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Sacrifício, coragem e liderança

Miguel Monjardino (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 22 de janeiro de 2010

Os Comandos estão de partida para mais uma missão no Afeganistão. Acompanhados por um destacamento de controlo aerotáctico da Força Aérea, os Comandos farão parte da Força de Reacção Rápida da NATO em Cabul. A partida dos Comandos para um teatro de operações onde está em curso uma guerra é uma boa oportunidade para olharmos para as missões dos nossos militares no estrangeiro. Duas razões explicam porquê.

A primeira é claramente política. As Forças Armadas são um instrumento estratégico para o país. Os militares existem para ser usados. O seu empenhamento visa garantir a credibilidade e o acesso ao processo de decisão nas alianças que são essenciais para a nossa política externa.

Se olharmos para a geografia das actuais missões da Marinha, Exército e Força Aérea no estrangeiro, vemos que a missão dos nossos militares é estabilizar, manter a paz e, em alguns casos, fazer a guerra em zonas de fronteira entre o mundo mais globalizado e territórios fragmentados. O Líbano (Exército), o Afeganistão (Exército e Força Aérea) e a costa da Somália (Marinha) são os melhores exemplos desta acção na zona da fronteira da segurança europeia. O alargamento, patrulhamento e acção nesta nova fronteira de segurança tem importantes implicações para a estrutura de forças e missões de um país com a nossa geografia e recursos.

Se tivermos em conta os interesses nacionais, a situação orçamental do país e o elevado custo destas missões, concluímos que vêm aí muitas dores de cabeça. E, como estamos a falar de uma dor de cabeça que vai afligir todos os governos europeus, o ideal é começar a pensar a sério sobre o assunto.

A segunda razão para prestar atenção aos nossos militares tem que ver com aquilo que rodeia as suas missões. Estou a pensar em coisas que são sempre importantes para qualquer sociedade que queira ter um presente e um futuro vibrante. No estado em que estamos, estas coisas parecem-me ainda mais importantes. De que é que estou a falar?

Estou a falar de sacrifício. Esta palavra deixou de figurar nas nossas conversas. Sacrifício é algo que hoje em dia só é pedido e só se espera de um pequeno grupo de pessoas. Os militares são o exemplo mais visível. Esperamos que os militares se sacrifiquem em nosso nome e corram riscos em crises e guerras. Esta expectativa deveria ser acompanhada de um sentimento colectivo do tipo "estamos nisto todos juntos". Infelizmente acho que não é isto que acontece.

Lembra-se da última vez que se interessou pelas missões ou pela família de um militar numa missão no estrangeiro? Que se preocupou em compreender o que rodeia a rápida transição de um soldado de um teatro de guerra para a sua unidade em Portugal? Os militares não são vítimas. São soldados. Alguns, como os Comandos que agora estão a caminho do Afeganistão, são guerreiros. Soldados e guerreiros merecem muito mais do que a nossa actual indiferença.

Também falo de coragem e de liderança. Os militares são treinados para a guerra, uma actividade brutal e extremamente exigente do ponto de vista físico e psicológico. O caos que rodeia a guerra e as situações de crise exigem uma cultura que premeie a coragem, o espírito de grupo, a capacidade de aceitar e correr riscos e a decisão debaixo de enorme pressão. Muito naturalmente o treino militar dedica imensa atenção ao desenvolvimento da coragem e da liderança. O resto do país precisa desesperadamente destas duas coisas.

Portugal está mais uma vez numa encruzilhada. Passamos a vida a falar de mudança, de confiança no futuro mas o que é que vemos? Vemos um país povoado de instituições públicas e privadas com horror ao sacrifício, à coragem e à liderança. O problema é que sem isso não há mudança. Perguntem aos militares.


Número
162 militares lusos a caminho do Afeganistão. O mundo castrense gira à volta de temas como sacrifício, coragem e liderança. O resto do país ignora os militares e tem horror a estas palavras. Mas, sem elas, não há mudança.

Soluções
+ Negociações de livre comércio entre China e Taiwan. As relações económicas e políticas entre Pequim e Taipé estão a mudar rapidamente.

- Gordon Brown e o grupo parlamentar trabalhista começaram mal a campanha eleitoral.

Miguel Monjardino

Texto publicado na edição do Expresso de 16 de Janeiro de 2010

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