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Então... adeus!

Ruben de Carvalho (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 25 de fevereiro de 2011

É uma verdade da vida que nunca é fácil fazer despedidas. O tempo vai-nos habituando a elas, às mais diversas, ora simples ora complicadas, nelas se tropeça com maior ou menor frequência.

Este texto é uma despedida, decidido que foi encerrar a minha colaboração nesta secção mensal.

E se a sabedoria popular aconselha a que das despedidas se retirem lições, é verdade que das duas últimas que nas andanças da escrita tive - a do "Diário de Notícias" há uns anos e a que ora toma forma - resultaram algumas conclusões, a demonstrar que não bastam quase cinquenta anos de profissão para presumir que já se viu tudo... Ou, pelo menos, quase tudo...

Aí há uma década, o meu saudoso amigo Mário Bettencourt Resendes convidou-me para publicar primeiro uma e depois duas pequenas crónicas semanais (demos-lhe o irónico título de "Mil Caracteres"...), ideia de todo afinada com a tendência crescente para textos curtos, incisivos, de leitura fácil e competitiva face ao audiovisual. O projeto entusiasmou-me, mas, meses decorridos, verificava defrontar uma inesperada dificuldade: do ponto de vista ideológico, político, mesmo mais amplamente cultural, a reduzida dimensão do texto não é neutra. Muito pelo contrário.

O problema reside em que, ao pretender aguda e concisamente situar, criticar, saudar ou de qualquer forma comentar um facto, a escassez das palavras acaba a corresponder a um afunilamento dos conceitos e das ideias que as suportam. A tendência vem assim a ser que é fácil escrever pouco na linha da ideologia, dos conceitos dominantes, mas já é bem complicado ter espaço para explicar ponto de vista que se situe no campo oposto. No primeiro caso, as ideias estão subjacentes na maioria dos leitores; no segundo, não há espaço para as desenvolver e - como hoje se escreveria, "contextualizar"...

Um elegantíssimo mail do atual diretor do "DN" pôs sumário fim ao problema: acabaram-se os "Mil Caracteres"... Três semanas antes tinha recusado o convite de José Manuel Fernandes para me 'transferir' para o "Público" - e com mais carateres... Eticamente, não me pareceu bem, tendo o compromisso com o "DN", tal mudança. Acontece.

Meses depois, outro amigo e companheiro, o João Garcia, propunha-me, para minha alegria, carregar com os meus carateres para o Expresso, triplicando a sua contagem, mas arrumando-os a ritmo mensal.

Tempos decorridos, verifiquei que o modelo igualmente apresentava os seus espinhos! O problema, como se sabe, nunca é escrever sobre o que é importante: é descobrir sobre o que é que é importante escrever! Ora, uma vez por mês, num jornal interventor e atual, qual é o tema, esse único, incontornável, indispensável tema que transporta a sua importância lá de trás, dos já passados trinta dias, e prolongará por outros tantos a relevância do que sobre ele se escreveu?!

Bom, o problema também está resolvido. Hoje ia discretear sobre uma espantosa entrevista ao "New York Times" de Bernard Madoff, mas fica para depois. Por agora, queridos leitores, o grande abraço de despedida. Até sempre.

Ruben de Carvalho

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de fevereiro de 2011

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Útil e seguro

Ruben de Carvalho (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 28 de janeiro de 2011

A questão é domingo - mas também há futuro. E aí o voto verdadeiramente útil e seguro, esse é em Francisco Lopes.

Por duas vezes a realização de segunda volta nas eleições presidenciais foi particularmente importante: as derrotas de Freitas do Amaral e Soares Carneiro traduziram-se em consolidações institucionais do regime democrático e na frontal recusa de retrocessos.

Evidentemente que o barrar do caminho para Belém de personalidades que faziam correr o risco de transformar a presidência num relevante instrumento da direita foi determinante, mas as implicações da derrota não se esgotaram aí. A feliz imagem do caricaturista que num desses momentos apontou como o tripé 'uma maioria, um governo, um presidente' ficara reduzido a um 'bipé' inevitavelmente prostrado e sem hipótese de se manter erguido constituiu um retrato feliz da extensão política do revés sofrido.

