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Revivalismo religioso... de outro tipo

Vivemos e disseminamos hoje, cristãos e muçulmanos, um revivalismo religioso de uma outra espécie. Aquele que deixou ir embora a essência, e que prefere agora glorificar e adorar a forma.

Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
17:00 Terça feira, 19 de janeiro de 2010
Crónicas de uma Muçulmana - Revivalismo religioso... de outro tipo
Faranaz Keshavjee

Fui a Roma e visitei o Vaticano. Não vi o Papa. Gostava de ter tomado um chá com Bento XVI. Perguntar-lhe se já o tomou com muçulmanos. Isto é, se os conhece bem, se convive com eles...? Ou, se conhece as sociedades muçulmanas e o que dizem sobre a sua fé. Porque falar do respeito pelo ser humano e pelo imigrante, como fez na passada semana a propósito da lei italiana a vigorar a partir do próximo mês de Fevereiro, e lembrar que Jesus olhava para todos como seres humanos, é bonito e é verdade; e fica bem dizer. Mas melhor mesmo é conviver com eles, para se aprender sobre esse Outro, e respeitá-lo, integrando a sua diferença, deixando cair os preconceitos. Não é fácil. E não é fácil nem para os próprios muçulmanos. Os preconceitos devem ser desconstruídos na escola e na formação comunitária. É preciso trabalharmos neste sentido.

A visita ao Vaticano deixou memórias fabulosas, da riqueza e sumptuosidade, dos frescos de Miguel Ângelo e Rafael, da arte como projecção de poder, ou da arte como contestação desse mesmo poder e corrupção. Não se sai igual do Vaticano do que quando se lá entra.

Uma das questões que mais me inquietou foi o porquê de o Vaticano ter aberto as portas ao grande público há uns 20 anos atrás? Qual seria a sua agenda religiosa, politica ou cultural? No Reino Unido, a Rainha Elizabete II abriu as portas do Palácio de Buckingham em Londres numa altura de crise da monarquia - uma crise financeira e outra social. Vivia-se o momento pós- falecimento de Diana - a Rainha do Povo - a excomungada pela monarquia britânica. E o povo estava revoltado contra a instituição monárquica. Que crise, se é que existiu alguma, servira ao Vaticano para se dar a conhecer em todo o seu esplendor, riqueza e poder?

Esta mesma questão levou-me a reflectir sobre os revivalismos religiosos na contemporaneidade. Em toda a visita ao espaço de poder e monarquia papal, Jesus nunca apareceu! Bem, há umas imagens... mas o culto é ao seu representante: em "islamês" chamaríamos os seus califas, com estado e tudo, com leis próprias, etc, e com sabedoria religiosa e portanto, os papas são califas-ulama. E é daquele lugar santo para o cristão católico apostólico romano que saiem as leis que regem a vida religiosa e mundana do crente em qualquer parte do mundo. Encontro analogias interessantes com os ayatollahs, os mullahs, e os ulama - todos sacerdotes muçulmanos que acabam por influenciar o poder estadual de governos muçulmanos, mas localmente.

Para os que advogam a separação que a cristandade fez entre Estado e Igreja, o Vaticano representa um poder muito interessante no mundo católico, predominantemente europeu. De lá não se ditam as leis, mas sim a ética que orienta o crente, mesmo em contextos seculares. Recomendo a este respeito, um interessante estudo apresentado no Herald Tribune sobre a forma como a Alemanha Cristã controla e subalterniza a mulher e o seu papel na sociedade há mais de 500 anos! Afinal, todos temos telhados de vidro...

Pelos corredores sumptuosos do Vaticano procurei o meu querido e amado Jesus. O místico e sufi, que se vestia de trapos de algodão e partilhava o seu pão com os que precisavam, e protegia e enaltecia a mulher, colocando-a a seu lado, em todas as circunstâncias da sua existência? Estava ali, pequenino, na cruz, no meio de santos e cardeais grandes e gordos, de colunas e pinturas, de ouros, de sacerdotes mumificados, e outras riquezas materiais.

Tal como o poder e a lei preponderam sobre um estado dentro de outro estado - o italiano - o poder papal e a sua centralidade assemelha-se àquilo que muçulmanos e não muçulmanos chamam de "Islam". O conceito aparece umas 7 vezes no alcorão, e Deus (Allah) umas centenas de vezes. Se os católicos se esqueceram de Jesus, o fundamento de uma grande fé civilizacional, os muçulmanos e o resto do mundo também se esqueceram de falar de Deus, ou Allah - a Luz que orienta o muçulmano na sua Jihad-e-Akbar - a batalha da busca do seu Eu mais profundo.

Vivemos e disseminamos hoje, cristãos e muçulmanos, um revivalismo religioso de uma outra espécie. Aquele que deixou ir embora a essência, e que prefere agora glorificar e adorar a forma.


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*A Salaam significa paz

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Revivalismos
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 3 pontos (Bem Escrito), 18:14 | Terça feira, 19 de janeiro de 2010

Todas as religiões, sem excepção alguma, pretendem conquistar o seu espaço de poder, destruindo os poderes instituídos para poderem depois elas assumir o lugar que ficou vago, institucionalizando-se, cristalizando-se, formalizando-se.

Todos os saudosismos e revivalismos de glorificações religiosas mais não são do que a escolha de uma forma sobre outra.

No fundo, todas as religiões e todas as tendências religiosas dentro de cada religião reclamam o direito à essência, quando, no fundo, todas elas, sem excepção pretendem instituir e glorificar uma forma.

A forma específica que se considera a única, a verdadeira, a autêntica, a que tem a benção de Deus.

Por isso, deixe-se de discursos bem intencionados. As lições da História são evidentes: quando uma forma se substitui à outra, depressa se privilegia o Ter e o Estar sobre o Ser.

Não importa nada o que seja ou tenha sido o Ser. Essa essência depressa se transformará num qualquer Ter e num qualquer Estar... Normalmente, Bem-Estar!

Qual é a religião que não aspira ao poder e ao controlo da mentalidade das massas?

Apetece citar: "O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente".

Conhece alguma religião que não seja totalitária? Que não imponha discursos absolutos? Que não deseje controlar os actos, os pensamentos, as palavras e as omissões dos seus fiéis? Porque têm uma natureza totalitária, todas as religiões erguem a bandeira das grandes essências e mandam-nas às malvas quando chegam ao poder!
 
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    Re: Revivalismos    Ver comentário
Kinikós (seguir utilizador), 2 pontos , 16:52 | Quarta feira, 20 de janeiro de 2010
    Re: Revivalismos    Ver comentário
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 23:51 | Quarta feira, 20 de janeiro de 2010
Cara Drª Faranaz Keshavjee
Miranda07 (seguir utilizador), 3 pontos (Bem Escrito), 22:01 | Terça feira, 19 de janeiro de 2010
Gosto de saber que foi a Roma e visitou, presumo, os museus do Vaticano. Tenho pena que não tenha podido assistir a uma bela Liturgia, p.ex. em S. Pedro, e nessa mesma ocasião talvez, podido escutar o Papa, seguir suas profundas reflexões sobre os temas da ordem do dia ou, sobretudo, sobre a Palavra de Deus proposta na Liturgia. De resto, o facto de não ter tomado chá com o Papa não me impressiona nada; o Papa escuta-se, não se bebe. Claro, se um dia tiver oportunidade de ser recebida em audiência por este ou outro Papa, tudo bem. Mas lembro-lhe que nada disso tem importância se o essencial, palavra sua, ficar de fora. E o essencial no Papa e nas estruturas que o apoiam, incluindo as do Vaticano, não é o esplendor que diz ter visto (eu acho museus em Paris, Londres e Berlim ainda mais esplendorosos do que os museus Vaticanos, apesar de estes, para mim, serem os museus mais interessantes do mundo), mas sim a Mensagem que lá, e a partir de lá tantas vezes, se difunde: a mensagem, que é testemunho, de que Deus nos ama todos como filhos e filhas e de que em Cristo todos temos um coração que nos acalenta. Claro, eu sei que é muçulmana e, sim, eu também gostaria de um dia tomar chá consigo. Quem sabe, talvez seja mais fácil eu tomar chá consigo (pode ser no Nicola, se achar bem) do que a Drª Faranaz tomar chá com o Papa. É que as nossas serão agendas normais, por mais ocupadas que estejam; a do Papa é Universal. Mas escute-o e verá como o que ele diz e ensina é bom e proveitoso!
 
