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Sinais errados


Fernando Madrinha (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 12 de março de 2010

No dia de uma greve geral da Função Pública anunciada com trombetas, o primeiro-ministro estava em Moçambique e o Presidente da República ia a caminho de Barcelona. Tais ausências simultâneas não têm importância nenhuma senão neste plano simbólico: por um dia, o país ficou entregue à sra. D. Ana Avoila e ao sr. Bettencourt Picanço. Só não apareceu Mário Nogueira, que anda um pouco arredio desde que a ministra da Educação julgou ter comprado a paz com os sindicatos - o primeiro sinal errado que este Governo transmitiu, por força da sua fraqueza e da pressão das oposições.

O 'negócio' em causa não foi apenas ruinoso do ponto de vista orçamental, mas também do ponto de vista político. Em primeiro lugar, porque a paz nas escolas saiu demasiado cara para os tempos que vivemos - 420 milhões, segundo o que veio a público. Em segundo lugar, porque o Governo a sabia breve e indutora de novos conflitos sobre carreiras na Função Pública: se todos os professores avaliados com 'bom' - e são a quase totalidade - podem chegar ao topo da carreira, porque não hão-de exigir o mesmo os funcionários em condições idênticas? Em terceiro lugar, porque os sindicatos cumprem agendas políticas, não se limitando à defesa dos interesses próprios das corporações que representam. E a mensagem de facilidade que o Governo fez passar no caso dos professores não é coerente com o discurso e as decisões difíceis que agora tem de assumir.

Depois deste erro primordial num ano político que se sabia ser muito duro, outros erros se acumularam. A notícia do congelamento de salários na Função Pública foi o rastilho para as movimentações sociais em perspectiva. Não teria sido, ou não teria tido igual impacto, se a decisão tivesse sido explicada ao país antes de se instalar a conflitualidade. E fosse anunciada em conjunto com outras medidas que tornassem claro que os sacrifícios são para todos - começando pelos que mais podem e compreendendo o desmantelamento do Estado paralelo que vive do Orçamento. Para sua própria defesa, o Governo tinha a obrigação de tomar a iniciativa política, em vez de a deixar aos sindicatos.

Outras medidas avulsas vieram fragilizar ainda mais a posição governamental. É o caso da antecipação de penalizações nas reformas sem uma palavra que a justificasse. E é o caso do anunciado congelamento de salários nas empresas públicas com o conhecimento, quase em simultâneo, de que, afinal, há várias excepções - e não as empresas mais saudáveis ou que pagam os piores vencimentos, mas, pelo contrário, as que pagam melhor e cujos trabalhadores têm maior poder reivindicativo, como a TAP, a REN, ou a CGD.

Todas estas notícias soltas, divulgadas a trouxe-mouxe, produzem sentimentos de desconfiança, de injustiça relativa e de insegurança que dão força a quem queira explorá-los, sejam as oposições parlamentares, ou os sindicatos da Função Pública e das empresas do Estado. São eles que vão dominar o palco neste ano difícil se o poder político, em especial o Governo - e o Governo é o primeiro-ministro, mais do que nunca foi -, continuar 'ausente', como tem estado, multiplicando os sinais errados, as contradições e as incongruências.

Uma mulher de preto


Foi numa rua discreta de Benfica que se me deu a conhecer nesta quinta-feira: 75 anos, viúva há três, um filho único de 42 a viver em sua casa, desempregado. Tem uma pensão de 200 euros, a renda são 95 e todos os meses gasta mais dez em remédios para o coração que, segundo os médicos, não pode deixar de tomar. Custam apenas dez euros, tão pouco e tanto, porque alguns desses medicamentos são genéricos, por isso gratuitos para reformados, coisa do Governo de Sócrates, por acaso, mas isto sou eu que acrescento, pois ela não o disse, nem possivelmente o saberá.

Já teve telefone em casa, mas foi forçada a dispensar esse luxo, que lhe agradava, sim, para poder partilhar queixas e mágoas com as amigas e os familiares que lhe restam. Talvez seja por não falar com ninguém se não com o filho - com 42 anos é muito difícil, sabe, se fosse mais novo já estaria empregado -, talvez seja por não ter telefone, afinal, que a médica do Centro de Saúde lhe disse agora mesmo que estava com uma depressão. Talvez seja por isso também que me conta a sua vida num fôlego, com o coração a partir-se e explicando por que evita pedir em lugares muito frequentados, não se apercebendo, porventura, de como a multidão é o melhor esconderijo para quem queira passar despercebido.

Em todo o caso, não podia manter o telefone. Agora só mesmo a luz, que está em dia, e a água, de que não pagou a última factura. Mas pagá-la-á assim que vier a reforma, com o que sobrar dela depois da renda e da luz. O pior são os medicamentos que tem que tomar hoje. E é quando lhe peço para não me mostrar a receita que já está a tirar da carteira, uma receita verdadeira e acabada de passar, como posso ver e de facto ainda vejo, porque naquela altura já não tenho a menor dúvida de que é verdade tudo o que me conta aquela mulher desesperada, é nesse momento em que a dispenso da prova humilhante da sua necessidade, da sua emergência, que ela se desfaz, primeiro em lágrimas e logo em soluços. Sem saber ainda se pode ou não transpor a porta da farmácia, por onde acabara de passar, já chorando por dentro.

Só agora, lembrando-me da mulher de preto que conheci na quinta-feira à tarde, a qual não me disse o nome, nem eu lho perguntei, e com quem não sei se voltarei a cruzar-me, só agora me dei conta de que não comentei os importantíssimos assuntos da semana: as audições sobre a liberdade de expressão, os debates para a liderança do PSD, as explicações do PGR aos magistrados e o mais que dominou os debates televisivos e encheu as páginas dos jornais.

Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Março de 2010

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Bem Haja
relatoriotuga (seguir utilizador), 1 ponto , 14:37 | Sexta feira, 12 de março de 2010
1. "os sindicatos cumprem agendas políticas, não se limitando à defesa dos interesses próprios das corporações que representam"

2. "só agora me dei conta de que não comentei os importantíssimos assuntos da semana"

O que é que voce foi dizer! Amanha já tem à porta de casa os ditos cujos com cartazes e tarjas chamando-lhe de fascista, salazarista, etc.
 
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Demagogia Barata e Populismo Saloio
Zé do Cachené (seguir utilizador), 1 ponto , 9:55 | Sábado, 13 de março de 2010
A cena populista demagógica para diminuir a importância da agenda política. Os arregimentados andam de cabeça perdida. O camarada podia era enviar a sua cena a todos os que vivem de lugares de favor altamente remunerados concedidos pelo governo de Sócrates para dominar o aparelho de Estado ou simplesmente dar pasto às clientelas. Podia recomendar ao tal filho desempregado que se fosse inscrever com urgência não no centro de desemprego, que não serve para nada, mas no partido de Sócrates.
 
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