Sucede que as eleições do próximo domingo apresentam, em diversos aspetos, elementos novos.

Sem excessivos otimismos, parece possível afirmar que um combate de esclarecimento com décadas ganhou finalmente uma compreensão mais alargada: na primeira volta é inteiramente irrelevante o número de candidatos. Sem lhe negar relevância política, a realidade é que pode haver só um candidato à direita e dez à esquerda (ou vice-versa!) mas o determinante é que, numa primeira volta, nenhum obtenha 50% mais um voto, não tendo qualquer importância como se dividem os outros 50 que impõem tal derrota.

Mas a realidade desta campanha e seus candidatos impõe que se dedique especial atenção ao desenvolvimento político do resultado para lá da própria escolha por ele imposta, ou, mais concretamente, em que é que o resultado condicionará a política nacional além do evidentemente importante elemento de quem se instalará em Belém. E a verdade é que, por diferenças que naturalmente existem, as candidaturas de Cavaco Silva e Manuel Alegre se expressam bastante mais nas figuras dos candidatos do que propriamente nas políticas. Antes e depois. É impossível ignorar que, lado a lado com José Sócrates, muito pouco pode separar estas três figuras no caminho que nos conduziu a onde estamos e obviamente, arrumando-se as mesmas de uma forma ou doutra, não se vislumbra como o futuro pode ser frontalmente diverso.

À candidatura de Fernando Nobre, independentemente do percurso pessoal do candidato, falta evidentemente a espessura, a densidade e consistência de uma intervenção passada e eficaz e de um programa futuro consistente e sustentável.

Chegamos assim à candidatura de Francisco Lopes. O que se aplica à importância da segunda volta é tão válido para ela como para qualquer outra (até mais) - mas com uma diferença de tomo: é que uma forte votação terá sempre, seja qual for o desenlace eleitoral, um peso político no futuro, sustentado na consistência, persistência e coerência da força política que constitui o seu principal apoio e por uma excelente e dinâmica campanha.

A questão é domingo - mas também há futuro. E aí o voto verdadeiramente útil e seguro, esse é em Francisco Lopes.

Ruben de Carvalho

Texto publicado na edição do Expresso de 21 de janeiro de 2011

 

Sempre se aprende...

Ruben de Carvalho (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 24 de dezembro de 2010

Há diplomacia e a sua ténue distância da espionagem desde que há mundo - mas estamos hoje perante outra coisa.

Parece já uma evidência que, nomeadamente no campo das relações internacionais, haverá um mundo antes do WikiLeaks e outro depois.

Mas, curiosamente, o debate sobre o assunto tem assumido uma característica insólita: debate-se o facto em si, a divulgação, os contornos éticos e profissionais de ter sido feita, mas o que se divulgou acaba pura e simplesmente por - tão só ser divulgado! Ou seja: comenta-se a divulgação, mas não o seu conteúdo.

Esta peculiar situação parece revelar em primeiro lugar um significativo aspeto: é que, no fundo, se a divulgação em si é invulgar, os factos divulgados não constituem propriamente surpresas! Ninguém fica boquiaberto perante o facto de os americanos meterem o nariz na vida de toda a gente, de a Shell corromper meio mundo político na Nigéria, de que Washington sabia perfeitamente não haver as alegadas armas no Iraque ou de o eng. Sócrates ter descaradamente mentido sobre os voos da CIA (entre outras coisas, já se vê...). No fundo, já toda a gente tinha a ideia de que as coisas eram mesmo assim. A novidade é ter chegado a prova estampada nos jornais e nos computadores. O que dá uma ideia da hipocrisia generalizada do universo da política e da informação hoje em dia e não lhes compõe um retrato particularmente favorável.

Mas, além desta questão, existem dois pormenores que merecem alguma reflexão. Uma primeira é sem dúvida o puro aspeto quantitativo. Aquilo que, no fundo, talvez desencadeie mais a reação dos críticos da iniciativa de Assange é a constatação de como, por um lado, a instância política se generalizou a todos os aspetos da vida pessoal de qualquer cidadão; esbateu-se o espaço, diáfano que fosse, que separava o público e o privado, o político e o pessoal, o coletivo e o individual. Via burocratas da diplomacia, é a vida do mundo e de toda a gente que é observada, vigiada, comunicada, comentada.

