O bilionário Sebastián Piñera, novo Presidente do Chile, toma posse hoje, duas semanas após o terramoto de magnitude 8,8 que assolou o país. Recuperar da tragédia é a prioridade do novo Chefe de Estado, o primeiro conservador eleito pelo voto popular desde a reinstauração da democracia, em 1990. A cerimónia terá lugar em Valparaíso, cidade a 130 quilómetros da capital, Santiago.
A recente catástrofe leva a oposição a apoiar o novo Governo, uma benesse para um dirigente que venceu o escrutínio de 27 de Dezembro com uma maioria ajustada: 51.61%. O certo, porém, é que a bitola está alta para Sebastián Piñera.
A sua antecessora, Michelle Bachelet - do campo político oposto - deixa o cargo com taxas de popularidade de 84% e, caso a Constituição não proibisse a recandidatura, teria sido facilmente reeleita. Em 2006, venceu Piñera na segunda volta. Ontem, declarou-se satisfeita por "entregar ao novo Governo um país política e socialmente estável, internacionalmente respeitado e com autoridades de alta credibilidade".
Sebastián Piñera, de 60 anos, era senador desde 1990. Com fortuna feita em companhias aéreas e na área do crédito bancário - introduziu os cartões de crédito no país, nos anos 1980 -, pilota o seu helicóptero e é adepto do mergulho. O dirigente, que pretende para o Chile um crescimento económico de 6%, vendeu todas as acções das suas companhias após ter sido eleito.
Segurança mais dura e menos greves
Analistas ouvidos pela BBC consideram que o momento é favorável para o novo Presidente, não só pelo espírito de união como pela probabilidade de a reconstrução gerar empregos. Sebastián Piñera prometeu criar um milhão de postos de trabalho até ao fim do mandato de quatro anos.
O sismo destruiu estradas, pontes, hospitais, escolas, casas, edifícios e monumentos históricos, tornando plausível - alegria macabra - o que antes parecia apenas um sonho. Já as exigências dos trabalhadores, como o aumento de salários, deverão ficar adiados, segundo académicos citados pelo canal britânico. As greves seriam mal vistas nestas circunstâncias.
Também do ponto de vista da segurança o vento corre de feição a Sebastián Piñera. As habituais pilhagens após o terramoto fizeram crescer o apoio popular a soluções duras como as que preconiza. As denúncias anónimas, aceites pelo novo Presidente, levaram à captura de vários saqueadores de lojas danificadas pelo sismo.
"O próximo Presidente do Chile tem uma enorme oportunidade de fazer um bom Governo. Tem apoio político e da sociedade para isso", afirma o politólogo Guillermo Holzmann, da Universidade do Chile. Ricardo Israel, da Universidade Autónoma, alerta que "as pessoas não vão perdoar a Piñera se não cumprir depressa a promessa da reconstrução".
Nada de associações com Pinochet
O Chile tem 16 milhões de habitantes e uma economia sólida, com mais acordos de comércio livre do que qualquer outro país. Tal deve facilitar a obtenção de crédito para as obras. O Governo cessante, da coligação de centro-esquerda Concertação (que esteve 20 anos no poder), reduziu a pobreza, embora a desigualdade social tenha aumentado.
No passado dia 9 de Fevereiro, Sebastián Piñera anunciou que constituiria um "Governo de união". Com seis mulheres em 22 membros, dez dos ministros tinham cargos em empresas.
Abrangente, o novo Executivo inclui o ministro da Defesa de Michelle Bachelet mas também um conselheiro económico do ditador Augusto Pinochet, que governou entre 1973 e 1990.
Sebastián Piñera tem tentado distanciar a "sua" direita do regime sanguinário de Pinochet, durante o qual cerca de três mil opositores foram mortos ou desapareceram sem rasto. O irmão do novo Presidente, José Piñera, foi ministro dessa ditadura.