Além de cantora, é compositora, coreógrafa, bailarina, produtora e filantropa
Shakira edita o disco "Loba" no próximo dia 12 de Outubro, em Portugal. A cantora colombiana falou ao "Expresso" nas Bahamas, onde tem uma casa, e onde realizou todo o trabalho de criação e produção deste disco com 12 canções inéditas. Tem vestidas umas calças brancas e uma t-shirt preta, simples, que contrasta com o cabelo louro que lhe cai sobre os ombros. Retoca a maquilhagem e morde os lábios com batom. Ajeita o cabelo com as mãos. Está esticado, dando forma a uma nova imagem que surge com este disco. Longe da "Loba" que conhecemos no videoclip do tema principal do álbum, é uma Shakira serena e com objectivos humanitários, a que encontramos nesta conversa quase sempre em português.
Shakira: Diz-se Loba em português, não é?
Exactamente. E vamos fazer esta entrevista em português, pode ser? (Risos) Vamos
tentar.
Como foi que aprendeu a falar português? Foi durante as minhas digressões no Brasil. Tinha 18 anos e o português tornou-se a minha segunda língua. Nessa altura não sabia falar inglês - só aprendi aos 23 anos. O português é, por isso, uma língua muito querida para mim. Mas estou um bocadinho esquecida porque tenho estado muito tempo aqui nas Bahamas e não tenho tido oportunidade de exercitar.
Em que situações é que fala português? Sempre que vou ao Brasil ou a Portugal. Quando tenho oportunidade de falar com amigos brasileiros ou com algum português. Mas no ano passado não falei português porque estive sempre aqui a trabalhar neste álbum e na minha Fundação, na Colômbia (Fundação Piez Descalzos).
O que há de diferente neste "Loba", em relação aos seus trabalhos anteriores? É bastante diferente. É mais para cima. Mais adequado para ouvir em clubes ou discotecas. É um álbum para dançar. Para as pessoas se divertirem e passarem bons momentos, esquecendo tudo o resto.
Quanto tempo demora neste processo de criação, até chegar ao trabalho que considera ideal? A Shakira tem fama de ser muito perfeccionista... (Risos) Ah, já sabe? Pois sou. Foi um ano inteiro de trabalho, à procura de novas sonoridades e de novos caminhos musicais. (Interrompe, nervosa) Ai, está bem assim? Vou repetir (repete a ideia num português quase correcto) Fiz 63 canções - acho que foi isso - para seleccionar o grupo final deste trabalho, que são apenas 12.
O que faz com as outras, com as que sobram? Algumas vão integrar o meu próximo trabalho em espanhol, que quero lançar no ano que vem. E talvez faça um terceiro álbum, para editar em 2011.
Está então a pensar no futuro? Tenho muitas músicas de que gosto, neste percurso que comecei há mais de um ano. Estou a planear este trabalho lá mais para a frente mas ainda não tenho a certeza do que vou fazer. Não sei se haverá mesmo um terceiro disco. Primeiro quero fazer uma digressão com este e depois, logo se vê.
Este "Loba" tem músicas cantadas em inglês e em espanhol... Vi a letra do tema principal e pareceu-me dar uma imagem... não é bem feminista... é a de uma mulher que procura o seu lugar num mundo de homens. Será isso? (Aplaude, entusiasmada). Bravo! É isso mesmo. Eu acho que a "Loba" é uma mulher deste tempo, dos nossos dias, sabe o que quer, não sacrifica os seus desejos, está em contacto com os interesses do seu subconsciente, luta por eles com unhas e dentes. Ela é como um animal da noite.
E o mundo está preparado para esse tipo de mulher? Acho que sim. Este é o tempo para sermos livres. A "Loba" é uma mulher livre e feliz. Segue as suas liberdades. Mas o que conta não é só a mulher, mas também o homem deste tempo. Todos temos desejos profundos e, às vezes, medo de realizá-los. Mas este é o tempo para sermos livres!