Em segundo lugar, a tecnologia tornou esta situação possível. Poderá mesmo dizer-se talvez que a grande diferença hoje é sobretudo quantitativa - mas sabemos que uma tal mutação exponencial da quantidade tem implicações no fundo do problema, na qualidade do assunto. Há diplomacia e a sua ténue distância da espionagem desde que há mundo - mas estamos hoje face a uma outra coisa.

E talvez valha a pena refletir sobre o facto de esta situação não ser politicamente neutra. A verdade é que estas revelações que, afinal, parecem não espantar particularmente ninguém são substantivamente factos e realidades que, linhas gerais, à esquerda sucessivamente se têm apontado e denunciado e à direita se têm sistematicamente negado e ocultado.

Além de ser reveladora a escrita, o comentário, a avaliação. Pode não haver grandes novidades, mas aprende-se bastante sobre a arrogância, o despudor, o nível cultural e humano desta, digamos, diplomacia.

rubencarvalho@mail.telepac.pt

Texto publicado na edição do Expresso de 18 de dezembro de 2010

E a Irlanda tão perto...

Ruben de Carvalho (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 26 de novembro de 2010

Muito se tem escrito em Portugal sobre a Irlanda, a iminência do recurso aos apoios do FMI, os reflexos quanto ao nosso país - mas bem pouco sobre como chegou a Irlanda de "tigre celta" a tão combalido felino. E se alguma conclusão há a tirar de similitudes ou diferenças entre os dois países.

Diga-se que a reflexão sobre a crise de há já uma década está longe de merecer entre nós a atenção que seria de esperar - e desejar - nomeadamente no campo editorial. O que contrasta desagradavelmente com o que se vai passando por esse mundo fora. E assim se explica que os portugueses em geral tenham uma ideia razoavelmente vaga do que aconteceu e do que está para acontecer. Os comentadores da especialidade têm mesmo revelado uma circunspecta complacência com uma alegada inevitabilidade, ao invés de tornarem claro muito do que, entretanto, começam a ser dados adquiridos sobre o colapso capitalista e as suas razões.

O jornalista do "Irish Times" Fintan O'Toole é autor de um tão esclarecedor quanto contundente livro sobre o seu país com o esclarecedor título "Ship of Fools: How Stupidity and Corruption Sank the Celtic Tiger", isto é, "Nave de Loucos: Como a Estupidez e a Corrupção Afundaram o Tigre Celta".

O livro deu origem a numerosos comentários, sendo que a meia dúzia mais rapidamente acessível na Net o transforma num comedido repositório das responsabilidades dos governantes irlandeses nas aflições por que passa a Irlanda.

Dois aspetos interessa sublinhar nas linhas mestras de O'Toole: o papel desempenhado pela especulação imobiliária de braço dado com a irresponsável ganância dos bancos e a crescente corrupção oficial.

O panorama dos campos irlandeses surge hoje destruído por espetros de paredes e "projetos imobiliários" inacabados cujo absurdo é revelado por números como os do Antrim County: entre 2006 e 2009 construíram-se 2945 casas para uma população que, no mais favorável dos ratios, necessitaria de 588!

A "bolha imobiliária" não foi um percalço, mas o resultado direto de uma política: construir e especular com o solo foi a forma mais imediata do capital financeiro, artificial e brutalmente acrescido em escassos anos pelo afluxo dos fundos estruturais e pela transformação do país num sombrio offshore de fuga a impostos e branqueamentos (vejam-se as atuais piruetas para salvar a escandalosa taxa de IRC praticada), procurar lucros rápidos que a débil estrutura produtiva do país não garantia.

