23/02/2012 atualizado às 14:05

"Será trágico se não houver um acordo climático"

Rajendra Pachauri, Prémio Nobel da Paz, considera que "será trágico se o Mundo não ratificar o acordo climático que for firmado na Cimeira de Copenhaga em Dezembro".

Virgílio Azevedo
9:21 Sábado, 18 de abril de 2009
Rajendra Pachauri: “Não acredito que a tendência de subida da temperatura média global venha a parar”
Rajendra Pachauri: “Não acredito que a tendência de subida da temperatura média global venha a parar”

O presidente do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, Nobel da Paz em 2007 com Al Gore, falou esta semana sobre o tema "Alterações Climáticas e o Desafio do Desenvolvimento Sustentável" para 300 pessoas num almoço-conferência no Convento do Beato, em Lisboa. Pachauri foi apresentado pelo director do Expresso, Henrique Monteiro, num evento encerrado pelo ministro da Economia, Manuel Pinho. A conferência integra-se no Mês do Desenvolvimento Sustentável, uma iniciativa promovida pelo Expresso e pelo BES.

Segundo o instituto meteorológico britânico (Met Office), a temperatura média global está a descer desde 2001. Acabou o aquecimento global?
Não acredito que a tendência de subida das temperaturas venha a parar, mesmo que seja interrompida por sete ou oito anos, porque 2004 e 2005 foram anos muito quentes e no relatório de 2007 do IPCC constatámos claramente que onze dos últimos 12 anos estão entre os 12 mais quentes da História. Há uma diferença entre tempo e clima, e há mudanças naturais que não significam que tenha havido uma inversão de tendência. Pode haver mesmo declínio das temperaturas nos próximos dez ou 15 anos sem que a tendência para o aquecimento global se altere.

Há cientistas que afirmam que, se há um efeito de estufa devido às actividades humanas, as pressões atmosféricas sobre os continentes estariam a descer. Mas estão a subir, em particular sobre Portugal. O que se passa afinal?
Essa é uma visão muito simplista do que se passa, o que está totalmente errado. A atmosfera não é estável, há mudanças que ocorrem permanentemente em todo o mundo. É um sistema muito complexo, que não pode depender apenas de uma simples variável. Há partes do mundo onde a pressão atmosférica está a subir e outras em que está a descer. Há mudanças na actividade dos ciclones e dos furacões, os oceanos estão a ficar mais quentes, a Sibéria e a Gronelândia estão com maior precipitação e mais neve.

Na Cimeira de Bali sobre o clima, em 2007, um grupo de 100 conhecidos cientistas escreveu uma carta ao secretário-geral da ONU contestando a tese do aquecimento global. Desde então este grupo cresceu e parece ter maior impacto na opinião pública. Porquê?
Esse grupo está hoje melhor organizado e tem mais fontes de financiamento do que em 2007. Sente-se ameaçado e por isso está a organizar-se melhor para fazer muito barulho. Mas acredito que a verdade triunfará no final. Historicamente, quando emergem novos conhecimentos, há sempre pessoas que os contestam, mas isso não significa que as suas opiniões estejam certas.

“Não vejo qualquer conflito entre recuperação económica mundial e combate às Alterações Climáticas”
“Não vejo qualquer conflito entre recuperação económica mundial e combate às Alterações Climáticas”
Com a crise global, há um recuo nas negociações internacionais sobre o clima?
Francamente acho que não, porque todos os líderes mundiais concluíram que há qualquer coisa que está mal no sistema económico e os problemas básicos que estão na origem da presente crise estão também relacionados com as alterações climáticas. Nos EUA, por exemplo, há claramente uma aposta nas energias renováveis e o Presidente Obama diz que quer estimular a criação de empregos verdes para recuperar a economia. Não vejo qualquer conflito entre os dois objectivos - retoma económica e combate às alterações climáticas seguem a mesma direcção. Portanto a crise é apenas uma distracção na atenção dos decisores políticos. Encaro-a como um problema temporário e não como um recuo nas negociações do clima.

Então, do seu ponto de vista a crise é uma oportunidade?
Sim porque se ela não existisse continuávamos com o "business as usual". Mas agora que os políticos constataram que o "business" não pode continuar "as usual", a recuperação económica e os desafios das alterações climáticas podem ser tratados ao mesmo tempo. Parte dos fundos públicos destinados à retoma da economia podem ser investidos em programas e infra-estruturas relacionadas com as alterações climáticas (transportes públicos, energias renováveis, segurança energética, novas indústrias verdes).