Esteve a preparar este trabalho aqui nas Bahamas. Como vê, a esta distância, a sua primeira casa, a Colômbia? Agora vou falar em espanhol. Quando falo do meu país, falo em espanhol. (Já em espanhol) Penso que a Colômbia esteve muito tempo no meio de um conflito muito complexo, o da violência e dos refugiados. É o segundo país no mundo com o maior número de refugiados, depois do Sudão. Temos uma grande tragédia humana, apesar da diminuição, este ano, do número de paramilitares nas milícias. Foram reintegrados na sociedade. Isso foi um grande avanço. Vejo isso com algum optimismo, quando olho para a juventude e sinto que está mais participativa. Saem à rua juntos para protestar e pedir a libertação dos reféns (das FARC). É um país mais unido, mais unificado ideologicamente. E isso é muito importante. É o princípio de alguma coisa.
E a Shakira quer participar nessa mudança, uma vez que prepara na Colômbia um plano de educação global para as crianças colombianas? Onde pretende chegar? Quero chegar aos governos, aos actores principais da sociedade, aos que detêm o poder. Mas também ao sector privado, para que invistam na primeira infância, nas crianças dos zero aos seis anos, as mais vulneráveis, as mais sensíveis. As crianças que estão agora a formar a sua personalidade e as suas capacidades que serão fundamentais na vida adulta. É muito importante persuadir os governos a terem um compromisso com as crianças mais pequenas, com as quais a sociedade tem uma dívida. E esta é a nossa oportunidade de fazer alguma coisa por elas.
Quando ajuda estas crianças, pensa na sua infância em Barranquilha (Colômbia)? Claro. Eu cresci como testemunha desta injustiça social, da falta de oportunidades no meu país e em toda a América Latina, onde a Educação é considerada um luxo, e não um direito adquirido à nascença. Acho que se passa o mesmo em todos os países subdesenvolvidos, do Terceiro Mundo. Infelizmente, a educação não é considerada um direito. Mas todos sabemos que ela pode transformar a vida de uma comunidade inteira. Vejo isto com os meus próprios olhos. Vejo como milhares de pessoas mudam completamente a vida, graças à educação. A educação é a fórmula mágica para combater a pobreza no mundo. É uma estratégia maravilhosa para vencer a pobreza e a desigualdade.
Por causa desses seus objectivos, tem participado em muitas cimeiras, encontra-se com políticos influentes. Sente-se mais à vontade nesse campo da política, ou em palco, a cantar? É uma responsabilidade muito grande discutir estes temas com os políticos. Sinto que, quando faço isso, empresto a minha voz àqueles que não a têm. Sabe, fiquei muito surpreendida com uma região da América Latina. O Presidente de El Salvador (Mauricio Funes) lançou um programa para o desenvolvimento infantil na América Latina. Assisti a uma cimeira, exactamente em El Salvador, onde muitos presidentes se comprometeram a aplicar este programa nos seus países. É um assunto muito importante que até faz parte da agenda do Presidente Obama e de outros países desenvolvidos. Estimular, educar e alimentar meninos dos zero aos seis anos é uma prioridade. Vai haver uma Cimeira em Portugal (Cimeira Ibero-Americana, no Estoril), dia 30 de Novembro, para que todos se comprometam a fazer um acordo para ajudar a infância mais vulnerável, porque na América Latina há mais de 30 milhões de crianças que não recebem qualquer tipo de educação. E isto é a base do desenvolvimento.
Como assim? Cada dólar que investirmos na educação significa um aumento de 10 a 20 por cento no salário desta criança, quando ela for adulta. Investir na educação é investir em países mais fortes e sólidos, é investir na paz e na igualdade. A América Latina é a região com maiores desigualdades em todo o planeta. Uns têm tudo, outros não têm nada. E esta situação tem de mudar, aos poucos. É uma grande responsabilidade e estou a aprender muito sobre este assunto, sinto que é a minha causa principal. Desde os quatro anos que sinto que este é o local mais cómodo para mim, onde me sinto obrigada a lutar pelas crianças que não têm voz. Sinto que tenho de servi-las, que a minha vida tem de ser-lhes útil. Desde os 18 anos que trabalho com a educação. É um compromisso que tenho há muito tempo e que nunca irei abandonar.