Parafraseando O'Toole, claro que esta estupidez não poderia passar sem a corrupção oficial: o primeiro-ministro que mais responsabilidades tem no que sucedeu (um patético Bernie Ahern, que ainda há escassos meses se fazia pagar principescamente para pronunciar, mundo fora, conferências sobre o "tigre celta"...), propôs-se em 2007 ver o seu ordenado subir para 310 mil euros anuais, o que faria dele o mais bem pago dos dirigentes ocidentais!O magno problema continua a ser a que não há riqueza sem produção, não há produção sem trabalho, não há trabalho sem trabalhadores. E a magna diferença é que enquanto o capital despede, os trabalhadores querem trabalho. Vão dizê-lo com toda a clareza na próxima quarta-feira.

Ruben de Carvalho

Texto publicado na edição do Expresso de 20 de novembro de 2010

 

O depois e o antes

Ruben de Carvalho (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 22 de outubro de 2010

Sobre o salvamento esta semana de 33 mineiros no Chile, importa perguntar: porque não se conseguiu prevenir o desastre antes da tragédia?

Foi em 1998 que a editora Dinossauro publicou em Portugal um livro, hoje seguramente esgotado, que contava então já quase duas décadas e se transformara num clássico da literatura latino-americana: As veias abertas da América Latina, escrito em 1971 pelo uruguaio Eduardo Galeano. A obra voltou aos escaparates do mundo quando recentemente Hugo Chávez a ofereceu a Barack Obama, tendo a Casa Branca informado, com duvidosa elegância, que seria pouco natural que o presidente a lesse: tinha outras preocupações de momento - e não sabe castelhano... É pena.

Nos últimos dois meses, a blogosfera lembrou amplamente as duzentas e tal páginas de Galeano por via do desastre que, no Chile, soterrou 33 mineiros a 600 metros de profundidade. Tendo como tema principal a exploração ao longo de séculos da América Latina pelas potências coloniais e em particular pelos Estados Unidos, o título, tal como o subtítulo (A pobreza do homem como resultado da riqueza da terra) indiciam desde logo que uma natural importância é dada a essas veias no corpo da terra que são as jazidas mineiras.

A blogosfera foi, aliás, face a um inquestionavelmente único momento da vida do homem, uma presença bastante mais plural e informativa que a maioria da comunicação social.

Não seria justo criticar importância dada à tragédia, ao seu feliz desfecho e ao a vários títulos notável esforço que a ele conduziu, mas admitamos, em bom rigor, que faltou frequentemente uma daquelas perguntas fundamentais na boa cobertura jornalística, o anglo-saxónico why ou, mais portuguesmente - porquê. Porque é que aconteceu?

Ficámos a saber, pelas referências de familiares às preocupações dos trabalhadores soterrados, que a mina estava em mau estado, mas não tenho ideia de ter lido que as galerias de Capiapó foram encerradas exatamente por esse motivo em 2007, entrando surpreendentemente de novo em laboração escassos meses decorridos. Fomos informados que o governo chileno tenciona responsabilizar os proprietários pelo facto de apenas um esforço histórico, mobilizador de meios tecnológicos e recursos financeiros invulgares ter evitado mais uma tragédia, mas menos que ela resultaria de incúrias como a ausência de saídas de socorro ou, noutro nível, a total ausência de seguros de trabalho.

Não mereceu igualmente qualquer destaque que este ano no Chile já ocorreram 28 acidentes que vitimaram 31 mineiros, o que nem sequer foge a uma sombria média, pois nos últimos dez anos foram 373 os que perderam a vida.

Dir-se-á que tais números não são únicos, que da China aos Estados Unidos, da África do Sul ao País de Gales se comprova que o trabalho das minas continua a ser devastadoramente perigoso, quase sempre pelas deficientes condições em que se realiza. A exaltante operação de salvamento a que o mundo assistiu autoriza então uma pergunta: se a ciência, a cooperação, a solidariedade foram capazes de evitar a tragédia depois do desastre, qual a razão por que não conseguem evitar o desastre antes da tragédia?

Ruben de Carvalho

Texto publicado na edição do Expresso de 16 de outubro de 2010

A óbvia diferença

Ruben de Carvalho (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 24 de setembro de 2010

O afunilamento da comunicação social sobre a Festa do "Avante!" resulta de um trivial anticomunismo, mas é possível vislumbrar algo mais.