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    Também andas no chá????    Ver comentário
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 12:13 | Quarta feira, 20 de janeiro de 2010
Não é fácil nem para os próprios muçulmanos
CondestavelXXI (seguir utilizador), 3 pontos (Bem Escrito), 15:41 | Quarta feira, 20 de janeiro de 2010
Salaam Aleikum Sra Keshavjee,
A sua frase que coloco em título, a propósito de "parole, parole, parole" do Papa sobre o respeito pelos imigrantes, sugere a ideia de que os muçulmanos são mais abertos e tolerantes ao convívio com imigrantes (apesar de nem para eles ser fácil).
Não tendo dados concretos sobre isso permito-me duvidar que assim seja pois se em estados laicos como os da Europa a "ética que alimenta o crente" e o não crente (acrescento eu) constitui o obstáculo que todos conhecemos, não posso compreender que num estado teocrático islamico monolitista possa haver maior abertura para conviver com diferenças de cultura, de credo, de sexo, de tendência sexual, etc., etc.
Quanto a chá, encontro uma diferença irreconciliável entre ambas as religiões: os clérigos católicos só estão autorizados por Deus a tomar chá de videira enquanto que imagino que a Sra só esteja autorizada por Allah a tomar chá de menta. Dizem-me que Deus é o mesmo que Allah, mas eu acho que apesar de tudo Deus é mais generoso nem que seja só por esse detalhe.
E que tal um chazinho de humanismo secular que é bem mais suave? :)
 
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As Sandália do Pescador
Kinikós (seguir utilizador), 2 pontos , 0:14 | Quarta feira, 20 de janeiro de 2010
Faranaz Keshavjee:
Mesmo sabendo que não me vai ler, dirijo-me a si através do seu maravilhoso artigo.
Sou seguidor de Jesus, católico e muito pouco romano.
Apetece-me começar assim:
Para nós, os seguidores de Jesus, há muito que morreu o Vaticano e a sua cúria de homens vestidos de vermelho morando bem perto do Santo Ofício.
Sabemos que por ali não anda o meu querido Jesus de Nazaré, crucificado pelos doutores da lei precisamente por andar com os escorraçados da sociedade, por ter entre os seus mais fiéis seguidores as mulheres, essas que ainda hoje o seguem mas são impedidas de exercer o serviço sacerdotal que certos habitantes daquele Estado declararam, sem fundamento algum teológico, ser só atribuição dos homens!
É claro que a Faranaz nunca chegará a tomar chá com ele. A agenda dele está sempre muito preenchida!
Se ali passeasse Jesus, sem dúvida que era Ele a convidá-la. Mas a Faranaz só viu cruzes e Cristos crucificados. Ali nunca poderia ter visto Jesus ressuscitado, aquele que apareceu, em primeiro lugar, às mulheres e só depois aos homens. Ele sabia que só as mulheres são capazes de ver o invisível.
Nos, os seguidores de Jesus, sendo católicos, esperamos o fim daquilo tudo!
Sonhamos, como Morris West, esperando o dia em que o bispo de Roma largue os seus sapatos Prada e calce as sandálias, as Sandálias do Pescador!

Obrigado, irmã muçulmana.

Um Jesuânico, heterodoxo como ele, o Senhor Jesus.
 
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A história
caprylm56 (seguir utilizador), 1 ponto , 20:03 | Terça feira, 19 de janeiro de 2010
Diz-nos que esta serviu para dominar povos, a fé numa crença do sobrenatural de onde já se cometeu crimes contra a humanidade e ainda hoje se comete.
 
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A minha religião
JCCC (seguir utilizador), 1 ponto , 21:00 | Terça feira, 19 de janeiro de 2010
Só os mais vulneráveis de espírito poderão ser subjugados à força da religião.
Saber filtrar o que nos transmitem com base no nosso
sentido ético e moral é o maior bem que podemos possuir.

De tudo o que vivenciamos retiramos ensinamentos. Depende só de nós filtrar e aplicar de forma construtiva o que aprendemos e sabemos.

Não sou praticante de nenhuma religião nem tão pouco um aprofundado conhecedor de toda a sua história.
Conheço o essencial para saber que todas elas foram e são instrumentos/armas poderosas na mão de muita gente que as usou/usa para e pelos piores motivos.

