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Serenata à chuva

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 15 de janeiro de 2010

Cara leitora, estamos a criar uma geração de mariquinhas. Os nossos miúdos estão a crescer numa redoma pós-moderninha, longe das coisas mais simples. Há dias, uma menina dizia-me que os frangos vêm do supermercado. Ou seja, aquela criança não associa a galinha, que vê no galinheiro, à carne, que vê no prato. Deve achar que a comida vem de uma fábrica mágica onde o plástico inerte ganha a forma de bife suculento. Ontem, eu não conseguia entrar no meu bairro. Chovia uma carga que assustaria até Noé. Perante o dilúvio, os papás foram buscar os meninos ao liceu. A fila de carros era um espectáculo bíblico. Os meninos, claro, não podiam regressar a pé, porque não sabem o que é um chapéu-de-chuva (não deve fazer pendant com as camisas, ou assim), e porque não podem apanhar 'molhas', coitadinhos. No meu tempo, a malta apanhava violentas 'molhas'. Até era divertido: à chuva, elas ficavam mais permeáveis a beijos e afins.

Nos meus anos 80, a malta andava na rua, nos parques, nas matas, nos campos. Sabíamos o que era a terra, aquela coisa que está debaixo do alcatrão. A caminho da escola, descobríamos, e matávamos, a fauna local. Chegámos aos 10 anos com o vigor de uma tropa de assalto. Tínhamos, nas mãos, calos transmontanos. Tínhamos, no rosto, uma pele tisnada de alentejano. Tínhamos cicatrizes em todos os joelhos, os de baixo e os de cima (vulgo: cotovelos). Ora, tudo isto é ficção científica para a malta que nasceu nos anos 90. Os jovens de hoje não põem os pés na rua. Saltam da cama para o carro do papá. Do carro, saltam para a escola. À tarde, saltam do carro da mamã para a natação ou aulas de ballet. Nunca têm contacto com a rua. Não por acaso, estes miúdos têm medo de tudo o que está no exterior da sua redoma. Estamos a criar mariquinhas faraónicos, cara leitora. Mariquinhas que não sabem como é bom sacar um beijo à chuva.

Esta hiperprotecção dos jovens revela que a nossa sociedade entrou num triângulo das Bermudas familiar: os crianças mandam nos pais. Aliás, a criançada domina a sociedade. Como os cristãos na Roma de Nero, os adultos vivem na clandestinidade. A televisão é para adolescente ver. A sala de cinema é território juvenil. Na escola, o menino não tolera ser ensinado pelo professor. Em todo o lado, em qualquer lugar, o menino tem sempre razão, mesmo quando tenta bater no avô. Esta inversão da moral, sempre com o objectivo de manter o menino na Terra do Nunca, é algo profundamente perverso. E a consequência mais sinistra desta perversão social e moral é mesmo o abandono dos velhos. As famílias só têm olhos para as criancinhas, e acabam por desprezar os avós e bisavós das ditas criancinhas.

No domingo, enquanto pais e meninos passavam pela ressaca de ano novo, nove velhos morreram entre as dez da manhã e as dez da noite (só em Lisboa). Morreram devido à ressaca do abandono. Alguns suicidaram-se, porque já não suportavam a solidão. Cara leitora, nas traseiras da sociedade Peter Pan existe uma ruela escura, pestilenta e imoral: o abandono dos velhos. Os papás ficam a jogar jogos electrónicos com os meninos, e, depois, são incapazes de visitar os mais velhos. Perante isto, deixo-lhe aqui um repto, cara leitora: destrua a consola, castigue o seu marido, e, acima de tudo, deixe o puto ir para a rua, a ver se ele descobre o caminho para um beijo à Gene Kelly.

Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010

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Serenata à chuva
Toni 2 (seguir utilizador), 2 pontos , 23:24 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
O problema é só um, ou melhor dois. Primeiro são flhos únicos, segundo apesar de tudo continuar a falar na crise, eu continuo a perguntar por onde anda essa senhora. Se tivessem como em tempos que já lá vão oito ou dez filhos estou convicto, que íam a pé para a escola e não tinham nem piscina nem balé, nem roupas de marca. Eram capaz de saber que o frango não se cria no Supermercado e tenho a certeza que sabiam o que era comer pão que o diabo amassou. Aí sim podiam não conhecer a palavra crise, mas sabiam pela certa como era. Também é verdade que eles não são assim tão ignorantes e até há coisas que sabem hoje muito mais como informática, ingles e também muito mais cedo que os bebés não vêm de Paris no bico da cegonha. É claro que não sabem montar um burro, mas também que interesse tem, se até já os ciganos andam de carro.
 