Em raras vezes (bem raras, é verdade...) alguns comentadores politicamente à direita pronunciam-se e comentam a vertente cultural da Festa do "Avante!". Vasco Graça Moura fê-lo há uns anos em crónica no "DN", Miguel Esteves Cardoso igualmente, salvo erro, no "Independente", Marcelo Rebelo de Sousa referiu na TV, José Pacheco Pereira escreveu o ano passado.

É curioso verificar que estas intervenções apresentam, nos seus diferentes estilos, o comum reconhecimento de três traços da Festa: a dimensão e o carácter autenticamente popular, o ambiente simultaneamente alegre e tranquilo de uma assistência completamente transversal (todas as idades, todas as origens sociais, todos os interesses culturais) e a qualidade e diversidade da programação cultural. E, nessa diversidade, também a multiplicidade da oferta, do desporto às artes plásticas, da música à promoção livreira, do teatro à culinária regional e, nelas próprias, igual multiplicidade de estilos, tendências, sonoridades.

Nada disto é novidade para os frequentadores da Festa. Mas merece reflexão o contraste com o tratamento habitual da comunicação social, em particular a imprensa.

É claro que nenhuma daquelas quatro personalidades ignora o óbvio: a componente política da Festa, de resto frontal e orgulhosamente assumida pelo PCP e pelos seus militantes. Mas, exatamente porque isso é o óbvio, sentem a singela imposição da evidência e sublinham o que é silenciado.

As intervenções do secretário-geral do PCP, em particular o discurso de domingo (era o que faltava!), e muito de vez em quando um fait divers banal constituem o redutor retrato que de um evento sem paralelo no país fornece a comunicação social.

Este afunilamento resulta evidentemente de trivial anticomunismo, mas é possível vislumbrar algo mais.

Trata-se de tentar silenciar, e assim menorizar, o PCP, as suas propostas e intervenções, a implantação nos trabalhadores, a determinação realizadora, a capacidade de mobilização e diálogo com a sociedade: mas, ao confinar ao discurso político a imagem da Festa tenta-se a sua absurda identificação com quaisquer outras iniciativas de quaisquer outros partidos!

Colocar no mesmo patamar a exaltante realização, política e partidária sem dúvida, mas de uma imensa dimensão cultural e humana, com os escusos favores políticos dos sacos azuis empresariais ou o tráfico de influências partidariamente rentável não é operação inocente quando tanto se discute o financiamento partidário.

A questão é que realizar uma exposição de elevado nível científico sobre biodiversidade, expor dezenas de obras de arte, representar Brecht ou colocar uma orquestra de oito dezenas de músicos sobre um palco e tocar Lopes-Graça ou Rachmaninov para dezenas de milhar de pessoas (que compraram a sua EP!) não é exatamente o mesmo que almoçar com um empreiteiro porque... "precisava de ver umas coisinhas consigo. Está a ver?"

Estamos.

rubencarvalho

Texto publicado na edição do Expresso de 18 de setembro de 2010

Das décimas e dos milhares

Ruben Carvalho (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 27 de agosto de 2010

Em dois anos, do segundo trimestre de 2008 ao segundo de 2010, foram destruídos no nosso país quase um quarto de milhão de postos de trabalho

Um dos casos mais espantosos do problema do desemprego em Portugal é a forma como, perante o granítico silêncio do IEFP e respetivos responsáveis, se verifica essa espantosa dualidade de, simultaneamente, o desemprego aumentar e diminuir... Durante o 1º semestre deste ano foram eliminados mensalmente dos ficheiros do Instituto uma média de cerca de 47.5000 desempregados; entretanto, segundo o Instituto Nacional de Estatística, no 2º trimestre deste ano foram destruídos cerca de 17.000 empregos! Mas o facto é que em dois anos, do 2º trimestre de 2008 ao 2º de 2010 foram destruídos no nosso país quase um quarto de milhão de postos de trabalho, em rigor, 236.500.

Falar só com números tem a grande facilidade de citar uns e esquecer outros ou mesmo de efetuar ajustes da maior conveniência política, de que constitui seguramente o mais brilhante exemplo a constante mistura entre a décima de um qualquer valor (o "índice de confiança dos empresários", por exemplo, um dado altamente rigoroso e mensurável...) e o acumular de centenas com as quais se medem os que viram a sua empresa fechar as portas.

