13/02/2012 atualizado às 1:11
Página Inicial » Blogues » Coordenadas Soltas » Serenidade em Serendib

Serenidade em Serendib

Um expatriado inglês refaz a vida numa antiga jóia do Sri Lanka.

Gonçalo Cadilhe
9:38 Domingo, 21 de junho de 2009
A temporada está no auge mas os hotéis continuam vazios. "Este ano é para esquecer", diz Manfred com um encolher de ombros. Mesmo com o fim da guerra e a morte confirmada de Prabhakaran, o líder máximo dos Tigres do Tamil, os turistas já não vão incluir o Sri Lanka nos seus destinos de férias.

Têm sido tempos difíceis para Manfred. Ele não o demonstra. Serenidade e nonchalance acompanham a caminhada deste inglês magro e atlético com seis décadas de vida no corpo. A nível financeiro os últimos anos foram duros para o hotel de Manfred: o tsunami e a guerra civil afastaram os turistas da ilha que Marco Polo afirmava ser a mais bonita do mundo, a antiga Taprobana do verso de Camões, a Serendib das fábulas árabes.

A praia de Arugam Bay, onde Manfred escolheu estabelecer-se definitivamente depois de uma vida a viajar pelo mundo, era um desses segredos dos trópicos onde ministros, mochileiros, estrelas do jet set, jornalistas e pescadores analfabetos convivem unidos numa espécie de torpor fraternal.

E o hotel de Manfred simbolizava essa harmonia. O hotel tanto tinha quartos de luxo como cabanas de palha, e o carisma do anfitrião estendia pontes entre os vários hóspedes como maionese numa salada russa. Poucas semanas depois de inaugurar uma ambiciosa remodelação do hotel, chegou o tsunami e o investimento de uma vida desapareceu em poucos minutos. Só o edifício central, onde agora me instalo, sobreviveu. Manfred mais uma vez encolhe os ombros: "o importante é que não morreu ninguém. Se pensarmos que dez por cento da população de Arugam faleceu, não me posso queixar do que perdi".

A vida do meu anfitrião dava um livro, ele acha que não. "Pelo menos", sugiro eu, "uma coluna num semanário português." Manfred acede a contar-me um pouco de si. Sei bem o que me fascina nele. A margem. A falta de convencionalismos. Uma contra-moral judaico-cristã que não tem nada de imoral ou indecoroso. Manfred é talvez a pessoa mais libertária e livre de preconceitos que eu conheci.Três factores na sua biografia explicam-no. Nasceu em África. Cresceu nos anos sessenta, "onde nada era ilegal ou proibido, um autêntico laboratório de experiências psicadélicas e contestatárias". E passou a vida adulta longe do Ocidente, "em países onde tudo é mais fácil e mais simples".A mãe, holandesa, morreu quando Manfred tinha 4 anos e o pai, embaixador britânico no Uganda, voltou a casar outras vezes - teve sete mulheres. Manfred nunca se ligou aos vários irmãos dos vários casamentos e foi criado por diferentes amas africanas. "Essa inconstância de afectos moldou provavelmente a minha incapacidade em manter uma única e duradoura relação sentimental".

Como engenheiro civil ao serviço do Exército Britânico, Manfred passou toda a sua carreira a viajar, em comissões no estrangeiro: Sudeste Asiático, América Latina, Extremo-Oriente. "Na realidade, o único lugar onde nunca vivi foi na minha própria pátria". Apaixonou-se sempre pelos lugares e pelas culturas onde se estabeleceu. E pelas mulheres desses lugares. "Ao contrário do meu pai, eu nunca tive pressões sociais para me casar. Se gostava de uma mulher, simplesmente juntava-me a ela."

Cada novo amor foi melhor que o anterior: "com a idade aprendes a estar numa relação, a escolher a pessoa certa", diz. Samloc, a actual companheira de Manfred, é da Tailândia, mas com traços africanos. Explica-me que foi o fruto de alguma relação passageira entre um soldado negro americano da guerra do Vietname em licença em Banguecoque, e uma tailandesa mais generosa ou descuidada que o recebeu. Samloc nunca conheceu nenhum dos pais, foi deixada num orfanato logo após o nascimento.

A filha do casal, a Leila, faz hoje dois anos. Sabemos já que a beleza exótica de um cruzamento de genes tão distinto irá destruir muitos corações mais tarde. Manfred comenta, com um sorriso doce, a ironia da situação: agora que tem idade para ser avô é que se sente pai pela primeira vez. "Das outras vezes nunca tive tempo nem oportunidade para ver os meus filhos crescer, andava sempre a viajar. Agora, estou a tempo inteiro com a Leila". Quantos filhos tens, Manfred? "Dez, de mães espalhadas um pouco por todo o mundo: Filipinas, Brasil, Dinamarca,...". Samloc interrompe-o. "A lista é longa e ele mesmo se confunde por vezes". Manfred conclui a conversa com uma simples máxima: "Uma mulher sabe sempre quantas crianças tem. Um homem sexualmente activo nunca pode ter a certeza." Riem, os dois. A Leila tenta apagar as velas.

"Podia voltar às comissões como consultor para o Exército Britânico. Resolvia logo os meus problemas financeiros." Mas não há dinheiro que pague estar fora de Arugam, longe da Leila. O sol já está menos forte e as velas do bolo foram apagadas. Pai e filha seguem para o habitual banho de luz e serenidade nas ondas de Arugam, antigo segredo dos trópicos.
Palavras-chave  Blogues, Sri Lanka, Arugam Bay
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




O melhor lugar
9:30 Domingo, 28 de junho de 2009,
Serenidade em Serendib
9:38 Domingo, 21 de junho de 2009,
Um passeio nocturno
9:27 Domingo, 14 de junho de 2009,
Deddy na crista da onda
9:00 Domingo, 7 de junho de 2009, 3
Um café por Figo
9:00 Domingo, 31 de maio de 2009,
O lugar mais bonito do mundo
9:00 Domingo, 24 de maio de 2009, 2
Massagens em Manila
9:00 Domingo, 17 de maio de 2009, 1
Beppe em Byron Bay
9:00 Domingo, 10 de maio de 2009,
Uma ideia de Liberdade
9:21 Sexta feira, 1 de maio de 2009,
'Limpeza Precisa-se!'
9:00 Domingo, 26 de abril de 2009, 1
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP