Assim ficará o mundo se Obama não for capaz de lhe deitar a mão - de o agarrar pela pele do pescoço como se agarra um gato zangado - ao contrário do que esperavam os seus fiéis. Há três gerações que as nações não estão habituadas a viver num mundo sem rei nem roque.
A seguir à II Guerra Mundial os poderes europeus já não tinham envergadura para continuarem a mandar no mundo mas, entretanto, havia surgido quem quisesse tomar conta dele: os Estados Unidos e a União Soviética, depressa armados até aos dentes um contra o outro. Como havia, de parte a parte, a convicção de que uma guerra nuclear seria o fim da humanidade e como se receava que pequenas escaramuças pudessem degenerar em conflitos perigosos, cada lado trazia os seus arruaceiros à rédea curta. Durante meio século houve muitas guerras locais mas Washington e Moscovo não as deixavam alastrar e - milagre que os vindouros talvez venham a apreciar melhor do que nós - a Guerra Fria acabou a bem.
Por sorte foi ganha pelos Estados Unidos que - sorte suplementar - tinham nessa altura para tratar das relações com o resto do mundo George Bush pai, Brent Scowcroft e Jim Baker, três homens muito menos arraçados de escuteiro do que a maioria dos estadistas americanos. No mundo unipolar, entre a queda do muro de Berlim e a queda das torres de Manhattan, era como se se vivesse outra vez antes da Revolução, e as façanhas da Lewinsky abriam os noticiários - embora a Rússia de Putin se declarasse humilhada (não se percebe por quem), a China fosse amealhando dólares de mais e levedassem já outras complicações futuras. A junção dos ataques de 11 de Setembro à eleição de Bush filho foi explosiva e quando, 8 anos depois, Barack Obama apanhou o poder da rua, antiamericanismos de diferentes proveniências apostavam na chegada do mundo multipolar.
Não vai ser para já e nada garante que, se houver vários pólos, estes se dêem bem. Mais grave, o pólo existente é a garantia que nos resta de alguma ordem no mundo mas, em parte por culpa de Obama em parte por culpas de quem o quer provocar, parece dar sinais de fraqueza. Os Estados Unidos de Bush filho eram odiados mas eram temidos; os Estados Unidos de Obama são estimados mas não se dão ao respeito. Os casos acumulam-se: no Médio Oriente Netanyhau, Abbas e o Rei da Arábia Saudita ignoraram exortações de Obama; em Washington, o senador Lieberman anuncia que não dará o seu voto crucial ao plano de saúde; no Paquistão, a tropa rejeita pedido americano de atacar o principal chefe talibã (acha que precisará dele contra a Índia quando os americanos se forem embora). É gente de mais a dizer que não ao homem mais poderoso do mundo.
Obama faz discursos admiráveis mas faltam-lhe até agora actos decisivos. Se convencer Rússia e China a apoiarem sanções contra o Irão e o Congresso a apoiar o plano de saúde, terá ganho em casa e fora. Se não, arriscar-se-á a ficar a maior ilusão perdida da política mundial desde o fim da Guerra Fria.
José Cutileiro
Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009