Em antecipação ao Dia Mundial da Tuberculose, a 24 de Março, especialistas estão hoje reunidos em Lisboa para definir compromissos de combate à doença, que em Portugal fez 2686 novos doentes em 2008.
Na Fundação Calouste Gulbenkian, a jornada científica é da responsabilidade conjunta da Direcção-Geral da Saúde, do grupo privado José de Mello de Saúde e do Enviado Especial das Nações Unidas para a Luta Contra a Tuberculose, Jorge Sampaio.
Os dados já divulgados pelo coordenador do Programa Nacional de Luta Contra a Tuberculose, Fonseca Antunes, revelam que a incidência continua a diminuir, agora com menos 7,2%, mas mantém-se acima da média da União Europeia.
Os valores são ainda menos animadores quando respeitam aos infectados com VIH doentes com tuberculose (14%) ou à ameaça de multirresistência. Este risco fixa-se em 2% dos casos de tuberculose, mas a percentagem aumenta para os piores índices da Europa ocidental na forma mais grave, ou seja, extensivamente resistente (XDR).
Os especialistas não têm dúvidas sobre a necessidade de detectar precocemente os casos de infecção, contudo, a doença ainda é esquecida. "Há cem anos que não sai uma pergunta sobre tuberculose no exame que todos os médicos fazem para ingressar numa especialidade", salienta o director clínico do Hospital Cuf Infante Santo, em Lisboa, João Paço, o único representante privado na organização do evento.
E esse esquecimento também é visível no sector farmacêutico. "Na prevenção e na terapêutica usa-se o que sempre se usou", diz o presidente do Colégio de Pneumologia da Ordem dos Médicos, Carlos Robalo Cordeiro. "É preciso ter novos antibióticos, mais eficazes e com menos tempo de tratamento, e uma vacina moderna", acrescenta o presidente da Associação Nacional da Tuberculose e das Doenças Respiratórias, Artur Teles Araújo.
Ao Expresso, o ex-Presidente da República Jorge Sampaio respondeu a algumas questões sobre o perfil epidemiológico de Portugal, actualizado esta semana, e sobre a sua missão nas Nações Unidas.
Porquê a escolha de um português para o cargo de Enviado Especial das Nações Unidas para a Luta Contra a Tuberculose?
Em bom rigor, essa pergunta devia ser colocada a quem me nomeou... Sinceramente, não creio que o factor determinante tenha sido o da nacionalidade.
Kofi Annan, o então Secretário-Geral das Nações Unidas, procurava alguém para desempenhar este cargo, acabado de criar. Sabia da minha apetência pelas questões de saúde pública por, enquanto Presidente da República, ter participado numa Cimeira sobre a sida em que, por sinal, não havia mais nenhum chefe de Estado europeu presente. Saberia também da minha disponibilidade. E o facto de se tratar de um ex-Presidente era também conveniente para dar visibilidade acrescida e adequado estatuto à advocacia pretendida!
Mas nestas coisas, para além de todas as razões invocáveis, há sempre o factor 'acaso' que tanto joga a favor como contra... Digamos que aqui houve um concurso auspicioso de circunstâncias e o convite aconteceu no momento certo!
Os dados mais recentes sobre o perfil epidemiológico do país, revelam que a incidência continua a diminuir e atingiu o valor mais baixo (25 casos por 100 mil habitantes ao ano) desde que há registo, mas continua acima da média da União Europeia. A estratégia nacional é menos eficaz?
Não penso que a questão se coloque em termos de eficácia da estratégia nacional, cuja qualidade está comprovada pelos bons resultados que vêm sendo obtidos.
A meu ver, há dois factores que pesam no actual quadro nacional: por um lado, nos anos setenta, considerou-se, erroneamente, que a tuberculose era uma doença do passado e descurou-se a sua prevenção e controlo. Por outro lado, a incidência da tuberculose em Portugal espelha claramente os problemas de desenvolvimento com que nos confrontamos.
