Não costumam manifestar-se, a não ser pela oração ou pelos retratos do Dalai Lama, em que este parece estar sempre a sorrir mesmo quando está sério. Como tantos emigrantes e exilados, os tibetanos de Goa, e da Índia, são invisíveis.
Este ano, os Jogos Olímpicos mudaram tudo. E concederam-lhes a oportunidade da atenção distraída do mundo. Em Anjuna, o protesto político é uma novidade. Os únicos jornalistas estão em férias ou a cobrir o assassinato e violação de uma adolescente inglesa num dos caminhos da praia, há umas semanas. Um crime encoberto pela Polícia, receosa do afastamento do turismo e que originou um escândalo nacional e um incidente político entre as autoridades de Goa e a mãe da adolescente, com muita cobertura tablóide na Grã-Bretanha e nas televisões do mundo.
Anjuna, que substituiu a Tânger da Beat Generation como paraíso terrestre de sexo e drogas e de hippies e alternativos nos anos 60 e 70, só deu que falar por causa do crime, associado a consumo de drogas e álcool e logo esquecido pelos turistas. E é famosa pelo mercado e a abundância de artigos ao preço da chuva. Um shopping na areia. Ao longo de praia rochosa, bordada por palmeiras e com um perfume de decadência, Anjuna já não é o que era. Restam ainda uns hippies loiros do novo milénio, e uns vendedores de joalharia feita em casa, mas é para comprar e vender coisas que se vai a Anjuna, e não pelos prazeres da praia e da carne.
Na cacofonia do mercado e do regateio, ouvir de repente um cântico entoado como um fundo suspiro, um "Om" prologando e grave, parece uma alucinação e um excesso de substâncias proibidas ou ressaca. Não é. No recinto, mais de uma centena de tibetanos sentados no chão, orando e meditando em silêncio ou em cântico, com cartazes e bandeiras nas mãos, os rostos pintados com as palavras Free Tibet, estão em greve da fome. E estendem as fotografias da ignomínia, corpos torturados e baleados, decepados e ensanguentados, alguns embrulhados em plástico, vítimas da repressão chinesa em Lhasa e no resto do país.
São fotografias contrabandeadas pelos caminhos da montanha, com risco imenso dos contrabandistas, para que os turistas da Índia, de Goa e de Anjuna possam ver que se repete ali o que vimos na Birmânia e em Rangoon, a morte violenta dos tibetanos que protestam a ocupação. Não é um espectáculo bom para a fotografia de grupo dos Jogos Olímpicos, nem poderia figurar no antiquíssimo estádio grego onde foi acesa a chama olímpica que viajará 137 mil km para chegar a Pequim, passando pelo Tibete. Monges e estudantes, camponeses, homens e mulheres, assassinados.
No meio do mercado faz-se um silêncio, os turistas param, sem saber que fazer. Os tibetanos não falam, não dão entrevistas, protestam pacificamente a sua causa e a sua razão. Uns turistas tiram fotografias, outros recolhem a cabeça enjoados com as fotografias, um silêncio culpado, colectivamente culpado, desce sobre a multidão. Nada mais distante dos corpos suados e perfeitos dos atletas do que aqueles corpos aos quais foi negada uma identidade na morte.
Vítimas sem nome e sem rosto, longe num reino do meio dos Himalaias, expostas assim aos olhares ocidentais como testemunho de violações de direitos humanos que poriam muita gente aos gritos se a China não fosse a grande e poderosa China. Tal como o Presidente Bush, só a presidente da Câmara dos Representantes, a Democrata Nancy Pelosi, em viagem à Índia, condenou abertamente a atitude chinesa. A Europa, como sempre, e como Portugal, preferiu olhar para o lado.
Em Goa, não era possível olhar para o lado. A areia e o pó de Anjuna estavam naquele dia cobertos de sangue. A greve da fome continua. Os tibetanos lá estarão, todas as quartas-feiras, entoando um cântico pacífico que só pede uma coisa: olhem para nós. Olhem para isto.
Veja aqui um vídeo com a manifestação em Anjuna