No dia de uma greve geral da Função Pública anunciada com trombetas, o primeiro-ministro estava em Moçambique e o Presidente da República ia a caminho de Barcelona. Tais ausências simultâneas não têm importância nenhuma senão neste plano simbólico: por um dia, o país ficou entregue à sra. D. Ana Avoila e ao sr. Bettencourt Picanço. Só não apareceu Mário Nogueira, que anda um pouco arredio desde que a ministra da Educação julgou ter comprado a paz com os sindicatos - o primeiro sinal errado que este Governo transmitiu, por força da sua fraqueza e da pressão das oposições.
O 'negócio' em causa não foi apenas ruinoso do ponto de vista orçamental, mas também do ponto de vista político. Em primeiro lugar, porque a paz nas escolas saiu demasiado cara para os tempos que vivemos - 420 milhões, segundo o que veio a público. Em segundo lugar, porque o Governo a sabia breve e indutora de novos conflitos sobre carreiras na Função Pública: se todos os professores avaliados com 'bom' - e são a quase totalidade - podem chegar ao topo da carreira, porque não hão-de exigir o mesmo os funcionários em condições idênticas? Em terceiro lugar, porque os sindicatos cumprem agendas políticas, não se limitando à defesa dos interesses próprios das corporações que representam. E a mensagem de facilidade que o Governo fez passar no caso dos professores não é coerente com o discurso e as decisões difíceis que agora tem de assumir.
Depois deste erro primordial num ano político que se sabia ser muito duro, outros erros se acumularam. A notícia do congelamento de salários na Função Pública foi o rastilho para as movimentações sociais em perspectiva. Não teria sido, ou não teria tido igual impacto, se a decisão tivesse sido explicada ao país antes de se instalar a conflitualidade. E fosse anunciada em conjunto com outras medidas que tornassem claro que os sacrifícios são para todos - começando pelos que mais podem e compreendendo o desmantelamento do Estado paralelo que vive do Orçamento. Para sua própria defesa, o Governo tinha a obrigação de tomar a iniciativa política, em vez de a deixar aos sindicatos.
Outras medidas avulsas vieram fragilizar ainda mais a posição governamental. É o caso da antecipação de penalizações nas reformas sem uma palavra que a justificasse. E é o caso do anunciado congelamento de salários nas empresas públicas com o conhecimento, quase em simultâneo, de que, afinal, há várias excepções - e não as empresas mais saudáveis ou que pagam os piores vencimentos, mas, pelo contrário, as que pagam melhor e cujos trabalhadores têm maior poder reivindicativo, como a TAP, a REN, ou a CGD.
Todas estas notícias soltas, divulgadas a trouxe-mouxe, produzem sentimentos de desconfiança, de injustiça relativa e de insegurança que dão força a quem queira explorá-los, sejam as oposições parlamentares, ou os sindicatos da Função Pública e das empresas do Estado. São eles que vão dominar o palco neste ano difícil se o poder político, em especial o Governo - e o Governo é o primeiro-ministro, mais do que nunca foi -, continuar 'ausente', como tem estado, multiplicando os sinais errados, as contradições e as incongruências.
Uma mulher de preto
Foi numa rua discreta de Benfica que se me deu a conhecer nesta quinta-feira: 75 anos, viúva há três, um filho único de 42 a viver em sua casa, desempregado. Tem uma pensão de 200 euros, a renda são 95 e todos os meses gasta mais dez em remédios para o coração que, segundo os médicos, não pode deixar de tomar. Custam apenas dez euros, tão pouco e tanto, porque alguns desses medicamentos são genéricos, por isso gratuitos para reformados, coisa do Governo de Sócrates, por acaso, mas isto sou eu que acrescento, pois ela não o disse, nem possivelmente o saberá.
Já teve telefone em casa, mas foi forçada a dispensar esse luxo, que lhe agradava, sim, para poder partilhar queixas e mágoas com as amigas e os familiares que lhe restam. Talvez seja por não falar com ninguém se não com o filho - com 42 anos é muito difícil, sabe, se fosse mais novo já estaria empregado -, talvez seja por não ter telefone, afinal, que a médica do Centro de Saúde lhe disse agora mesmo que estava com uma depressão. Talvez seja por isso também que me conta a sua vida num fôlego, com o coração a partir-se e explicando por que evita pedir em lugares muito frequentados, não se apercebendo, porventura, de como a multidão é o melhor esconderijo para quem queira passar despercebido.
Em todo o caso, não podia manter o telefone. Agora só mesmo a luz, que está em dia, e a água, de que não pagou a última factura. Mas pagá-la-á assim que vier a reforma, com o que sobrar dela depois da renda e da luz. O pior são os medicamentos que tem que tomar hoje. E é quando lhe peço para não me mostrar a receita que já está a tirar da carteira, uma receita verdadeira e acabada de passar, como posso ver e de facto ainda vejo, porque naquela altura já não tenho a menor dúvida de que é verdade tudo o que me conta aquela mulher desesperada, é nesse momento em que a dispenso da prova humilhante da sua necessidade, da sua emergência, que ela se desfaz, primeiro em lágrimas e logo em soluços. Sem saber ainda se pode ou não transpor a porta da farmácia, por onde acabara de passar, já chorando por dentro.
Só agora, lembrando-me da mulher de preto que conheci na quinta-feira à tarde, a qual não me disse o nome, nem eu lho perguntei, e com quem não sei se voltarei a cruzar-me, só agora me dei conta de que não comentei os importantíssimos assuntos da semana: as audições sobre a liberdade de expressão, os debates para a liderança do PSD, as explicações do PGR aos magistrados e o mais que dominou os debates televisivos e encheu as páginas dos jornais.
Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Março de 2010