Há cerca de 31 anos que Roman Polanski
é considerado fora da lei pela polícia de Los Angeles. Um dos grandes mestres do cinema europeu que Hollywood acarinhou e elevou a alturas novas, Polanski fugiu dos Estados Unidos em 1978 após ter sido condenado por actos lascívos cometidos com uma menor de 13 anos.
Samantha Geimer, a mulher que ao tempo fez a queixa crime e que hoje é mãe de 3 filhas, obteve a nível privado uma indemnização do realizador e já repetiu em diversas ocasiões que gostaria de ver o assunto encerrado.
Desde 2005 que a Suiça tem conhecimento de que o mandato de captura americano se mantinha em efeito. Não ficou ainda claro porque decidiu agir agora.
Roman Polanski é proprietário de uma casa na estância de inverno de Gstaad mas até agora nunca havia sido interpelado pelas autoridades suiças, daí não ter hesitado quando o festival de cinema de Zurique lhe pediu que comparecesse a receber o Golden Eye, o maior prémio do certame.
Entretanto, em Los Angeles, a porta voz da procuradoria referiu que a detenção do realizador nunca deixou de constar da agenda de trabalhos, mas que o fugitivo nunca fora capturado até agora porque conseguira evitar sempre os países com quem Washington acordou o retorno de pessoas procuradas pela lei.
De facto, quando há uns anos atrás Polanski processou a revista Vanity Fair por danos morais causados na sequência de um artigo publicado, os seus depoimentos foram recolhidos em Paris e enviados via satélite para Londres, onde decorria o julgamento. Por causa dos acordos de repatriamento entre os EUA e o Reino Unido,o realizador estava ciente de que seria um erro deslocar-se a Inglaterra.
Debra Winger lança lume
A actriz Debra Winger, que se encontra actualmente em Zurique presidindo ao júri do festival de cinema, mostrou-se chocada com o facto de os serviço suiço de controlo de fronteiras ter acedido ao pedido do procurador geral do condado de Los Angeles, descrevendo o arranjo secreto entre um e outro como "conluio filistino tendo por base um caso legalmente moribundo sustentado por pormenores técnicos".
Ao tempo, num acordo assinado entre Polanski e a polícia de LA, o realizador admitiu formalmente a sua culpabilidade e aceitou, não só o cumprimento da pena de prisão mas que lhe fossem feitos variadíssmos testes psicológicos. O realizador argumenta que a sentença imposta foi cumprida, dado ter passado mais de 40 dias num estabelecimento correccional da Califórnia. Depois disso, alega, não teve outra solução que não fosse escapar a forças policiais e judiciais que todos os dias se tornavam mais imprevisíveis na gestão da queixa crime.
Um documentário do canal televisivo HBO, estreado em 2008 com título Roman Polanski: Wanted and Desired, mostrou como o juíz encarregue de guiar o processo, Lawrence Rittenband, foi ensaiado pessoalmente pelo procurador geral que liderava a acusação, em violação clara dos direitos do arguido.
Lockerbie-Tripoli parte 2?
Depois do colapso da banca americana, os governos dos Estados Unidos e a Suiça têm andado numa guerra fria no domínio dos segredos bancários. Submersa pela maior crise financeira desde que há memória, a nova classe dirigente em Washington exige acesso ilimitado às contas pessoais de quem esteve envolvido na derrocada de Wall Street, mas a indústria bancária concentrada em Zurique alega que o princípio do sigilo deve ser protegido por se tratar de um pilar central na confiança financeira mundial.
Tem-se especulado que, perante a pressão exercida pela Casa Branca, a polícia helvética tenha decidido apaziguar os ânimos oferecendo a detenção de Polanski como prova de boa fé e compromisso possível.
Tanto Polanski como Debra Winger são de origem judaica e, cada um à sua maneira, verdadeiros enfants terribles simbólicos de uma época em que o expressionismo individual era mais valorizado que os resultados obtidos nas bilheteiras. Os dois triunfos de Polanski nos Estados Unidos, A Semente do Diabo e Chinatown, lidam com temas de crueldade intimista, opressão social e corrupção institucionalizada, todos eles labirintos que o indivíduo tenta descodificar desesperadamente com a ajuda de princípios morais pouco adequados às circunstâncias. O primeiro filme aludiu à violação demoníaca de uma mulher inocente e, no segundo, o drama vem sob a forma de incesto e da ganância generalizada.
Protestos europeus
A França, através do ministro dos negócios estrangeiros Bernard Kouchner, já enviou um pedido de clemência à ministra da defesa americana, Hillary Clinton. A Polónia também já reagiu negativamente à detenção.
A ministra da justiça suiça, Eveline Widmer-Schlumpf, declarou que a polícia de fronteiras no aeroporto de Zurique não tem por hábito descriminar e que, se havia um pedido de detenção vindo dos Estados Unidos, o corpo policial só podia mesmo manter-se neutro e dar seguimento aos trâmites normais de uma convenção assinada entre dois países. Os Estados Unidos têm agora 60 dias para pedir formalmente a entrega do prisioneiro. Polanski encontra-se actualmente numa cela individual, isolado 23 horas por dia.