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Silêncio que as divas da ópera vão cantar

As suas vozes encantam plateias. Elas transbordam carisma. Abram alas para as rainhas da ópera

Jorge Calado
17:22 Domingo, 6 de dezembro de 2009
Silêncio que as divas da ópera vão cantar

ANNA NETREBKO 

Corre que foi uma espécie de gata borralheira, descoberta pelo todo-poderoso maestro Valery Gergiev quando cantarolava a esfregar o chão do Teatro Kirov (Mariinsky). Na verdade, estudava no Conservatório de São Petersburgo, arranjara um  part-time no Kirov como encarregada da limpeza, e quem usava a esfregona eram as babushkas. A voz, de soprano lírico-ligeiro, era - é - linda, tinha um palminho de cara e corpo a condizer, e aos vinte e poucos anos, contratada pelo Mariinsky, já fazia, na perfeição, as ingénuas das óperas russas.

Em 1995, estreava-se em San Francisco cantando a Lyudmila, na ópera de Glinka. Em 1998, integrada na Companhia do Mariinsky, encantou meia-Lisboa no CCB (Festival dos 100 Dias), na Louisa de "O Noivado no Mosteiro", de Prokofiev. Tinha 24 anos (ou 26, que, com as senhoras bonitas, nunca se sabe...).

A ascensão foi meteórica. Jovem e fotogénica, deixou-se embalar pelas festas e compras, tornou-se uma estampa das revistas de moda. Julgavam-na pateta, mas era tudo uma fachada. Sábia, foi gerindo a carreira, encontrou o tenor ideal em Rolando Villazón, e os dois formaram um imbatível item vocal que culminou na "Traviata" de Salzburgo, em 2005. Ouvi-los a entrelaçar as vozes no dueto do "Rigoletto", era perceber a mecânica do sexo e o que é fazer amor por meios vocais. Em 2007, a revista "Time" elegia-a uma das 100 pessoas mais influentes do mundo! O Prémio do Estado Russo em 2005, não impediu que assumisse a nacionalidade austríaca em 2006 (por causa dos vistos, explicou). Mas é, desde 2008, Artista do Povo (da Rússia).

Fascinado pela pin-up, o público levou tempo a perceber que Netrebko era, também, uma actriz consumada, guiada pelo instinto e pela voz. O que ela fez com o 'Meine Lippen, sie küssen so heiß', da "Giuditta", de Léhar, correndo ao longo da boca do palco, na Última Noite dos Proms, em 2007, ficará na história da ópera. O Met parece querer transformá-la numa nova Callas: entregou-lhe as protagonistas de "I puritani", "Lucia di Lammermoor" e "Anna Bolena" (a abrir a temporada de 2011/12).

Em 2006, Netrebko prendeu-se de amores pelo seu Don Giovanni - o baixo-barítono argentino Erwin Schrott. "He's gorgeous!", declarou. Um ano depois, sucumbia às alegrias da maternidade. O rechonchudo Tiago nasceu em Setembro de 2008. O rosto arredondou, a forma alargou e hoje a voz da Netrebko está ainda mais cheia e dramática. Esperam-na as chamadas money parts, os grandes papéis do repertório. Como dizem os americanos, o limite é o céu estrelado.

Silêncio que as divas da ópera vão cantar

CECILIA BARTOLI


Foi uma menina-prodígio. Aos 8 anos cantava o Pastorzinho, da "Tosca", na Ópera de Roma. Aprendeu com os pais, que eram cantores profissionais, pois é de pequenino que se torce o pepino. Estudou na Accademia di Santa Cecilia e irrompeu pela cena lírica internacional no final dos anos 1980. Olhos negros sorridentes, farta cabeleira preta - um turbilhão de talento e energia. A estreia profissional aconteceu no Teatro Filarmonico de Verona, em 1987. Tinha 20 anos e foi logo contratada, em exclusivo, pela DECCA. Em 1988 gravava "Il barbiere di Siviglia", de Rossini, e cantava a Rosina em Colónia e Zurique. Karajan trabalhou-a na "Missa em si menor", de J.S. Bach, mas morreu (1989) antes de consolidar a colaboração. Harnoncourt e Barenboim fizeram dela uma mozartiana.