Não acha que há expectativas exageradas entre os governos europeus e a opinião pública quanto à vontade de mudança do Presidente Obama?
A nova Administração americana pode dar um novo impulso às negociações do clima. O único problema é o timing, porque tomou apenas posse em Janeiro e enfrenta muitos desafios ao mesmo tempo e o Presidente Obama tem uma prioridade: a criação de milhões de novos empregos e a retoma da actividade económica. Haverá oposição interna ao que ele quer fazer, porque há medidas que vão contra os interesses de vários lóbis, mas penso que dentro de três a quatro meses teremos sinais concretos na direcção certa. E isso terá de influenciar as negociações climáticas pós-Quioto. Se os EUA não assumirem a liderança do processo, então essas negociações enfrentarão problemas.

Mas há declarações contraditórias de vários responsáveis americanos.
Os EUA ainda não definiram claramente a sua posição e eu percebo porquê. Se fizesse uma declaração mais agressiva na arena internacional já, a nova Administração teria problemas domésticos e essa posição estaria ameaçada à partida. A actual posição americana é muito defensiva, muito cautelosa, por causa do Senado, das pressões da indústria do carvão ou do petróleo, e portanto há que conseguir primeiro um consenso nacional. E, a nível externo, é também uma questão de táctica negocial. Se derem todas as cartas agora, não haverá espaço para negociações. Um dos erros da Administração Clinton/Al Gore (e eu sou muito amigo de Al Gore) para conseguir que os EUA ratificassem o Protocolo de Quioto foi não conquistar o Senado.

E quais são as suas expectativas quanto à Cimeira de Copenhaga em Dezembro, onde se pretende um novo acordo climático que suceda ao Protocolo de Quioto em 2012?
Estou cautelosamente optimista, porque não devemos minimizar os problemas que vão surgir na cimeira. Tendo em conta que a opinião pública nos países democráticos é a favor de medidas fortes para enfrentar as alterações climáticas, e que muitos líderes políticos também o são, estou convencido que conseguiremos um bom acordo em Copenhaga. Mas é preciso que os EUA liderem, porque senão os outros países vão dizer: porquê cortar nas emissões se os EUA, que são o principal país emissor de CO2 e a principal causa das alterações climáticas, não o pretendem fazer? Alguns afirmam que a China, Índia ou Brasil deveriam tomar a iniciativa, mas o facto é que se os países desenvolvidos não derem o primeiro passo, não veremos nenhum empenhamento dos países em desenvolvimento.

Henrique Monteiro, director do Expresso, abriu o almoço-conferência de Pachauri, que foi encerrado por Manuel Pinho, ministro da Economia
Henrique Monteiro, director do Expresso, abriu o almoço-conferência de Pachauri, que foi encerrado por Manuel Pinho, ministro da Economia
E se Copenhaga falhar, ou se o novo protocolo aí acordado não for ratificado pelos parlamentos nacionais até 2012, o IPCC tem um Plano B?
Não. O IPCC tem apenas como objectivo tornar disponível a ciência sobre as alterações climáticas, ou seja, nós fornecemos a base para a acção. Mas o IPCC não diz que esta ou aquela medida devem ou não ser tomadas. Agora o que dizemos claramente é que o mundo tem uma janela de oportunidade muito pequena. E se não passarmos à acção rapidamente e limitarmos o aumento das temperaturas aos dois graus - e temos de o fazer até 2050, porque a partir desta data as emissões globais têm de começar a baixar, as implicações serão muito sérias. Será trágico se o mundo, de uma forma irresponsável, não ratificar o acordo que for firmado em Copenhaga em Dezembro.

Como pode o desafio do Desenvolvimento Sustentável (tema da sua conferência) contribuir para o fim da crise mundial?
Há muitas maneiras de o fazer, começando pelos investimentos em infra-estruturas. Veja o caso de Portugal, que vai ter sérios problemas de abastecimento de água no futuro, problemas com a subida do nível do mar ou a necessidade de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. Portugal precisa de investir nestes sectores e ao fazê-lo está a criar novos empregos e a apostar na retoma económica. Claro que haverá resistências à mudança. Veja o caso da General Motors, que falhou mas que quer apoios do Governo para continuar. Apoiar a GM é apoiar o "business as usual" e é preciso mudar isso. É preciso apoiar as empresas e organizações que defendem outro modelo de transporte, com carros mais eficientes e limpos. Mas não vai ser fácil.

Um panorama geral do almoço-conferência no Convento do Beato, em Lisboa, onde estiveram presentes 300 pessoas
Um panorama geral do almoço-conferência no Convento do Beato, em Lisboa, onde estiveram presentes 300 pessoas

O nuclear está de regresso em vários países europeus (Suécia, Reino Unido, Alemanha) como uma das alternativas em termos de energias limpas. Acha que esta opção pode ser crucial para alguns países reduzirem as emissões de CO2?
Não há dúvida que o interesse pela energia nuclear está a aumentar, porque produz poucas emissões e, naturalmente, vários países adoptaram-na. Penso que a energia nuclear vai crescer e que a curto prazo fará parte, com as energias renováveis, da solução global para reduzir as emissões, mas apenas numa perspectiva de curto prazo. Acredito que o mundo tem de investir muito mais nas renováveis, porque essa será a solução final, será o futuro, e países como Portugal podem ter uma forte posição de liderança neste processo.

