Pedro Santana Lopes acusou duramente alguns dos membros da direcção política de Manuela Ferreira Leite de serem responsáveis pelo clima que levou à queda da anterior liderança do partido e questionou se são essas as regras que a nova líder defende em nome da ética na política.
"A drª Manuela Ferreira Leite sabe como estão entre os membros da sua equipa muitos dos que contestaram Luís Filipe Menezes desde o início da sua liderança", afirmou" Santana, questionando logo de seguida: "Será que nós, que não concordamos com o rumo que a actual líder escolheu, temos a mesma legitimidade para dar as mesmas entrevistas, para contestar os mesmos regulamentos e para fazer os mesmos ataques? Como é a ética na política? Como é a ética na política?", perguntou, reconhecendo que devia poupar destes ataques a própria Manuela Ferreira Leite "que nunca teve esse tipo de comportamento".
Num discurso muito aplaudido e em que provou que, apesar de muito rouco e visivelmente engripado, continua a conseguir entusiasmar as plateias, Santana Lopes defendeu a necessidade de "se definir regras de comportamento, mais do que regulamentos sobre quotas, para se saber o que é legítimo ou não é legítimo". "Temos que deixar muito claro que não é porque algumas pessoas voltaram ao poder que voltam a existir militantes de 1ª e militantes de 2ª", disse, avisando que "aqui somos todos iguais".
Ironizando que "é muito bom apregoar ética quando se está no poder e não a praticar quando estamos na oposição", Santana garantiu que , pela sua parte, embora não tenha muita esperança de que a nova líder se aproxime das suas posições, saberá "respeitar quem ganhou". "Só me resta pedir à providência que a ajude a aproximar-se das posições que defendo e respeitar quem ganhou, fazendo o que alguns não fizeram", afirmou.
Indisfarçavelmente ressentido com aqueles que, tendo estado consigo nas directas de há três semanas, optaram agora por não alinhar nas listas dos seus homens para o Conselho Nacional do partido, Santana assumiu que nunca lhe tinha "passado pela cabeça que pessoas que apoiaram um programa há três semanas pudessem estar agora a defender o contrário". A Manuela Ferreira Leite deixou um aviso: "não me passa pela cabeça que a actual direcção possa condescender com a pesca à linha" junto de pessoas que antes estiveram com outros candidatos.
Reconhecendo que a tarefa da nova líder "é muito exigente", Pedro Santana Lopes alinhou 100% com o discurso feito por Pedro Passos Coelho que antes exigira a Ferreira Leite que explicasse com clareza que programa político tem para o país. "É útil que a nova líder explicite o seu programa e não podemos cair na necessidade de adivinhar, disse, recusando deixar os portugueses limitados "às entrelinhas e aos silêncios".
Santana Lopes foi o único orador no Congresso que dirigiu algumas palavras ao líder cessante, dizendo ter tido "muita honra" em trabalhar com ele durante seis meses, apesar de não o ter apoiado para a liderança. "Falo de actos e omissões", afirmou, mostrando-se chocado com a forma como alguém que dirigiu o partido até há um mês foi praticamente varrido neste Congresso.
Santana Lopes não integra nenhuma lista ao Conselho nacional do partido mas os santanistas fá-lo-ão por si. Pedro Pinto encabeça uma lista ao Conselho nacional e Arlindo de Carvalho à Mesa do Congresso.
A despedida de Ângelo Correia
Ângelo Correia despediu-se do cargo de presidente do congresso do PSD lamentando ter falhado - ele e o próprio partido - mas garantindo que não vai para casa "lamber feridas".
"Falhei. Falhámos. Sofri com algumas injustiças. Mas não vou passar o futuro a lamber feridas. O partido está cheio de feridas. Precisa de se regenerar não com base na memória das glórias passadas mas criando propostas que mostrem que somos os melhores", disse, no seu último discurso enquanto presidente do congresso pois hoje é eleito o seu sucessor.
Sem se dirigir directamente a ninguém, do passado recente ou do presente do partido, Ângelo Correia manifestou aos delegados "uma esperança".
"Não esperemos ganhar aos outros por demérito deles mas pelo nosso próprio mérito. Não se luta pela mediocridade alheia mas pela competência própria", apelou Ângelo Correia, desabafando sobre os últimos tempos: "não foram brilhantes, não foram eficazes".
"Tratámos mal muita gente do PSD. Expulsámos, marginalizámos, criámos facções em vez de promovermos a união de todos...", referiu. E avisou: "Saio de palco, não da política nem do PSD. Não viro casacas". Apesar do afastamento do partido durante mais de uma década, Ângelo Correia recordou ter-se filiado no PSD em 27 de Abril de 1974 e garantiu ter regressado à política activa há um ano "não para exercício do poder mas para ajudar".
Neste seu regresso, o ainda presidente do congresso do PSD diz ter-se apercebido de que ao PSD "falta articulação com o país"
"Tínhamos ligações à Universidade e aos grupos mais dinâmicos da sociedade. Foi-nos tirado isso em 1994 por Guterres, numa atitude inteligentíssima. Nós fomo-nos fechando", defendeu.
Ângelo Correia recordou que "uma das principais diferenças, desde a fundação, entre PSD e PS é a base sociológica de apoio". "Independentemente de ser rico ou pobre, o eleitorado do PSD "tem uma noção de vida baseada numa ética de trabalho e acredita na ascensão pelo mérito. Não são subsidio dependentes, só dependem do seu trabalho", frisou. Citando S. Paulo, terminou apelando: "Combatei sempre, mas pelo bom combate".