A voz - mezzo-soprano de coloratura - é pequena, mas o que interessa é o que faz com ela. Bem projectada, enche as grandes salas. A técnica vocal é prodigiosa, e a enorme extensão permite-lhe abordar os papeis de soprano com as cores escuras de outrora: Donna Elvira, Amina, Semele. Vêm aí a Cleopatra e a Norma!

A primeira década (anos 1990) tornou-a conhecida e levou-a a todo o mundo cantando Mozart e Rossini. Mas Bartoli odeia a rotina e detesta viajar de avião. Resultado: toca a investigar e a desenterrar a música esquecida do barroco e do belcanto, e a preterir a ópera em favor do recital à volta dum projecto. Vivaldi, Gluck, Salieri foram novidades bem recebidas; duas ou três óperas por ano (em geral na eleita casa-mãe, a Ópera de Zurique). Grande sucesso popular (que não a estragou; continua simpática e despretenciosa). Mais de 8 milhões de discos vendidos, 4 Emmies, 8 Echoes e um Bambi. Em 2010 receberá o Léonie Sonning Music Prize, o mais alto galardão musical dinamarquês (atribuído pela primeira vez em 1958 a Stravinsky). O "Figaro" declarou-a recentemente "a mais importante artista (de música clássica) da década".

É a cantora mais bem informada (historicamente). Há dois anos, seguiu as pisadas de Maria Malibran, a diva romântica por excelência. Actualmente, corre a Europa promovendo "Sacrificium", o seu disco de música composta para os castrati - a mais difícil jamais escrita. A homenagem, tingida de humor, é completa. Apresenta-se em palco vestida de cavaleiro, com botas altas, capa preta forrada a seda escarlate, chapéu de aba larga enfeitado com panache vermelho (e o primeiro a voar pelo palco). Na segunda parte, convence com colete-armadura dourada e penachos encarnados. O público vai ao rubro. Sinceridade e panache - eis o segredo de La Bartoli.

Silêncio que as divas da ópera vão cantar

KARITA MATILLA


Vem das florestas geladas da Finlândia, mas é a cantora mais escaldante da actualidade. Cresceu no campo - pais lavradores puritanos, mais três irmãos - estudou no Conservatório Sibelius, em Helsínquia, e aterrou, inocente, na primeira competição (1983) para o "Singer of the World", em Cardiff. Vinha com um simples vestido cor-de-rosa - ainda hoje a sua cor preferida - e ganhou o concurso. Tinha 23 anos incompletos. Mudou-se para Londres, comprou um piano cor-de-rosa, aperfeiçoou-se com a lendária Vera Rózsa, distinguiu-se como mozartiana em Covent Garden. Voz grande e quente, com reflexos que lembram os metais fundidos, escura nos médios mas com agudos brilhantes e lancinantes.

Atlética desde a juventude (natação e vólei eram os seus desportos), trata da voz e do corpo para se manter em forma. Na década de 1990 mereceu o título de 'Vénus Finlandesa'! Força da natureza, é comunicativa no palco e na vida. Fala em catadupa e muda de assunto a uma velocidade estonteante. Casou em 1992 com um vendedor de carros, quando procurava comprar um Mitsubishi Sigma. "Realizada como mulher" - a descrição é sua - desabrochou como cantora e actriz em 1995. A viragem ocorreu quando cantava a Chrysothemis na "Elektra" de Salzburgo. Perdeu o medo e transformou o canto numa experiência erótica e bravia.

