12/02/2012 atualizado às 15:51
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Risco de caída na recessão mundial divide os economistas

A expressão inglesa "double-dip", ou recaída na recessão depois de uma tímida retoma, voltou a aquecer os debates na comunidade dos economistas e dos analistas. A fractura nas opiniões é manifesta.

Jorge Nascimento Rodrigues (www.expresso.pt)
10:22 Terça feira, 13 de julho de 2010

Os sinais dados pela realidade são manifestamente contraditórios. Os "bons números" surgem nos noticiários de abertura, mas logo os "maus números" enchem os títulos de última hora.

O crescimento mundial deverá ficar acima de 4,5% garantiu o Fundo Monetário Internacional  (FMI) na semana passada. Espera-se que o comércio internacional aumente entre 9 e 10%. E consta que há mais de 3,3 biliões de dólares (triliões na designação anglo-saxónica) de "excedentes" à roda do mundo "parqueados" à espera de boas aplicações.

Mas o nervosismo dos mercados bolsistas - com dias de derrocada frequentes em Junho - e dos mercados de derivados, a crise da dívida soberana em diversos países da Europa, um quase escondido cenário mais "pessimista" do FMI temendo uma recessão na Europa e quase estagnação nos Estados Unidos em 2011, as dúvidas sobre o que irá ocorrer com as "bolhas" e a mudança de modelo económico na China e o disparo na cotação do ouro (com a onça, na semana passada, a mais de 1200 dólares) engolem rapidamente a metade "simpática" dos títulos optimistas dos noticiários.

Medo mata mais


A última tentação pessimista responde pela expressão inglesa double-dip - ou seja, recaída na recessão, depois de um período de retoma a seguir à primeira fase mais dramática e prolongada de depressão. Não é, ainda, uma constatação, mas um temor.

Os números do FMI afastam essa hipótese para 2010 (4,6% de crescimento mundial, 3,3% de crescimento nos Estados Unidos, 6,7% nos tigres asiáticos, 6,8% de crescimento nos países emergentes e 1% na zona euro, o "ciclista" junto ao carro-vassoura). Mas, em períodos de crise, a psicologia mata mais do que os números finais de um semestre.

Os curiosos pela história económica das grandes crises recordam, agora, o caso anterior de 1937-1938, quatro anos depois do fim oficial da Grande Depressão. A previsão pessimista é que algo similar possa ocorrer agora, para os mais pessimistas, já neste segundo semestre de 2010.

O Expresso foi ouvir, por isso, cinco economistas separados por fusos horários diferentes e com filiações no pensamento económico distintas. O resultado é diversificado - a comunidade de economistas e analistas está literalmente fracturada.

Encontrámos nas respostas três campos de opinião.

O pecado da finança


O campo do "sim" - a recaída é um risco sério, mesmo que seja difícil predizer a data de concretização. Para a professora Carlota Perez, reconhecida especialista mundial em revoluções tecnológicas e ciclos económicos, uma recaída recessiva estará sempre no horizonte enquanto os decisores mundiais "não entenderem que esta crise não é um acidente que se consegue resolver apenas com mais política monetária e regulação, mas sim um corte estrutural que exige uma separação radical entre o mundo da finança e o da economia real".

Por seu lado, o investigador americano Mark J. Lundeen, que no site Gold Eagle (http://www.gold-eagle.com/research/lundeenndx.html ) tem estado a fazer uma comparação diária entre a evolução desta Grande Recessão, desde o seu começo em 2007, e a Grande Depressão dos anos 1930, é ainda mais pessimista: "A questão não é se vai haver ou não uma recaída - ela é inevitável. Mas quanto tempo durará e quanto mais sofrerá o mundo até que os decisores comecem a discutir como liquidar a "má" dívida que nos envolveu nestes últimos 40 anos". Lundeen é pelo fim das fianças aos prevaricadores, e pela sua bancarrota (incluindo as dívidas soberanas que devem ser reescalonadas ou reestruturadas), mesmo que isso resulte numa situação de deflação massiva - é preferível isso, diz ele, "à hiper-inflação e aos caos económico e geopolítico que resultará inevitavelmente das actuais políticas".

Política monetária como salvação


Pelo "não" está o gestor de fundos Bill Whiterell, economista-chefe global da Cumberland Advisors que a partir da Florida aconselha aplicações financeiras em todo o mundo. "Isso é de todo improvável!", exclama, e acrescenta: "mesmo nas economias desenvolvidas". "Não prevemos que esta desaceleração a meio do ciclo se deteriore ao ponto de se transformar numa recessão, quer neste segundo semestre como no próximo ano", diz-nos. Confia que "as políticas monetárias continuarão a "acomodar-se" quer nos EUA como na zona euro ou no Japão. Provavelmente as taxas de juro de curto prazo manter-se-ão próximas de zero nos próximos doze meses".