Entretanto, bastantes outros aspetos requereriam ser devidamente sublinhados.

Tomemos por exemplo o problema do desemprego de longa duração. O caráter dramático desta situação é desde logo sublinhado pelo facto de o subsídio de desemprego ter um limite de concessão, o que significa que esta "longa duração" acaba pura e simplesmente a ser sinónima de se ter perdido o único e diminuto apoio.

Mas o prolongamento de uma situação de desemprego está ligado não apenas à óbvia escassez de trabalho, mas a um outro aspeto de índole profissional: se uma empresa exigindo mão de obra especializada encerra, é evidente que o desemprego gerado é de trabalhadores qualificados. A sucessão de políticas de desmantelamento de indústria nacional, que é uma constante das últimas décadas, gera porém o problema que se se encerra uma unidade produtiva tecnologicamente exigente é especialmente difícil que outra exista ao lado e menos ainda que outra surja. Significa isto que exatamente o trabalhador mais qualificado e preparado acaba a ser vítima da própria qualificação, que o mercado não solicita.

Pior ainda, a evolução tecnológica (muitas vezes invocada para o encerramento das unidades produtivas) tenderá a transformar no tempo o perfil profissional exigido, no mesmo ou semelhantes ramos de atividade, e portanto a restringir a possibilidade de reaparecimento de procura desses trabalhadores.

Esta realidade transporta-nos em linha reta ao dado divulgado pelo Eurostat segundo o qual Portugal ultrapassa vergonhosamente a já de si nada edificante média europeia de trabalhadores precários, que é na União de 13,5% e no nosso país de 22%, o que significa mais de um milhão de trabalhadores. E cujo estatuto precário fragiliza na obtenção de qualificações profissionais, num círculo vicioso humano e económico que muito diz sobre as políticas do Governo de José Sócrates.

rubencarvalho@mail.telepac.pt

Texto publicado na edição do Expresso de 21 de agosto de 2010

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Justiça - finalmente?

Ruben de Carvalho (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 23 de julho de 2010

Tardarão ainda seguramente alguns anos até que aquilo que, educadamente, designaremos por trapalhada do Parque Mayer esteja definitivamente resolvida. Mas quem a tem tido como sombrio pesadelo não pode deixar de se regozijar com a recente sentença que anulou o essencial do problema.

Parece inteiramente defensável que, concluído tudo isto, alguém se dê ao trabalho de passar a escrito e em linguagem acessível ao público todas as vicissitudes do que se configura como um dos maiores escândalos contemporâneos da sociedade portuguesa, na qual, desafortunadamente, eles nem sequer têm sido escassos. E isto não tanto para exclusivo registo histórico, mas essencialmente porque há lições a extrair.

Uma primeira é que, conformados com a ideia de que será ainda mais o tempo que exigirá que todos os homens sejam sérios e sensatos, para evitar tais situações a única forma de assegurar normalidade e seriedade na gestão urbana e dos solos é a planeamento urbano rigorosamente cumprido em todas as suas instâncias.

Não é aceitável que duas zonas da cidade com a dimensão, centralidade e importância do Parque e do antigo Mercado Geral de Gados/Feira Popular tenham chegado ao século XXI sem um plano de pormenor (o do Parque Mayer, finalmente elaborado, está na fase final do seu processamento). Existissem tais instrumentos e jamais teria sido possível esse puro e simples embuste de trocar os condicionados terrenos do Parque por um inconcebível valor de €1200 o metro quadrado, enquanto ao de Entrecampos se atribuiu o de cerca de €900, o que significa que a Bragaparques fez a espantosa permuta de receber 3m2 de terreno livre por cada 2 do Parque! Parque que adquirira por 10 milhões de euros e vendeu assim, após alguns anos, por cerca de 55 milhões de euros, um lucro líquido de uns 45 milhões!