Que mensagem quer deixar aos portugueses sobre o Desenvolvimento Sustentável e as alterações climáticas, o tema da sua conferência em Lisboa?
Portugal tem uma oportunidade única, e espero que o país tenha uma visão global, e que veja o que pode fazer para mitigar as alterações climáticas e para promover a adaptação a elas, tanto dentro das suas fronteiras como nos países em desenvolvimento, porque acredito que é aí que estarão os grandes mercados do futuro. Por isso serão boas oportunidades para Portugal, um país que tem vento, biomassa, energia solar, energia das ondas, enfim, as tecnologias do futuro.

E quanto à mudança de estilo de vida?
Mudar o estilo de vida é ainda mais importante, em particular nos hábitos alimentares, consumindo menos carne porque o ciclo deste alimento é muito intensivo em energia e em emissões de CO2. E há também um problema de segurança alimentar mundial no futuro: se cada vez mais pessoas comerem mais carne, não haverá cereais suficientes para a produzir, porque a conversão de calorias dos cereais em calorias da carne é muito pouco eficiente.

É vegetariano?
Não era, mas por razões éticas e ambientais tornei-me basicamente vegetariano. Só como peixe ocasionalmente.

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 18 de Abril de 2009, 1.º Caderno, páginas 20 e 21.
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Hipotecar o Futuro
dedalo11 (seguir utilizador), 1 ponto , 10:47 | Sábado, 18 de abril de 2009
Esta questão das alterações climáticas parece-me algo de simples em termos de decisões: ou avançamos para soluções que evitem o descalabro ou hipotecamos as gerações que nos seguirão. Perante isto, teremos que abdicar de alguns prazere, melhorar a forma como usamos as mais diversas criações da Humanidade; pensar com racionalidade e viver com mais frugalidade. A actual ânsia de viver, usufruindo de tudo, incluindo das coisas que destroem o Planeta (muitas delas supérfluas e até tolas), de forma lenta mas segura, estamos a caminhar para um muito provável caos. A decisão é de todos e esse até parece ser o maior problema, porque cada um diz que não tem culpas no cartório. Como, mais uma vez (sempre), as soluções dependem dos nossos eleitos, temos que os pressionar. Para isso só temos o voto e nesta fase do Planeta, a abstenção bem pode ser considerada de crime, já que não serve para nada.
 
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Não me parece fiável
Fala francês (seguir utilizador), 1 ponto , 15:22 | Sábado, 18 de abril de 2009
a opinião deste Sr. Sendo amigo de Al Gore, esse criminoso, está tudo esclarecido.
 
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O FUTURO ESTA MAIS QUE HIPOTECADO
139519483 (seguir utilizador), 1 ponto , 17:19 | Terça feira, 21 de abril de 2009
TUDO TEM UM FIM E O PLANETA TERRA NAO ESCAPA A REGRA, FAÇAMOS NOS O QUE FIZERMOS, PODEMOS ADIAR ALGUM TEMPO MAS, MUITO POUCO. JA HOUVERAM DEGELOS, NOUTROS TEMPOS, JA HOUVERAM ANOS E ANOS DE SECAS, ASSIM COMO INVERNOS SEM FIM, JA CORRERAM RIOS NO SARA, JA POR MILHARES DE VEZES SE DISSE QUE ERA O FIM DO MUNDO, E, UM DIA SERA MESMO. ATE LA VAMOS APROVEITAR.
 
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Quem matou o carro elétrico?
Rio Grande (seguir utilizador), 1 ponto , 2:39 | Quinta feira, 23 de abril de 2009
É o título de um documentário, no qual há depoimentos de Mel Gibson e Tom Hanks, sobre um projeto de carro elétrico, que estava em desenvolvimento em 1996, na California, nas mãos de motoristas para testes normais de uso diário, que foi abortado pela General Motors Corporation, depois de perceber que o produto era muito bom, mas invalidava as parcerias que até então existia para a produção de um carro convencional e, por isso, os veículos foram retirados de circulação, depois de uma batalha judicial e de muitos protestos, sendo todos destruídos. É um documentário interessante. Hoje, o gigante está pedindo *água*, o governo americano abre a torneira, mas duvido que alguma coisa mude profundamente.
 
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Será trágico se não houver um acordo climático.
José veloso (seguir utilizador), 1 ponto , 18:33 | Sexta feira, 24 de abril de 2009
Há que saber que as alterações climáticas são irreversíveis, porque são parte integrante do desenvolvimento planetário, rumo à perfeição, mas se puder-mos evitar que essas alterações sejam nefastas, melhor, para todos nós. Ainda devemos compreender que todas essas alterações são naturais, pois dessa forma, não hesiste ser humano que seja superior à natureza.
 
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