No dia 17 de Outubro de 2009, o Expresso tinha na sua capa uma notícia com o seguinte título: "Emigram de Portugal uma centena de licenciados por mês". Ainda antes de ler o resto da notícia, este título deu-me logo muito que pensar, isto, porque traduz, a meu ver, a minha opinião de há já muito tempo de que o ensino superior português é desajustado e desorganizado. Claro que a notícia não pode ser cruamente analisada apenas pelo título, mas ele traduz um panorama que tenho vindo a sentir cada vez mais generalizado.
Acredito piamente que uma boa parte destes novos emigrantes licenciados o fazem pela simples mas complexa razão de o seu país não fazer o relacionamento mais óbvio em todos os sectores de actividade - a lei da oferta e da procura. Esta lei tão básica que rege o mercado não é entendida pelas pessoas que a deveriam entender. Ou então é pior, é entendida mas ninguém quer assumir que há coisas a serem feitas o mais rapidamente possível. Parece que os nossos governantes preferem a apatia à atitude, e isso traduz-se numa formação superior que em números é completamente desajustada da procura do mercado.
O resultado é que boa parte destes licenciados que estudaram durante anos a fio com o pensamento que iriam ter oportunidade de exercer a sua especialidade se vêem limitados a uma estadia prolongada no desemprego ou num qualquer emprego precário e desqualificado. Para um jovem que aplicou tanto tempo da sua vida aos estudos, ver-se nesta situação deve ser bastante desmotivador. A solução, então, é sair para destinos que nunca foram um objectivo pensado, para locais em que a sua formação seja valorizada e onde não existam estrangulamentos na oferta.
Claro que pode argumentar-se que este número de licenciados a emigrar não passa de um acontecimento normal numa era que se diz de globalização, mas não é isso o que sinto ao meu redor.
Vejo enfermeiros a deixarem o nosso país para se aventurarem na vizinha Espanha pois cá o emprego não existe ou é precário e lá é valorizado e muito mais bem pago. Vejo dentistas a emigrar especialmente para o Reino Unido pela simples razão que o nosso país ainda não entendeu a importância da saúde oral para todos no SNS. Vejo engenheiros a emigrar para a Angola trocando a precariedade laboral no seu país por um outro tipo de precariedade mas com vencimentos que para muitos compensam. E falo destes exemplos só mesmo como simples exemplos de um leque muito mais vasto. É porque vejo estes exemplos em bem maior número comparado com o dos licenciados que saem em busca de uma experiência profissional enriquecedora, ou de formação específica em uma qualquer área, que digo que o título do artigo em questão só se pode traduzir em inúmeras histórias de formação desadequada das reais necessidades do país.
Além destas histórias poderem estar carregadas de desmotivação, há ainda um outro problema no meio disto tudo, que se refere à factura paga pelo país na formação de jovens que depois emigram e deixam de produzir o retorno dos investimentos feitos pelo país.
Se não se interessam pelas pessoas preocupem-se com o dinheiro. Se não têm a coragem suficiente para tentar mudar as coisas pela simples perspectiva da melhoria das mesmas, pelo menos pensem na perspectiva de uma diminuição de gastos e de um melhor investimento. Pelo menos isso.
É por tudo o que eu vejo ao meu redor que este título me fez reflectir que, deste grupo de uma centena de licenciados que abandonam o nosso pais diariamente, a maioria pode não ter a ver com a bondade da globalização mas sim com imposição derivada da apatia dos governantes nesta democracia que muitos dizem asfixiada.