Se os Planos de Pormenor existissem é evidente que as condicionantes e possibilidades de cada um dos terrenos estariam definidas e condicionariam racionalmente o seu valor - o que de resto deitaria completamente por terra o nebuloso negócio. O facto de a sentença em epígrafe ter igualmente anulado a inconcebível hasta pública que presenteou a Bragaparques com a outra metade do terreno de Entrecampos põe termo a episódios de todo o tipo que oscilam entre o puro cambão e o aparecimento de documentos (a famosa 'carta' do 'direito de preferência') que nem de duvidosos podem ser classificados. Para não recordar esse espantoso caso de uma escritura feita apressadamente em 24 horas... Ou o facto de, enquanto a CML ter arcado com milhões de euros de prejuízos para indemnizar os antigos feirantes mais os compromissos com a Colónia Balnear Infantil de "O Século", a Bragaparques ter continuado durante anos a extrair vultosos rendimentos do parqueamento no terreno do Parque Mayer que obrigatoriamente deveria ter libertado!

A segunda conclusão que parece indispensável extrair é a de que a memória faz muita falta. E, neste caso, a memória recordará aos lisboetas que todo o negócio agora anulado foi desenhado e aprovado na CML e na Assembleia Municipal de Lisboa pelos eleitos do PPD/PSD, do Partido Socialista, do CDS/PP e do Bloco de Esquerda sendo deveras esclarecedores e nada edificantes os insultos que dessas bancadas foram então dirigidos aos eleitos do PCP e de Os Verdes, os únicos que há meia década disseram que tudo era o que era, o levaram aos tribunais e os tribunais vêm hoje dizer que efetivamente era.

Texto publicado na edição do Expresso de17 de Julho de 2010

Vietname, Cabul e telemóveis

Ruben de Carvalho (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 25 de junho de 2010

A manifesta ausência de perspectivas de solução para os conflitos do Iraque e do Afeganistão têm tido um efeito colateral interessante: o processo simultâneo de reescrita da história acerca da derrota americana no Vietname, desenvolvida aliás em dois sentidos: um, perigosamente mais virulento e de pressão sobre Obama vindo da área republicana, crescentemente manietada pela fanática direita religiosa, neoconservadores e adjacências; uma segunda que não traz propriamente novidades, mas confirma factos e revela pormenores, traduzida nas reflexões autocríticas de homens directamente envolvidos na escalada dos anos 60.

Os meios em jogo são desproporcionados. Do primeiro lado, uma absoluta predominância da extrema-direita na comunicação social, qualquer coisa que faz parecer o Citizen Kane - ou o sr. Hearst... - perfeitos aprendizes... Sendo de referir que o argumentário nem sequer é particularmente imaginativo: no essencial, pretende-se que militarmente os marines tinham o Vietname ganho e foram apunhalados pelas costas pelos políticos... Conhece-se o arrazoado, desde a França e sua direita em 1870, a Alemanha e a sua direita nazi na década de 20 do século passado e até podemos recordar a nossa direita doméstica e o 25 de Abril.

Quanto à reflexão que o tempo impôs a homens como McNamara ou McGeorge Bundy, o mais interessante é ver confirmado o que a esquerda e o bom senso não se cansaram de repetir durante a tragédia indochinesa.

O caso de McGeorge Bundy é, no fundo e na forma, particularmente curioso. As 300 páginas de "Lessons of a Disaster: McGeorge Bundy and the Path to War in Vietnam" não são propriamente um livro de memórias. O conselheiro em assuntos de defesa de Kennedy e Johnson não é directamente o autor: em 1995, revela a NYRB, e com 76 anos, Bundy iniciou o trabalho com um jovem colaborador (Gordon Goldstein, o efectivo autor de "Lessons") para ordenar os seus documentos e sistematizar as suas memórias com o desígnio de os passar a livro; desapareceu um ano depois, sem completar a publicação, mas Goldstein prosseguiu o trabalho produzindo uma interessante obra que acaba por ser um misto de memórias autobiográficas e análise política e historiográfica.

No horizonte estão, naturalmente, os assustadores paralelos com o Afeganistão e o Iraque, a absoluta consciência assumida pelos homens que há meio século caminharam para o Sudeste asiático de que é impossível ganhar militarmente guerras com as comuns características do Vietname e dos teatros actuais.

