Enquanto benfiquistas e sportinguistas viam a bola, eu, portista que sou, via a entrevista de Paulo Rangel.
Confesso que gostei. Tirando aquelas picardias próprias de campanha - ah e tal o outro é mais complacente do que eu - notei uma coisa que poucos têm sublinhado: uma grande convergência programática de Rangel com Passos Coelho.
O ponto de proximidade mais notório será talvez o da imparcialidade dos poderes públicos. Paulo Rangel avançou com a noção de "descolonização do Estado" - ouvi-a pela primeira vez na boca do Miguel Morgado,
há uns meses - que é sem dúvida um bom mote. Parece-me contudo que Rangel ainda não amadureceu suficientemente a dimensão de retirada da actividade empresarial e de reforço da capacidade técnica e reguladora que essa "descolonização" implica, e está muito focado na despartidarização da Administração Pública, o que sendo importante não constitui o território central desse combate.
A visão de um Estado árbitro e não jogador, com o que isso implica por exemplo em termos de privatizações na área do ambiente, da comunicação social, das participações não-financeiras da CGD; mas também na revisão da governance da CGD ou na eleição parlamentar das entidades reguladoras - tem sido um ponto forte do discurso de Passos Coelho já desde 2008. Mas independentemente dos enfoques distintos, sublinhe-se que em termos de valores é cada vez mais aparente que os dois candidatos estão em rota convergente. Trata-se de uma excelente notícia: o reforço da imparcialidade do Estado é uma necessidade absoluta, e é bom saber que qualquer que seja o vencedor, o PSD fará deste tema uma bandeira.
Há muita coisa a separar Passos Coelho e Paulo Rangel nesta eleição: estilo, posicionamento ideológico, estratégia política. Mas vale a pena prestar atenção ao que os une. Porque a partir de dia 27, isso será o que mais conta.