Mattila alia a generosidade vocal com a contenção teatral. Tal como a Callas, compreende o valor da quietude. O menor gesto, conta. Estuda as personagens por dentro, mas constrói-as de fora, usando acessórios - uma banana, em "Fidelio", um par de sapatos vermelhos, na "Manon Lescaut" de Tampere - como bengalas. Desprezando a publicidade e o marketing, não ligando às multinacionais do disco, incendiou o mundo musical. Assume riscos surpreendentes: o nu integral na Dança dos 7 Véus da "Salome", a espargata perfeita em directo na TV, durante o intervalo da "Manon Lescaut". A descontracção acontece longe dos fãs, na cabana algures numa ilha finlandesa ou na casa na costa da Florida.

O repertório é uma galeria de "mulheres fascinantes e diferentes, em várias épocas". Isolde (mas onde está o Tristan?), Minnie (em "La fanciulla del West"), Emilia Marty (em "O Caso Makropulos") despontam no horizonte. A próxima (Março de 2010) será a Marquesa de Châtelet, na estreia de "Emilie", a nova ópera de Kaja Saarihao. Outra mulher fascinante, física e tradutora de Newton, que quando morreu de parto aos 43 anos, tinha à sua cabeceira 3 homens: o marido, Voltaire (que fora seu amante) e o pai da criança.

Silêncio que as divas da ópera vão cantar

RENÉE FLEMING


Chamam-lhe já a "diva do povo" e, de facto, a cantora é ubíqua nos palcos de ópera e de concerto, na televisão (como apresentadora e entrevistadora), na banda sonora de filmes (como "O Regresso do Rei" / "O Senhor dos Anéis"), na publicidade a relógios e fragrâncias, nas criações dos maiores estilistas, etc. É a voz da América para as ocasiões solenes - do luto pela tragédia do 9/11 à esperança da inauguração do Presidente Obama. Cantou na cerimónia do Prémio Nobel da Paz (2006), nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008) e no concerto comemorativo do 20º aniversário da Revolução de Veludo (em Novembro de 2009, a convite de Václav Havel).

Tem tudo a que uma diva pode aspirar: a voz de ouro, a beleza física bem preservada, o talento de actriz, a inteligência na arte e na vida, o glamour das grandes estrelas. Possui a mais bela voz de soprano (lírico) da actualidade, com um timbre inconfundível (e deliciosos maneirismos). Uma voz calorosa e sumarenta, plena de cores (a puxar para o lado quente do espectro) e agudos luminosos, que usa com uma liberdade e imaginação capazes de fazer jus aos repertórios mais diversos: barroco e belcanto; Mozart, (algum) Verdi e Strauss; eslavo e francês; verista e contemporâneo; jazz e pop.

Teve bons princípios (os pais eram professores de canto), mas levou tempo a afirmar-se. Nasceu na Pennsylvania, mas cresceu em Rochester, NY. Pagou os estudos na Eastman School of Music cantando com um trio de jazz, num bar. Formou-se na Juilliard School, New York e, aos 29 anos, ganhou as Metropolitan Opera Auditions (1988). Os anos 1990 foram de afirmação. Casou, teve duas filhas (Amelia e Sage) e ultrapassou a inevitável crise pessoal e vocal em 1998 (divórcio, pateada - injusta - no Scala). Afirmou-se como mãe extremosa (e premiada), ganhou dois Grammies (1998, 2002), escreveu um livro ("The Inner Voice", 2004), envolveu-se na Campanha Nacional de Leitura, 'Get Caught Reading'. Fez 40 anos em 1999 e entrou no século XXI no auge da maturidade e da forma vocal. As homenagens sucederam-se: o chefe Daniel Boulu criou (2000) uma sobremesa (de chocolate!) 'La diva Renée'; Ann Patchett inspirou-se nela para a protagonista do seu premiado romance "Bel Canto" (2001); deu o nome (2004) a uma nova espécie híbrida de lírio, posteriormente imortalizada em porcelana por Boehm (2007). Em 2008, vestida por Lacroix, Lagerfeld e Galliano, inaugurou a 125ª temporada do Met em actos únicos de "La Traviata", "Manon" e "Capriccio", viu a Coty lançar um novo perfume, 'La voce - Renée Fleming' e recebeu o Prémio Polar na Suécia (com os Pink Floyd). O mundo a seus pés.

