Tudo isto é muito difícil, como costumava dizer a dra. Maria Cavaco Silva no tempo em que era casada com um primeiro-ministro (agora, não sei que dirá), mas a verdade é que as coisas podem ser diferentes. Por mim, tenho tentado aqui apresentar várias soluções simples e baratas, as quais trariam diversas vantagens à vida em comum. Lembro-me, particularmente, da ideia de as ruas serem todas a descer, o que muito compensaria em matéria de poupança de combustível fóssil e de esforço individual. Porém, neste país, as boas ideias não são aplicadas. Disto mesmo se queixam, aliás, BE, PCP, PSD e CDS - e, quanto ao Código Contributivo, PS -, coisa que significa que é verdade, pois é raro (mas não impossível) mentirem todos ao mesmo tempo.
A última ideia simples que me ocorreu diz respeito à sucessão no Banco de Portugal, tendo em conta a subida honra que vai distinguir o actual governador. Como já deveis saber, o dr. Vítor Constâncio é um forte candidato a vice-presidente do Banco Central Europeu. Caso seja eleito para tão elevadas funções pelos chefes de Estado e de Governo dos 27, vê-se obrigado a transitar para Francoforte-sobre-o-Meno (escrevo em português para não irritar os puristas da língua). Estando sobre o Meno, não pode estar sobre o Tejo, pelo que tem de - finalmente!, como diria o dr. Portas - largar o Banco de Portugal.
Quem o deve substituir? Eis o que interessa!
Antes de fazermos propostas, do tipo deve ser Manuela (Ferreira Leite, não Moura Guedes) ou Teixeira dos Santos (que queria, mas não vai), devemos retirar lições do passado. E o que se passou? Todos o sabemos: houve sérias dúvidas se o dr. Constâncio podia ou não ter visto o que se estava a passar no BCP, no BPN, no BPP e - quem sabe? - noutros bancos... Essas dúvidas corroeram o lugar do dr. Constâncio, cuja seriedade não deixa dúvidas, mas cujo alcance visual é discutível. E o lugar de governador do BdP não pode ficar à mercê de dúvidas!
Ora, tendo em conta que na banca continuam a passar-se coisas estranhas (das quais não falo aqui e agora para não vos distrair do essencial, que é arranjar sucessor para o dr. Constâncio), como poderemos dissipar dúvidas sobre a possibilidade de o novo governador (m/f) ver (ou não) o que está a passar-se?
Para ser sincero, tenho uma solução simples e eficaz. Uma solução que é digna, popular e não piora o sistema; pelo contrário, melhora a confiança dos portugueses naquele que vai regular a banca.
Essa solução é nomear um ceguinho ou, vá lá, um muito míope, tipo Mr. Magoo. Desta forma, à pergunta - hoje tão comum - pode o governador ver o que se passa no BCP com Berardo? (por exemplo), a resposta seria, claramente, não!, não pode! Tudo o que o novo governador fizer na moralização do sistema ficará a crédito do próprio e de quem o nomeou; o que não descortinar não será resultado de desinteresse ou cumplicidade. Na verdade, ele há muitas coisas que não se vêem, e, como diz o povo, o pior cego é o que não quer ver.
Algo me diz que esta posição, apesar de inteligente e oportuna, pode passar por menos politicamente correcta. Não o é! Pelo contrário, leva em conta a necessidade de integração dos deficientes nos altos cargos do país. Essa integração, que no Governo, presidência e Parlamento vai já adiantada, ainda não chegou a departamentos da Administração como o nosso Banco de Portugal.
Faça-se a minha vontade e verão!
Bom Ano deste que se assina,
Comendador Marques de Correia
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010