Vê em Barack Obama uma esperança para o mundo? Sim. Ele tem uma mensagem de tolerância na política, uma mensagem de abertura e reconciliação. É um homem inteligente - o que é importante quando se está à frente do país mas poderoso do Mundo - tem ideias de abertura e de mudança, com a educação como prioridade. Falam muito dele como pessoa e como político. Tive oportunidade de conhecê-lo e pareceu-me um homem muito concentrado e inteligente, sereno, capaz de guiar um país com tantos desafios.
Já que estamos a falar dos Estados Unidos da América, um dos acontecimentos recentes que mais abalou o mundo da música foi a morte de Michael Jackson. O que acha que se perdeu? Perdeu-se um génio da música, da dança, da fantasia. Sim, porque ele foi uma pessoa que trouxe muita fantasia e magia para o mundo da pop. Por alguma razão foi, e será sempre, o rei da pop. Com a sua morte nasceu uma nova lenda da música. Tenho a certeza que os meus filhos vão ouvir Michael Jackson, e ele vai viver através da sua música, do seu legado.
Já disse que vai fazer uma digressão com este disco. Vai passar por Portugal? Claro. Se me deixarem entrar (risos). Eu adoro Portugal e o público português. O país é lindo e, realmente, é um povo abençoado.
Quando vai a Portugal tem tempo para visitar alguma coisa? Tento sempre dar um passeio. Sempre quis ir a Fátima. Os meus pais já foram e até trouxeram fotografias.
Conhece a história de Fátima? Sim, claro. Gostava muito de ir lá.
Se fosse convidada por um presidente da Câmara português, o de Lisboa, por exemplo, gostaria de visitar um bairro pobre da nossa capital? Gostaria muito. Para entender a realidade portuguesa e ter uma melhor noção do que estou a aprender sobre o país.
Sabe, as crianças portuguesas gostam muito de si e da sua música. Gostaria de deixar alguma mensagem às mais carenciadas? (Ergue as mãos, em prece). Se tiverem oportunidade de estudar, façam-no. É realmente uma oportunidade de ouro. Esse é o meu conselho.
O EXPRESSO E A SIC VIAJARAM A CONVITE DA SONY MUSIC
A MULHER DOS SETE OFÍCIOS
QUANDO, aos 7 anos, a colombiana Shakira começou a cantar, não imaginou que a voz a levasse tão longe e tão rapidamente. Na escola, só fazia solos, porque em coro sobrepunha-se a todas as outras vozes. Os colegas diziam-lhe que soava "como um animal" e riam-se dela. Mas Shakira Isabel não desanimou com as críticas. Desde pequena que escrevia notas e pensamentos que entregava ao pai. Ele, emocionado, e talvez inspirado pelo amor paternal, encorajou-a a usar mais o lápis e o papel, a criar, a deixar-se guiar pela escrita. Assim nasceu uma menina-prodígio, numa zona de conflito, pobre e deixada ao abandono pelo resto do mundo. Bem pequenina Shakira aprendeu a dançar a belly-dance e logo se destacou fora das aulas e longe das outras meninas. Tantas virtudes e talentos só podiam acabar em sucesso, e ela soube-o, desde sempre. Ainda assim, e atingida a fama além-fronteiras, a cantora que aprendeu português mas que canta em espanhol e em inglês, não esqueceu a terra onde nasceu. A partir de Barranquilha, a Colômbia viu nascer a Fundação Pies Descalzos, uma entidade de apoio a crianças desfavorecidas. Já foram criadas quatro escolas com os apoios conseguidos por Shakira, mas a cantora pretende fazer mais com os fundos angariados junto de privados e organizações não governamentais. Compositora, cantora, produtora e embaixadora da UNICEF, eis uma mulher de sete ofícios com apenas 32 anos que até consegue juntar a beleza à inteligência.
Texto publicado na Revista Única da edição do Expresso de 3 de Outubro de 2009.