Como sublinha William Pfaff na interessante reflexão que faz sobre o livro, Goldstein acabou por fazer do índice da obra a síntese das conclusões que nela encerrou e é incontornável reflectir muito em particular sobre o capítulo V quando se pensa nessa criminosamente patética figura de George W. Bush: "nunca recorrer a meios militares para atingir objectivos indeterminados".

A riqueza mineral descoberta com pouco convincente novidade poderá, como sugestivamente se afirma no Pentágono, fazer do Afeganistão "a Arábia Saudita do lítio", de que tanto precisam os obsessivos telemóveis. Só que foi na Arábia Saudita que começou o 11 de Setembro.

rubencarvalho@mail.telepac.pt

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Junho de 2009

'Ataque'? Mas de quem?!!

Ruben de Carvalho (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 21 de maio de 2010

Na comunicação ao país em que, in absentia física do PSD e Passos Coelho e anunciada comunhão espiritual e funcional de ambos, o primeiro-ministro anunciou o que é seguramente o mais brutal ponto da violenta ofensiva contra os portugueses sofrida nas últimas três décadas, foi feita uma afirmação que, na sua brevidade, merece alguma reflexão e permitirá alertar para sempre iludidos problemas.

Defendendo o já indefensável PEC, disse José Sócrates que "o Governo deu o seu melhor (!!) para que esse ajuste fosse feito sem aumento de impostos", "mas a verdade é que o mundo mudou, e de que forma, nos últimos quinze dias, com um ataque sobre as economias da zona euro. No último conselho europeu, o que fizemos foi tomar medidas para combater a mais séria ameaça de sempre à zona euro".

O tom de pânico não é original. A sra. Merkel advertiu, segundo as agências, que "se o euro falhar, então fracassará a Europa e será o fim da ideia da unidade europeia", acrescentando (sem ironia, supõe-se) que a União Europeia está a viver "a maior prova de fogo desde o desmoronamento do comunismo no leste do continente" (sic).

O dr. Durão Barroso é até mais conciso e anuncia que, dada a situação gerada por este "ataque", esta "prova de fogo", esta "crise", os países da zona euro poderão perder soberania sobre a elaboração dos seus orçamentos, caso seja aprovada uma proposta da Comissão Europeia que visa alinhar as políticas orçamentais dos Estados-membros com os objectivos políticos (?) da União.

Sem nenhuns eufemismos ou cuidados especiais, o que este conjunto de discursos (ampliado por tudo quanto imprime e transmite) destaca é que a Europa em geral e alguns dos seus países em particular estão a ser atacados. Esse ataque é o responsável pelo agravamento da situação anterior que era a crise. Esta vinha, por um lado, dos Estados Unidos e devia-se, por outro, a umas obscuras trapalhadas financeiras porque eram responsáveis alguns (poucos...) banqueiros que, infelizmente, tinham entre nós uns imitadores que, de forma ignota, se haviam alcandorado no BCP, BPP, no Banco Português de Negócios, além de também negociarem com sucatas.

Com inquestionável verosimilhança, sustentada na ciência militar, este ataque incidirá sobre a Grécia, Espanha e Portugal por serem os 'elos fracos' da cadeia europeia.

Face ao ataque, a D. Merkel faz ressoar trombetas, o dr. Barroso ameaça - e o eng. Sócrates faz tudo: sobe impostos, corta regalias sociais, diminui ordenados - isto para começar. E anuncia que, em matéria de desemprego, as coisas ainda vão piorar (escusava de dizer, as receitas preconizadas são para tanto seguras), bem como que temos para, pelo menos, mais dois anos deste massacre.

Há, entretanto, aqui uma pergunta que se impõe: mas, afinal, e além do como e do para quê, quem é que nos está a atacar?!!!!

A resposta, já se vê, é clara e servida pelos próprios: são os mercados! A especulação. Isto é: o dinheiro. O capital. O lucro. O sistema. O capitalismo.

Assim - percebe-se melhor. E, identificado o atacante, permita-se a conclusão que fazer o jogo dele não é seguramente a melhor defesa. Face a ataques, não é o que Sun Tzu ou Clausewitz aconselhariam. Para não citar outros autores.

rubencarvalho@mail.telepac.pt

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Maio de 2009

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