ANNA NETREBKO
Corre que foi uma espécie de gata borralheira, descoberta pelo todo-poderoso maestro Valery Gergiev quando cantarolava a esfregar o chão do Teatro Kirov (Mariinsky). Na verdade, estudava no Conservatório de São Petersburgo, arranjara um part-time no Kirov como encarregada da limpeza, e quem usava a esfregona eram as babushkas. A voz, de soprano lírico-ligeiro, era - é - linda, tinha um palminho de cara e corpo a condizer, e aos vinte e poucos anos, contratada pelo Mariinsky, já fazia, na perfeição, as ingénuas das óperas russas.
Em 1995, estreava-se em San Francisco cantando a Lyudmila, na ópera de Glinka. Em 1998, integrada na Companhia do Mariinsky, encantou meia-Lisboa no CCB (Festival dos 100 Dias), na Louisa de "O Noivado no Mosteiro", de Prokofiev. Tinha 24 anos (ou 26, que, com as senhoras bonitas, nunca se sabe...).
A ascensão foi meteórica. Jovem e fotogénica, deixou-se embalar pelas festas e compras, tornou-se uma estampa das revistas de moda. Julgavam-na pateta, mas era tudo uma fachada. Sábia, foi gerindo a carreira, encontrou o tenor ideal em Rolando Villazón, e os dois formaram um imbatível item vocal que culminou na "Traviata" de Salzburgo, em 2005. Ouvi-los a entrelaçar as vozes no dueto do "Rigoletto", era perceber a mecânica do sexo e o que é fazer amor por meios vocais. Em 2007, a revista "Time" elegia-a uma das 100 pessoas mais influentes do mundo! O Prémio do Estado Russo em 2005, não impediu que assumisse a nacionalidade austríaca em 2006 (por causa dos vistos, explicou). Mas é, desde 2008, Artista do Povo (da Rússia).
Fascinado pela pin-up, o público levou tempo a perceber que Netrebko era, também, uma actriz consumada, guiada pelo instinto e pela voz. O que ela fez com o 'Meine Lippen, sie küssen so heiß', da "Giuditta", de Léhar, correndo ao longo da boca do palco, na Última Noite dos Proms, em 2007, ficará na história da ópera. O Met parece querer transformá-la numa nova Callas: entregou-lhe as protagonistas de "I puritani", "Lucia di Lammermoor" e "Anna Bolena" (a abrir a temporada de 2011/12).
Em 2006, Netrebko prendeu-se de amores pelo seu Don Giovanni - o baixo-barítono argentino Erwin Schrott. "He's gorgeous!", declarou. Um ano depois, sucumbia às alegrias da maternidade. O rechonchudo Tiago nasceu em Setembro de 2008. O rosto arredondou, a forma alargou e hoje a voz da Netrebko está ainda mais cheia e dramática. Esperam-na as chamadas money parts, os grandes papéis do repertório. Como dizem os americanos, o limite é o céu estrelado.
CECILIA BARTOLI
Foi uma menina-prodígio. Aos 8 anos cantava o Pastorzinho, da "Tosca", na Ópera de Roma. Aprendeu com os pais, que eram cantores profissionais, pois é de pequenino que se torce o pepino. Estudou na Accademia di Santa Cecilia e irrompeu pela cena lírica internacional no final dos anos 1980. Olhos negros sorridentes, farta cabeleira preta - um turbilhão de talento e energia. A estreia profissional aconteceu no Teatro Filarmonico de Verona, em 1987. Tinha 20 anos e foi logo contratada, em exclusivo, pela DECCA. Em 1988 gravava "Il barbiere di Siviglia", de Rossini, e cantava a Rosina em Colónia e Zurique. Karajan trabalhou-a na "Missa em si menor", de J.S. Bach, mas morreu (1989) antes de consolidar a colaboração. Harnoncourt e Barenboim fizeram dela uma mozartiana.
A voz - mezzo-soprano de coloratura - é pequena, mas o que interessa é o que faz com ela. Bem projectada, enche as grandes salas. A técnica vocal é prodigiosa, e a enorme extensão permite-lhe abordar os papeis de soprano com as cores escuras de outrora: Donna Elvira, Amina, Semele. Vêm aí a Cleopatra e a Norma!
A primeira década (anos 1990) tornou-a conhecida e levou-a a todo o mundo cantando Mozart e Rossini. Mas Bartoli odeia a rotina e detesta viajar de avião. Resultado: toca a investigar e a desenterrar a música esquecida do barroco e do belcanto, e a preterir a ópera em favor do recital à volta dum projecto. Vivaldi, Gluck, Salieri foram novidades bem recebidas; duas ou três óperas por ano (em geral na eleita casa-mãe, a Ópera de Zurique). Grande sucesso popular (que não a estragou; continua simpática e despretenciosa). Mais de 8 milhões de discos vendidos, 4 Emmies, 8 Echoes e um Bambi. Em 2010 receberá o Léonie Sonning Music Prize, o mais alto galardão musical dinamarquês (atribuído pela primeira vez em 1958 a Stravinsky). O "Figaro" declarou-a recentemente "a mais importante artista (de música clássica) da década".