Silêncio que as divas da ópera vão cantar

DIANA DAMRAU


Na era da globalização, uma diva tem de ter tudo: presença vocal; rosto e corpo para o directo na TV; versatilidade dramática; imaginação estilística na vida, como na roupa; dotes de comunicação. Damrau ascendeu ao estrelato com a Rainha da Noite, em Covent Garden, em 2003. Por lá ficou, sem crise nem acidentes de percurso. Soprano de coloratura, acredita nas virtudes cromáticas e emocionais da ornamentação, como prova o seu recente disco (Virgin), "COLORaturaS", onde canta tudo, de Donizetti a Stravinsky e Bernstein. Mozart continua a ser a pedra-de-toque. Tomando "Le nozze di Figaro" como padrão, diz que vai a meio do percurso: conquistadas Barbarina (1995) e Susanna, faltam a Contessa e Marcellina. No Met, despediu-se da Rainha da Noite (2008), alternando-a com a Pamina, na mesma série de récitas de "Die Zauberflöte". Cantara-a em 17 produções diferentes!

Nasceu na Baviera, em Günzburg an der Donau, em 1971, mas hoje vive em Viena, outra cidade à beira do Danúbio. Despertou para a ópera aos 12 anos, quando apanhou na TV a "Traviata" filmada por Zeffirelli, com Stratas e Domingo. Estudou em Würtzburg e Salzburgo e estreou-se em "My Fair Lady" (1995). Um dos highlights foi a protagonista de "L'Europa riconosciuta", de Salieri, para a reabertura do Scala em 2004, sob a direcção de Muti. Damrau, que adora a música de Salieri, até pelas possibilidades dramáticas da coloratura, subiu até ao Sol sobreagudo!

Workaholic que é, desdobra-se a aprender novos papéis, cobrindo todos os géneros, em várias línguas, saltitando de país para país. Comédia ou tragédia, tudo conquista. Uma noite é uma Rosina azougada, exímia no flamenco, na outra, a mais impressionante Lucia da actualidade. Omnívora na preparação, devora livros e CD e consulta especialistas. Os resultados vêem-se e ouvem-se: já lhe chamam a Meryl Streep da ópera. Só nesta temporada, estreará a Donna Anna, Manon, Ophélie e Aminta. O inglês Iain Bell, com quem colabora frequentemente, está a compor uma ópera para ela, "A Harlot's Progress" (sobre libreto de Peter Ackroyd), a estrear no Theater an der Wien, em 2012.

Avessa à rotina, deu, há pouco, um recital no Scala, acompanhada à harpa. Não se põe numa redoma para proteger a voz, gosta de andar a pé ou a cavalo pelo campo, considera-se viciada em Diet Coke e está no Facebook. Uma mulher do nosso tempo.

(Texto publicado na edição 5 Dezembro Revista Única)

Palavras-chave  Life & Style, ópera, divas, vozes
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Estão as que são mas faltam algumas
istoeumcaos (seguir utilizador), 1 ponto , 19:10 | Domingo, 6 de dezembro de 2009
Primeiro, não é METRENKO mas NETREBKO.

Faltam aqui cantoras muito mais importantes como, por exemplo, Montserrat Caballé, Jessie Norman, Kiri Te Kanawa, Kathleen Battle, Joyce DiDonato, Barbara Hendricks, Renata Tebaldi, Joan Sutherland, Magdalena Kozená, Elina Garanca, Measha Brueggergosman, etc. E estas são as vivas.

O ponto que quero remarcar é há divas muito mais marcantes que as que estão aqui descritas mas entendo que há que ter algum critério jornalístico.
 
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    Re: Estão as que são mas faltam algumas    Ver comentário
Mafalda_Anjos (seguir utilizador), 1 ponto , 23:58 | Domingo, 6 de dezembro de 2009
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