagem romanesco
Toni 2 (seguir utilizador), 2 pontos , 11:18 | Domingo, 20 de setembro de 2009
O Governo do Egipto determinou o encerramento de todos os Sarcófagos, a partir do fim do mês a fim de evitar a fuga das mumias. Para que conste, todas as que o abandonaram podem regressar até 30 dias depois desta data sem qualquer punição. Faz também saber que estão a ser construidos mais Sarcófagos para que ninguém fique na rua, tal a adesão esperada.
 
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TER A MANIA QUE É MELHOR QUE OS OUTROS ... É MAU !
Leitedevaca (seguir utilizador), 1 ponto , 9:56 | Domingo, 20 de setembro de 2009
Sejam quais forem as qualidades de qualquer pessoa, sobretudo daquelas que, supostamente, são mais inteligentes, mais cultas, mais bem informadas, o que interessa é o uso que essa pessoa faz desses atributos.
Fará toda a diferença, sobretudo quando analisamos políticos que teremos de escrutinar, ter a percepção correcta daquilo que eles vão fazer à custa dessas qualidades todas !
Se as puzerem ao serviço do país e do seu povo, com competência, justiça e solidariedade, então tudo está bem!
Se as puzerem ao serviço das suas conveniências pessoais e dos interesses materiais de quem os sustenta, para nos tramarem a vida ... então tudo está mal!
Em resumo, não são SÓ as qualidades intrínsecas de cada um que interessam ... é, muito mais, o uso que fazem delas que é determinante para sabermos se podemos confiar.
 
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Parabéns pela sua análise
martalgarve (seguir utilizador), 1 ponto , 11:36 | Domingo, 20 de setembro de 2009
De facto não é vulgar ver pessoas tão lúcidas como o senhor a fazer comentários em Portugal.
Devido à nossa herança inquisitorial, predominam as análises vesgas e fora de contexto.
No seu caso nada disto se passa, porque aposto que o senhor se libertou do fardo do pensamento tradicional.
Isto é vulgar em países de matríz reformada como a Holanda ou a Suiça, mas são casos muito raros no nosso país.
BEM HAJA!
 
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