É a cantora mais bem informada (historicamente). Há dois anos, seguiu as pisadas de Maria Malibran, a diva romântica por excelência. Actualmente, corre a Europa promovendo "Sacrificium", o seu disco de música composta para os castrati - a mais difícil jamais escrita. A homenagem, tingida de humor, é completa. Apresenta-se em palco vestida de cavaleiro, com botas altas, capa preta forrada a seda escarlate, chapéu de aba larga enfeitado com panache vermelho (e o primeiro a voar pelo palco). Na segunda parte, convence com colete-armadura dourada e penachos encarnados. O público vai ao rubro. Sinceridade e panache - eis o segredo de La Bartoli.
KARITA MATILLA
Vem das florestas geladas da Finlândia, mas é a cantora mais escaldante da actualidade. Cresceu no campo - pais lavradores puritanos, mais três irmãos - estudou no Conservatório Sibelius, em Helsínquia, e aterrou, inocente, na primeira competição (1983) para o "Singer of the World", em Cardiff. Vinha com um simples vestido cor-de-rosa - ainda hoje a sua cor preferida - e ganhou o concurso. Tinha 23 anos incompletos. Mudou-se para Londres, comprou um piano cor-de-rosa, aperfeiçoou-se com a lendária Vera Rózsa, distinguiu-se como mozartiana em Covent Garden. Voz grande e quente, com reflexos que lembram os metais fundidos, escura nos médios mas com agudos brilhantes e lancinantes.
Atlética desde a juventude (natação e vólei eram os seus desportos), trata da voz e do corpo para se manter em forma. Na década de 1990 mereceu o título de 'Vénus Finlandesa'! Força da natureza, é comunicativa no palco e na vida. Fala em catadupa e muda de assunto a uma velocidade estonteante. Casou em 1992 com um vendedor de carros, quando procurava comprar um Mitsubishi Sigma. "Realizada como mulher" - a descrição é sua - desabrochou como cantora e actriz em 1995. A viragem ocorreu quando cantava a Chrysothemis na "Elektra" de Salzburgo. Perdeu o medo e transformou o canto numa experiência erótica e bravia.
Mattila alia a generosidade vocal com a contenção teatral. Tal como a Callas, compreende o valor da quietude. O menor gesto, conta. Estuda as personagens por dentro, mas constrói-as de fora, usando acessórios - uma banana, em "Fidelio", um par de sapatos vermelhos, na "Manon Lescaut" de Tampere - como bengalas. Desprezando a publicidade e o marketing, não ligando às multinacionais do disco, incendiou o mundo musical. Assume riscos surpreendentes: o nu integral na Dança dos 7 Véus da "Salome", a espargata perfeita em directo na TV, durante o intervalo da "Manon Lescaut". A descontracção acontece longe dos fãs, na cabana algures numa ilha finlandesa ou na casa na costa da Florida.
O repertório é uma galeria de "mulheres fascinantes e diferentes, em várias épocas". Isolde (mas onde está o Tristan?), Minnie (em "La fanciulla del West"), Emilia Marty (em "O Caso Makropulos") despontam no horizonte. A próxima (Março de 2010) será a Marquesa de Châtelet, na estreia de "Emilie", a nova ópera de Kaja Saarihao. Outra mulher fascinante, física e tradutora de Newton, que quando morreu de parto aos 43 anos, tinha à sua cabeceira 3 homens: o marido, Voltaire (que fora seu amante) e o pai da criança.
RENÉE FLEMING
Chamam-lhe já a "diva do povo" e, de facto, a cantora é ubíqua nos palcos de ópera e de concerto, na televisão (como apresentadora e entrevistadora), na banda sonora de filmes (como "O Regresso do Rei" / "O Senhor dos Anéis"), na publicidade a relógios e fragrâncias, nas criações dos maiores estilistas, etc. É a voz da América para as ocasiões solenes - do luto pela tragédia do 9/11 à esperança da inauguração do Presidente Obama. Cantou na cerimónia do Prémio Nobel da Paz (2006), nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008) e no concerto comemorativo do 20º aniversário da Revolução de Veludo (em Novembro de 2009, a convite de Václav Havel).