Fui baptizado pela Igreja Católica aos 3 meses de idade. Isso não foi determinante na minha formação, foi apenas o cumprir de uma tradição.
Dos ensinamentos de Jesus retiro tudo o que de positivo transmite e separo-o daqueles que referi anteriormente. Faço-o com Ele, assim como com todos aqueles que professarem o positivismo que Ele me transmite.

O Vaticano é um dos locais que quero visitar por motivos essencialmente históricos, mas gosto de visitar qualquer igreja em qualquer localidade.
o que mais aprecio é o respeito que, apesar de tudo se sente naquele local. Prefiro fazê-lo especialmente numa hora de pouco movimento, precisamente para me sentar, apreciar o silêncio e descansar do ruído exterior.
Funciona comigo, não será assim para todos os que a frequentam, mas ela, a igreja, assim como a religião existe para a usarmos com elevação. ...
 
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JCCC (seguir utilizador), 1 ponto , 21:02 | Terça feira, 19 de janeiro de 2010
Deus
boblingem (seguir utilizador), 1 ponto , 22:55 | Terça feira, 19 de janeiro de 2010
Na Verdade nao entendo porque existem Religioes se Deus e so um.Depois tambem nao entendo porque razao o Papa teria que beber cha Consigo quando nem sequer se encontrava numa Mesquita Pais Mulcumano ou algo do Genero.Sempre respeitei ao que as Pessoas se agarram seja a Deus ,Ala,Buda,etc,mas nao percebo porque tentam convencer as Pessoas que a Religiao deles e que presta e a dos outros e malefica.Uma certeza tenho embora tambem nunca tenha chegado a um concenso e nem compreenda tais Atitudes,ex:queimam Bandeiras doutros Paises Fotos de outros Presidentes e podem ofender todos que pra Eles sao do mal e por ai fora como ja se tornou do conhecimento Publico e quando alguem diz ou faz como aconteceu com as Caricaturas do Moame vindas da Holanda ou as declaracoes normais de Mourinho sobre um Seu Atleta chingam ameacam tentam matar e por ai fora.A Senhora Vive num Pais Mulcumano?se Vive sabe bem como funciona a Lei do Ala nao sendo preciso fazer nenhum Desenho pra perceber o quanto o Povo tem Direitos sao respeitados em Especial Pessoas do Seu sexo.Penso que perdeu uma boa oportunidade pra enaltecer Sua Religiao dar a conhecer o que de bom existe se existe e no fim acabou por ser igual a Voces proprios.As Religioes pra mim so tem servido na maioria dos casos pra limitar as Pessoas e ser causadora da maioria das Guerras que existiram e existem Hoje em Dia,por isso penso que ficou bem claro a Ideia que tenho sobre as Religioes.
 
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Jesus no Vaticano?
José Telhado (seguir utilizador), 1 ponto , 23:10 | Terça feira, 19 de janeiro de 2010
Díz a nossa comentadora que não encontrou Jesus no Vaticano e eu também não encontrei Allah na Kaaba. Nem em MECA nem em Medina. Porque será?

Nem Jesus está na cruz porque ressuscitou, nem o seu amado Allah está na pedra ( meteorito) incustrada na Kaaba de Meca.
 
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Cara Faranaz K.
papadk (seguir utilizador), 1 ponto , 0:29 | Quarta feira, 20 de janeiro de 2010
A Sra. visitou o Vaticano ,sem problemas e ate admirou as obras de arte ai existentes. E uma sortuda , ao contrario da minha amiga e compatriota Nina A. Rasmussen.. Esta sra. ,hoje de 68 anos e depois de uma longa vida como escritora e globetrotter . Visitou a America do Sul de mota , assim como a Asia num Citroen 2 cavalos e sempre escrevendo livros. Sempre desejou visitar Mecca e Medina para assistir ao Hajj . Para isso teve de converter e arranjar um atestado de muculmana.. De volta escreveu um livro muito interessante # Pilgrim i Meccaa # onde ela descreve a condicao da mulher na peregrinacao e descreve a discriminacao dos africanos negros muculmanos . Esta Sra sempre foi agnostica e continua agnostica. Cumps.

       
 
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