Ter mundo
Santana é o tipo de personagem que um escritor - seja que escritor for - desejaria ter planeado, descrito e inventado. A energia do personagem parece sempre exceder a oficina de quem o narra e esse facto, só por si, torna-o deslumbrante. Se há personagens que não necessitam de apresentação prévia é Santana Lopes, porque tudo o que faz e tudo o que não faz estão ininterruptamente a descrevê-lo da primeira à - sempre adiada - última linha do relato. Santana tem a garra dos jogadores, o mimo dos bem amados, a ira dos solitários e a frivolidade dos sedutores de palavra fácil. O seu mundo é feito de magma imponderável - por vezes lava - e, apesar dos despojos e paixões que já acumulou, é único a poder pronunciar, como num ritual, a expressão "PPD/PSD". É verdade que Santana semeia ventos e tempestades, mas acaba sempre por ressurgir como se nada fosse. Neste particular, sabe dar a outra face e não receia o ruído - ou o furacão - que o possa cercar. Foi por isso que, em 2003, na inauguração do novo Estádio da Luz, após vaia a Durão Barroso, então PM, Santana fez um discurso tão empolgante quanto benfiquista, recebendo a maior ovação da noite. Antes da política, já Santana cultivava todos os dons que trouxe para a política, não tendo criado para tal um autómato programado. Entre a casa da política e as outras - muitas - casas da agitada vida de Santana, a mesma corrente de ar carregada de pulsões domina a atmosfera. O que talvez seja único em Santana é que o personagem tende sempre a ser ele mesmo. Daí o fascínio e o cansaço - os extremos pactuam de forma singular - que Santana concede a quem o acompanha e a quem o segue nos media.
Ter futuro
Tal como More descreveu o 'melhor dos mundos' numa ilha que apenas existia na sua imaginação, também Santana é capaz de tentar expressar um futuro quase luminoso (baseado na tal radical mudança de "sistema político") que teria lugar, um dia, numa ilha que só ele conhecerá e de que tão bem metaforizou o território: "Vou andar por aí". Um território vago, sem ruas, sem corredores e sem nome. Mas com um território mais ou menos fixo para poder ser pisado: "andar por aí". Apesar de ter protagonizado um dos governos mais hilariantes de que há memória, Santana nunca baixou os braços e, a par de algum lamento à James Dean, a verdade é que uma grande fatia da população sempre nele confiou como milagre da política. As presidências da Figueira da Foz e de Lisboa (após derrota de João Soares) deram-lhe essa aura, aliás repartida noutras áreas como no futebol. Ou nas franjas do jet set. Santana não inspirará nunca um futuro sólido e bem definido no horizonte, mas saberá sempre criar um suspense e um certo tipo de fé ficcional à Sousa Martins que não tem par em Portugal. O futuro pertence quer à frieza dos calculistas, quer ao súbito encanto da prestidigitação.
Ter estrela
Santana brilha com naturalidade numa mesa de café ou nos estúdios de televisão. Mas o brilho de Santana não é nunca o brilho de um herói. Bem antes pelo contrário, o arrebatamento de Santana advém sobretudo da capacidade de se apresentar como um homem comum que podia ter sido esquematizado por P. Roth ou por D. Lodge. Não é verdade que Santana seja o apanágio da simplicidade ou da ausência de afectação, pois o que nele realmente sobressai é uma quase instintiva recusa em encenar, em ludibriar ou até em fingir. Para o bem ou para o mal, disso não é capaz. Quando Santana é porta-voz de uma posição política, fá-lo dando a ver o que diz e o seu contrário. A pulsão sobrepõe-se quase sempre à posição e é isso que encoleriza os calculistas e, ao mesmo tempo, apaixona meio mundo que aprendeu a viver em democracia no meio da emoção mediática. A estrelinha de Santana vive desta magnetismo: um palco que fica à mostra, mesmo quando a sombra o desejou encobrir. É evidente - sublinhemos bem o facto - que a ingenuidade não cabe nesta atmosfera. Santana sabe muito bem clicar com os dedos, quando pressente que o deve fazer. Pode então - umas vezes mais do que outras - ser o ouro sobre azul. É por isso que criou tanta predilecção numa certa fauna do mundo do teatro.
Ter um desejo mobilizador
Santana é um político movido essencialmente pelo desejo. Desejo puro. Desejo sem objecto. Freud gostaria de ter conhecido o escritor que o tivesse criado. Mas o desejo de Santana não é um desejo que mobilize, com carne e osso, com consistência ou com argumentos. Não, o desejo veiculado por Santana vive de um complemento quase perfeito entre a compaixão e o vigor. Ou seja: saber inspirar - ainda que involuntariamente - piedade e, ao mesmo tempo, afirmar-se como o arquitecto mais desafiante do universo. Por outras palavras ainda: Santana sabe lamentar o que lhe fizeram (ou terão feito) como se cantasse com a voz de Amália, mas é, também, capaz de falar do Túnel do Marquês como quem fala de um Titanic que podia ter sobrevivido aos glaciares. E fá-lo com glamour. Com garra. Como se fosse o treinador de uma equipa de futebol (lembro-me do famoso Meirim) que conseguisse dominar o balneário, não com desenfreada brutalidade, mas com o discreto poder da intuição. Para o melhor ou para o pior, a mobilização de Santana é especialmente instintiva.
Ter retaguarda
Santana é o tipo de personagem que vive com a corrente de ar à mostra. Os filhos, os amores, as casas, as glórias e as infelicidades. Os passeios no mar, os jantares, as recepções, as separações, as confissões e as capas de revistas. Mas se se cruzar tudo isso - sem grandes intermitências - com os cargos que já desempenhou (PM, presidente de duas câmaras municipais e de um clube, para além de ter dirigido a cultura durante anos), entende-se que não há propriamente, em Santana, uma diferença entre produção e realização. Ele habita em todo o lado, anda de facto e com naturalidade "por aí", e dá a cara pelos mais distintos ofícios que vivem diante da objectiva dos media. Sem medo e sem compulsão. Mesmo quando se sente ferido, expressa-o com a (aparente) espontaneidade dos equilibristas que trabalham sem rede.
Estar aberto à contingência
Santana trata por tu a imprevisibilidade. E não responde ao imprevisto através de cenários prefixados. Nada disso. Santana é um nadador do destino: atira-se para a curva da onda, como se a inspiração fosse a chave da política. Sob este aspecto, Santana é um romântico sincero: um apaixonado que tanto pode naufragar, como pode vestir a pele de Lord Byron por uns tempos. O eclectismo de Santana não está tanto neste seu pendor romântico, mas sobretudo no modo como sabe invariavelmente renascer das cinzas que ele próprio cria. Cria e recria. Uma maleabilidade difícil de adjectivar. Mas que lhe dá uma singularidade que, essa sim, é indiscutível no panorama político português.
Luís Carmelo
Professor universitário e autor