Tem tudo a que uma diva pode aspirar: a voz de ouro, a beleza física bem preservada, o talento de actriz, a inteligência na arte e na vida, o glamour das grandes estrelas. Possui a mais bela voz de soprano (lírico) da actualidade, com um timbre inconfundível (e deliciosos maneirismos). Uma voz calorosa e sumarenta, plena de cores (a puxar para o lado quente do espectro) e agudos luminosos, que usa com uma liberdade e imaginação capazes de fazer jus aos repertórios mais diversos: barroco e belcanto; Mozart, (algum) Verdi e Strauss; eslavo e francês; verista e contemporâneo; jazz e pop.
Teve bons princípios (os pais eram professores de canto), mas levou tempo a afirmar-se. Nasceu na Pennsylvania, mas cresceu em Rochester, NY. Pagou os estudos na Eastman School of Music cantando com um trio de jazz, num bar. Formou-se na Juilliard School, New York e, aos 29 anos, ganhou as Metropolitan Opera Auditions (1988). Os anos 1990 foram de afirmação. Casou, teve duas filhas (Amelia e Sage) e ultrapassou a inevitável crise pessoal e vocal em 1998 (divórcio, pateada - injusta - no Scala). Afirmou-se como mãe extremosa (e premiada), ganhou dois Grammies (1998, 2002), escreveu um livro ("The Inner Voice", 2004), envolveu-se na Campanha Nacional de Leitura, 'Get Caught Reading'. Fez 40 anos em 1999 e entrou no século XXI no auge da maturidade e da forma vocal. As homenagens sucederam-se: o chefe Daniel Boulu criou (2000) uma sobremesa (de chocolate!) 'La diva Renée'; Ann Patchett inspirou-se nela para a protagonista do seu premiado romance "Bel Canto" (2001); deu o nome (2004) a uma nova espécie híbrida de lírio, posteriormente imortalizada em porcelana por Boehm (2007). Em 2008, vestida por Lacroix, Lagerfeld e Galliano, inaugurou a 125ª temporada do Met em actos únicos de "La Traviata", "Manon" e "Capriccio", viu a Coty lançar um novo perfume, 'La voce - Renée Fleming' e recebeu o Prémio Polar na Suécia (com os Pink Floyd). O mundo a seus pés.
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DIANA DAMRAU
Na era da globalização, uma diva tem de ter tudo: presença vocal; rosto e corpo para o directo na TV; versatilidade dramática; imaginação estilística na vida, como na roupa; dotes de comunicação. Damrau ascendeu ao estrelato com a Rainha da Noite, em Covent Garden, em 2003. Por lá ficou, sem crise nem acidentes de percurso. Soprano de coloratura, acredita nas virtudes cromáticas e emocionais da ornamentação, como prova o seu recente disco (Virgin), "COLORaturaS", onde canta tudo, de Donizetti a Stravinsky e Bernstein. Mozart continua a ser a pedra-de-toque. Tomando "Le nozze di Figaro" como padrão, diz que vai a meio do percurso: conquistadas Barbarina (1995) e Susanna, faltam a Contessa e Marcellina. No Met, despediu-se da Rainha da Noite (2008), alternando-a com a Pamina, na mesma série de récitas de "Die Zauberflöte". Cantara-a em 17 produções diferentes!
Nasceu na Baviera, em Günzburg an der Donau, em 1971, mas hoje vive em Viena, outra cidade à beira do Danúbio. Despertou para a ópera aos 12 anos, quando apanhou na TV a "Traviata" filmada por Zeffirelli, com Stratas e Domingo. Estudou em Würtzburg e Salzburgo e estreou-se em "My Fair Lady" (1995). Um dos highlights foi a protagonista de "L'Europa riconosciuta", de Salieri, para a reabertura do Scala em 2004, sob a direcção de Muti. Damrau, que adora a música de Salieri, até pelas possibilidades dramáticas da coloratura, subiu até ao Sol sobreagudo!
Workaholic que é, desdobra-se a aprender novos papéis, cobrindo todos os géneros, em várias línguas, saltitando de país para país. Comédia ou tragédia, tudo conquista. Uma noite é uma Rosina azougada, exímia no flamenco, na outra, a mais impressionante Lucia da actualidade. Omnívora na preparação, devora livros e CD e consulta especialistas. Os resultados vêem-se e ouvem-se: já lhe chamam a Meryl Streep da ópera. Só nesta temporada, estreará a Donna Anna, Manon, Ophélie e Aminta. O inglês Iain Bell, com quem colabora frequentemente, está a compor uma ópera para ela, "A Harlot's Progress" (sobre libreto de Peter Ackroyd), a estrear no Theater an der Wien, em 2012.
Avessa à rotina, deu, há pouco, um recital no Scala, acompanhada à harpa. Não se põe numa redoma para proteger a voz, gosta de andar a pé ou a cavalo pelo campo, considera-se viciada em Diet Coke e está no Facebook. Uma mulher do nosso tempo.
(Texto publicado na edição 5 Dezembro Revista Única)