Um terceiro campo recusa o "sim" e o "não" à pergunta. Em suma, não se pode falar de recaída - já que nem sequer se saiu da recessão iniciada em 2007 no mundo industrializado, argumenta-se. "Não se pode falar de double-dip, quando ainda nem saímos do single-dip. Penso que temos continuado a estar numa situação consistentemente negativa. Sou muito céptico, em particular, em relação aos números oficiais americanos", ironiza David Caploe, economista-político chefe do EconomyWatch, em Singapura.

Um "L" em vez de um "W"


Continuando com a ironia, Caploe rejeita um desenho em "W" para a evolução desta crise que uma recaída traria. O que vai ocorrer, vaticina, é um longo "L", em que a "cauda" pode ser muito comprida. O tamanho desta "cauda" depende da China. O analista de Singapura considera que os governantes chineses têm actuado com inteligência face à crise, mas "resta ver como um grupo aparentemente coeso como este conseguirá enfrentar um militantismo sindical crescente que tornou o anterior modelo económico obsoleto".

O consultor e autor americano Peter Cohan recorda que nem o organismo americano que oficialmente data o começo e o fim das recessões, o National Bureau of Economic Research, decretou, ainda, o fim da recessão para os Estados Unidos. Pelo que prefere não falar de nova recessão. Cohan admite, em breve, uma desaceleração económica "mas não tão má que se transforme em crescimento negativo". Esta desaceleração poderá advir do que se vai passar na Europa: "Não ficarei de todo surpreendido que o crescimento mais lento - ou mesmo declínio económico - ocorra na Europa, devido aos efeitos da consolidação orçamental".

Cinco destaques

"Se os chineses conseguirem evitar o colapso das suas bolhas imobiliárias merecem uma medalha" - Carlota Perez

"A nível global, ao fim de quarenta anos, chegámos a um ponto em que os nossos activos se transformaram em passivo. É insustentável" - Mark J. Lundeen

"Excepto para os membros altamente endividados do Club Med na zona euro, políticas de austeridade significativas no curto prazo não são desejáveis com uma retoma mundial permanecendo tão fraca" - Bill Witherell

"Os chineses, pelo menos, parecem ter um plano - algo que sinceramente não vejo nos Estados Unidos, na Europa ou no Japão" - David Caploe

"O medo de um colapso na zona euro é suficiente para motivar a redução dos défices. Mas resta ver se uma dose massiva de euro-thatcherismo gerará prosperidade" - Peter Cohan

Artigo adaptado da edição impressa de 10/07/2010

 

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obviamente que sim
JPCA (seguir utilizador), 1 ponto , 12:10 | Terça feira, 13 de julho de 2010
A adopção de medidas contraccionistas vai naturalmente levar a nova recessão. Os abutres do deficit vão conseguir realizar as suas profecias.

O importante saber as causa desta segunda recessão, nomeadamente da cega adopção de politicas fiscais restritivas.

Quanto a cenários "tradicionais" de hiper inflacção ou sobreaquecimento da economia, penso que estes cenários estão postos fora de causa no momento actual.

Como sempre os profetas da desgraça como a SRª Perez são capazes de ver o Apocalipse num mero eclipse solar

 
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Jorge N Rodrigues (seguir utilizador), 1 ponto , 15:46 | Terça feira, 13 de julho de 2010
Que fazer?...
afonso aguiar (seguir utilizador), 1 ponto , 17:37 | Terça feira, 13 de julho de 2010
Economicamente,vivemos hoje com duas concepções opostas que dificultam a concretização das virtualidades politicamente correctas:do pleno emprego,do igualitarismo de género e de etnia e da longa esperança de vida medicamente e por afins assistida.Enfim... Uma sociedade plena de liberdade e felicidade duradora crescente(utopicamente progressista e dependente da vontade humana).

Dizendo de outro modo,para haver actividade económica motivadora e abrangente dinamizada por um Estado ou pela iniciativa privada ou pelos dois,que interessa a todos,dado que possibilita maior vida empresarial,mais empregabilidade e maiores receitas para os erários públicos,é necessário investimentos públicos e/ou privados e consumo generalizado.

Nos moldes tradicionais,sem as virtualidades ou utopias referidas no primeiro parágrafo,o que interessa é enriquecer(acumular riqueza)sem se saber bem como em termos morais(o que põe em causa os princípios da transparência e do respeito pelo outro).
Logo,para esta perspectiva o principal é poupar e o equilíbrío financeiro,o que reduz a actividade económica com consequências nefastas globais que essa opção acarreta.

Hoje,o dinheiro(ou papel)já não tem o mesmo fundamento objectivo que teve no passado,tornou-se virtual.

Logo,não se pode só pensar e agir tradicionalmente,se queremos manter as virtualidades referidas.

Teremos de dar mais atenção aos recursos financeiros que advêm da organização viável de recursos humanos e materiais concretizáveis.
 
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tamosfritos (seguir utilizador), 1 ponto , 0:08 | Quinta feira, 15 de julho de 2010
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