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Sem rei nem roque

José Cutileiro (www.expresso.pt)
0:01 Sexta feira, 25 de dezembro de 2009

Assim ficará o mundo se Obama não for capaz de lhe deitar a mão - de o agarrar pela pele do pescoço como se agarra um gato zangado - ao contrário do que esperavam os seus fiéis. Há três gerações que as nações não estão habituadas a viver num mundo sem rei nem roque.

A seguir à II Guerra Mundial os poderes europeus já não tinham envergadura para continuarem a mandar no mundo mas, entretanto, havia surgido quem quisesse tomar conta dele: os Estados Unidos e a União Soviética, depressa armados até aos dentes um contra o outro. Como havia, de parte a parte, a convicção de que uma guerra nuclear seria o fim da humanidade e como se receava que pequenas escaramuças pudessem degenerar em conflitos perigosos, cada lado trazia os seus arruaceiros à rédea curta. Durante meio século houve muitas guerras locais mas Washington e Moscovo não as deixavam alastrar e - milagre que os vindouros talvez venham a apreciar melhor do que nós - a Guerra Fria acabou a bem.

Por sorte foi ganha pelos Estados Unidos que - sorte suplementar - tinham nessa altura para tratar das relações com o resto do mundo George Bush pai, Brent Scowcroft e Jim Baker, três homens muito menos arraçados de escuteiro do que a maioria dos estadistas americanos. No mundo unipolar, entre a queda do muro de Berlim e a queda das torres de Manhattan, era como se se vivesse outra vez antes da Revolução, e as façanhas da Lewinsky abriam os noticiários - embora a Rússia de Putin se declarasse humilhada (não se percebe por quem), a China fosse amealhando dólares de mais e levedassem já outras complicações futuras. A junção dos ataques de 11 de Setembro à eleição de Bush filho foi explosiva e quando, 8 anos depois, Barack Obama apanhou o poder da rua, antiamericanismos de diferentes proveniências apostavam na chegada do mundo multipolar.

Não vai ser para já e nada garante que, se houver vários pólos, estes se dêem bem. Mais grave, o pólo existente é a garantia que nos resta de alguma ordem no mundo mas, em parte por culpa de Obama em parte por culpas de quem o quer provocar, parece dar sinais de fraqueza. Os Estados Unidos de Bush filho eram odiados mas eram temidos; os Estados Unidos de Obama são estimados mas não se dão ao respeito. Os casos acumulam-se: no Médio Oriente Netanyhau, Abbas e o Rei da Arábia Saudita ignoraram exortações de Obama; em Washington, o senador Lieberman anuncia que não dará o seu voto crucial ao plano de saúde; no Paquistão, a tropa rejeita pedido americano de atacar o principal chefe talibã (acha que precisará dele contra a Índia quando os americanos se forem embora). É gente de mais a dizer que não ao homem mais poderoso do mundo.

Obama faz discursos admiráveis mas faltam-lhe até agora actos decisivos. Se convencer Rússia e China a apoiarem sanções contra o Irão e o Congresso a apoiar o plano de saúde, terá ganho em casa e fora. Se não, arriscar-se-á a ficar a maior ilusão perdida da política mundial desde o fim da Guerra Fria.

José Cutileiro

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009


 

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Nós somos os representantes de Deus
Durruti Blak (seguir utilizador), 1 ponto , 17:19 | Sexta feira, 25 de dezembro de 2009
José Cutileiro, o Diplomata, VS José Cutileiro, o Ocidental. JC do mundo “Sem rei nem roque” porque Obama é um frouxo: “os Estados Unidos de Obama são estimados mas não se dão ao respeito. Os casos acumulam-se” mas ele dá a solução: “convencer Rússia e China a apoiarem sanções contra o Irão e o Congresso a apoiar o plano de saúde, terá ganho em casa e fora”. Deixemos o plano interno – eu como “antiamericanista” até continuo a achar que os EUA é um dos exemplos mais próximos do ideal de Democracia – e passemos ao “exterior”: “sanções contra o Irão” (a propósito, recomendo-lhe um excelente artigo no Le Monde Diplomatique, de Gareth Porter, “Iran’s fuel for conflict” - http://mondediplo.com/200... Será que o “aviso” de Obama ao presidente chinês Hu Jintao de que não vai conseguir evitar a intervenção militar chinesa (Barak Ravid e Natasha Mozgovaya, 17.12.2009 - Haaretz.com) tem alguma influência? Ou mesmo alguma diferença “diplomática” da “aproximação” (a mesma mão estendida pouco depois de ter sido eleito foi a que renovou as sanções dos EUA ao Irão) do seu antecessor?
Por muito “soft” (frouxa, no calão português...) que seja a posição/imagem de Obama, a base de partida é a mesma que a do W Bush: nós somos os representantes de Deus, enquanto o messias, prometido aos judeus, não aparecer. O Irão não é um problema Ocidental mas sim desse enclave ocidental em terras árabes: Israel!
A igreja pode ser afro-americana, e não WASP, mas o que mudou? O coro?
 
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Há três gerações?!
Trapezio (seguir utilizador), 1 ponto , 19:27 | Sexta feira, 25 de dezembro de 2009
A partir de quando é que está a contar? De 1989 para cá? Não me parecem três gerações ...

De qualquer forma, há quem diga "estar escrito nas estrelas" que quando um Império cai, imediatamente outro se levanta. E, neste caso, o império que se está a levantar, trazendo consigo a Nova Ordem Mundial tão apreciada por Bilderberg, é a China.

Se o Estado milenar oficialmente ateu conhecido entre nós por China for o continuador das guerras pelo petróleo iniciadas pelo clã Bush, ele estará apenas a fazer aquilo que é suposto um Império fazer: conquistar e explorar as riquezas dos povos conquistados. Quando isso acontecer, a América acordará do sonho ilusório de que ainda manda no planeta e com ela todos aqueles que julgam que os EUA continuam a ser o farol que ilumina o mundo ...
 
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    Re: Há três gerações?!    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 19:41 | Sexta feira, 25 de dezembro de 2009
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