Na semana passada disse aqui que a revisão constitucional proposta pelo PSD não serve para nada senão para oferecer a Passos Coelho o espaço político necessário para mediaticamente se afirmar como reformista. Como isso, disse então, Passos Coelho conseguia firmar a sua imagem e conseguia pressionar o CDS a definir a sua estratégia política face ao PSD.
De facto, de uma assentada, não necessariamente como efeito indesejado, Passos Coelho conseguiu que a esquerda se juntasse em coro, coisa que há muito se não via entre Bloco, PCP e PS. O Bernardo Pires de Lima
, por exemplo, considera isto um erro. Não posso concordar. Que melhor forma de anular o voto no CDS se não pelo fantasma de uma esquerda unida e imobilista, que ainda por cima vai cheirar a Manuel Alegre e ao seu lirismo durante os próximos meses? Que melhor forma de surgir como reformista senão, precisamente, pela demonstração de que Sócrates e Louça e Jerónimo estão afinal de acordo no essencial?
Mas na semana passada procurei igualmente alertar para o facto de a proposta de revisão constitucional do PSD se destinar tão simplesmente a criar um espaço mediático e não necessariamente a iniciar um verdadeiro processo reformista. Neste momento, joga-se para a aparência e para o mediatismo e não vale a pena procurar o que não existe na revisão constitucional proposta pelo PSD.
De qualquer forma, de um ponto de vista da análise política, vale a pena reflectir sobre o que é que, em concreto, o PSD fará para honrar a proposta aparentemente reformista que apresentou. E aquilo que tem sido a actuação do PSD, de voltas e contravoltas, deixa muito espaço para duvidar da capacidade reformista do PSD. Não porque isso possa não estar na mente de Passos Coelho, mas tão simplesmente porque o PSD, um partido altamente dependente (e saudoso) do Estado não o deixará.
É por isso que, ao contrário do que tantos pensam, o papel do CDS neste momento é bem maior do que deixar-se enredar nas teias mediáticas de Passos Coelho. A estratégia do CDS deverá antes passar, precisamente, pela afirmação de que o reformismo consequente, que sai do papel e se traduz em medidas concretas, está no CDS. O CDS não deve, por isso, aparecer atrasado ou mais moderado ou menos atrevido que o PSD. Antes pelo contrário, o CDS tem de ir à frente no arrojo. Em suma, o CDS tem de fazer nascer no eleitorado de direita a convicção de que sem o CDS no governo, o projecto reformista vai parar ao mesmo lugar do choque fiscal prometido por Durão Barroso: à gaveta.