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sou a rosa e estou à rasca por sua causa
Rosa Engeitada (seguir utilizador), 2 pontos , 23:34 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
senhor henrique sabe como sou sua fã e sempre o defendi da pancada que lhe dão e desta vez fiquei tão feliz por ninguém lhe bater que telefonei para todas as minhas primas a dizer aquilo que o senhor henrique diz mandei-as pôr os miúdos na rua e nada de mariquices e para os não deixar bater nos avós e para eles beijarem uma tal kely e ai senhor henrique agora até que tive de desligar o telefone porque não me largam com ameaças e olhe a minha prima epifânia diz que a filha foi com um marmanjo que toca viola a lucrécia outra prima diz que os gemeos entraram na delegação do bloco de esquerda e decidiram casar um com o outro a querubina essa então não me perdoa pois o filho conheceu uma brasileira chamada kely beijou-a e o namorado deu-lhe uma carga de pancada a teresina mandou o filho a pé para escola e o miúdo só apareceu agora numa escola de samba a fazer de travesti a capitolina disse-me que deixou a miúda ir brincar para a rua e um avô meteu-a à força dentro do carro e se não fossem os vizinhos terem visto não sei a desgraça que seria e a miuda disse que não reagiu porque a mãe portanto a minha prima lhe tinha dito que nos avós não se bate e além de tudo toda a miudagem apanhou uma carga de água porque estava a chover e estão todos com gripe que espero que não seja a á e ó senhor henrique vá-se lixar mais os seus conselhos e a partir de agora quero lá saber se lhe batem e muito que é o que merece
 
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como é que diz que é (seguir utilizador), 1 ponto , 10:27 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
so duas palavras:
1) muitos parabens por ter dado um beijo a uma rapariga à chuva, da para perceber que é algo de que se orgulha imenso - tanto (3 vezes no artigo!) que revela uma qualquer insegurança? Deixo isso para os psicologos.
2) os escritores deviam ser castigados por cada vez que usam palavras relacionadas com pos-modernismo de forma oca e perfeitamente desnecessaria. Especialmente se lhe juntarem um diminutivo.
 
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cardoso56 (seguir utilizador), 1 ponto , 11:49 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
    Re: é melhor nem comentar o artigo em si    Ver comentário
como é que diz que é (seguir utilizador), 1 ponto , 12:34 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
concordo!
éofimdapicada (seguir utilizador), 1 ponto , 12:39 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
Já percebi, que pelo facto do autor ter mantido posições de direita em algumas matérias, ou pelo menos anti-socráticas, o mesmo tem granjeado um rol de fieis leitores sempre prontos para o "botaabaixismo"...Até quando o assunto se situa em torno a uma certa falta de pedagogia colectiva fruto dos novos tempos...
Eu sou pai de uma linda menina de 5 anos...E na verdade, embora eu não sinta ainda reflexos por mais pequenos que sejam de alguma distorção de caracter, são inúmeras as vezes que digo à minha mulher que é na cozinha que se janta e não no sofá enquantop vê os desenhos animados e que por vezes exageramos quando colocamos uma autêntica redoma de vidro protector no seu torno. Já não bastam os brinquedos que são tantos que já nem ligam e claro das roupinhas de marca que acabam por também não valorizar o esforço dos pais, não dando nunca o valor ao dinheiro e ao esforço para o conseguir por meios honestos...
 
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igrejar (seguir utilizador), 1 ponto , 12:59 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
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como é que diz que é (seguir utilizador), 1 ponto , 13:57 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
    Re: eu também    Ver comentário
éofimdapicada (seguir utilizador), 1 ponto , 14:21 | Sexta feira, 15 de janeiro de 2010
mas o exemplo vem de cima!!
Oscar_pt (seguir utilizador), 1 ponto , 9:35 | Domingo, 17 de janeiro de 2010
Um destes dias durante um dos meus passeios de mota dei por mim a pensar que se esta não tivesse sido inventada quando foi hoje concerteza não o permitiriam. provavelmente o inventor iria parar a cadeia por tentativa de homicidio ou coisa do genero.... um veiculo só com 2 rodas, sem cinto de segurança, etc?! doido!! Os nossos governantes devem pensar que é bom fazer leis, quantas mais melhor para proteger o cidadão de tudo e mais alguma coisa não interessa a que preço... e o preço pode vir a ser no longo prazo a extinção. Onde anda a galhardia? a continuar assim, algum dia, assim que os avanços tecnologicos o permitam, até na cama teremos regras de segurança fiscalizadas e criadas para nos "proteger"....
 
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A voz da razão...
MUNDO CLEPTOMANÍACO (seguir utilizador), 1 ponto , 15:50 | Sexta feira, 22 de janeiro de 2010
É de lamentar que ainda existam energúmenos que, quando se toca nas "feridas" da sociedade, tentem deitar abaixo alguém que aponta o dedo à merda de sociedade que temos.
Este artigo é apenas uma amostra da realidade da nossa sociedade, e quem não concorda com ele faz parte do problema e não solução do mesmo.
Os mariquinhas vieram logo para aqui dizer blá,blá,blá... E não sabem dizer mais nada. Devem ter ficado excitados com a comichão no olho do rabo...
 
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