Portugal também está no topo da lista no que se refere aos portadores de VIH com tuberculose (14%), que é hoje a principal causa de morte dos doentes com sida. Tem defendido a aproximação dos dois planos e os números vêm reforçar essa necessidade. O que falta fazer?
É verdade que tenho procurado chamar a atenção para a co-infecção e para o paradoxo que constitui o facto de os doentes da sida, que é uma doença incurável, acabarem por morrer com tuberculose, que é uma doença curável.
No ano passado, promovi a realização do primeiro Fórum Mundial sobre a co-infecção HIV-tuberculose, de que resultou um Apelo à Acção. Neste são preconizadas medidas destinadas a diminuir drasticamente o número de mortes associados à co-infecção, como por exemplo, velar por que todas as agências e governos empenhados no acesso universal à prevenção e tratamento do HIV-sida incluam, nas suas estratégias e planos, medidas conjuntas e actividades de colaboração HIV-tuberculose.
O desafio que temos pela frente torna-se bem visível quando nos lembramos que, por exemplo, a nível mundial só 7% das pessoas com tuberculose são testadas em relação à sida e só 0,5% das pessoas com sida são testadas em relação à tuberculose. Como não apostar numa abordagem coordenada de ambas as infecções se muitas vezes elas se concentram no mesmo doente?
Em suma, o facto de hoje em dia, de três em três minutos, morrer uma pessoa com VIH devido à tuberculose, é inaceitável por esta ser uma doença evitável e curável. E é por isso que a abordagem integrada de ambas as doenças tem de ser uma prioridade. Por resposta integrada, quero dizer serviços de saúde primários bem integrados, aptos a centrarem-se inteiramente nos doentes e não nas doenças em separado. Mas há que o reconhecer: temos ainda um longo caminho a percorrer para transformar esta abordagem de cuidados primários integrados num traço comum aos sistemas de saúde do mundo inteiro.
A tuberculose multirresistente soma 30 novos casos por ano, 20% dos quais extensivamente resistentes. A percentagem é o maior da União Europeia e respeita à Grande Lisboa, onde há mais acesso aos cuidados de saúde. Isto significa que o sistema está a falhar na resposta?
Sim, significa que algo falhou. Mas significa também que a Grande Lisboa é uma área crítica que concentra todos os factores de risco. É, de resto, sabido que a tuberculose é um bom barómetro dos índices de pobreza e de precariedade. Por isso, se impõe uma vigilância redobrada.
Aliás, foi por isso que se criou um sistema de referência nacional e que está para breve a criação de um centro de referência regional para as multirresistências, precisamente na área da Grande Lisboa.
Portugal está acima da média nas taxas de detecção e de cura. Como se explicam, então, valores tão preocupantes em áreas como a sida e as multirresistências?
É verdade que Portugal está acima da média nas taxas de detecção e de cura da tuberculose, o que resulta de um conjunto de medidas tomadas nos anos noventa. Mas é sabido que a sida constitui um factor de grande vulnerabilidade e que por causa do seu impacto na tuberculose é bem possível que aquelas taxas possam vir a sofrer alterações no futuro.
Que objectivo gostaria de deixar cumprido quando terminar o cargo nas Nações Unidas?
Ter contribuído para que a tuberculose faça parte da agenda mundial, para que seja vista como uma questão de saúde pública, em que estão em causa, não só direitos humanos elementares, mas também as condições de desenvolvimento económico e social das sociedades. Ter contribuído para sensibilizar a opinião pública, especialmente os jovens, nos quatro cantos do mundo para a tuberculose, através da figura universal de Luís Figo, Embaixador de Boa Vontade para a tuberculose. Ter contribuído, por fim, para dar motivos de alguma renovada esperança aos doentes da tuberculose e às suas comunidades.
(Ver mais na edição impressa do Expresso de 21 de Março)