E cá temos o Douro à nossa esquerda, a sua também esquerdina margem à beira desta bela EN 222 que nos traz de Peso da Régua. Ficamos a meio caminho do Pinhão, numa povoação chamada Folgosa, pertencente ao concelho de Armamar. E sem mais folgança parqueemos no D.O.C. (Degustação de Origem Certificada), restaurante arrimado ao rio, como não poderia deixar de ser. Tudo isto é novo e radica no facto de Rui Paula, chefe cozinheiro que já se vinha notabilizando no restaurante "Cepa Torta" de Alijó, e seu irmão Pedro Cardoso terem ganho a concessão de aluguer, por parte do Instituto Portuário de Transportes Marítimos (embora aqui se trate de fluvialidade), do cais da Folgosa. O restaurante, inaugurado em Abril de 2007, conta com a óbvia esplanada no alongado convés sobre o Douro - do lado de lá, na margem direita, Covelinhas e seus patamares de vinhas. De arquitectura moderna, a imensa parede de vidro do salão restaurativo traz-nos a paisagem até ao prato, a instalação está confortável, luminosa, de assentos cómodos e mesas espaçosas e muito bem aparelhadas. Pormenor para curiosos, de quem não tem nada a esconder: através dum ecrã gigante de televisão pode-se ir observando o que se passa na cozinha.
A lista divide-se em 11 Entradas, 6 Peixes, 6 Carnes e 1 Vegetariano. Existem um Menu Gourmet (€60), um Menu de Azeite (€45) e um Menu de Vinho do Porto (€80, com vinhos incluídos). Logo à leitura ressaltam a variedade das matérias-primas básicas (as carnes, por exemplo, contemplam vitela, porco, cordeiro, cabrito, pombo e pato), a originalidade de alguns acompanhamentos e combinações, um estilo inovador sem perder de vista os produtos e as raízes regionais.
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| Produtos e raízes regionais não são aqui esquecidos. |
| Rui Duarte Silva |
Vejamos as obras: "Chamuça de alheira" (€7): resultou bem no continente e no conteúdo, na companhia de cogumelos salteados (podia era ser um bocadinho maior). "Asas de pintada com vieiras" (€10): os moluscos a saberem algo ao caril em que saltearam, interessante aproveitamento dos membros da fraca, presença forte de bons cogumelos e singulares rebentos de "sakura". "Tutano no osso" (€12): extraída a medula (o osso da vitela só comparece como ornamento), vai saltear com legumes e acaba no forno a gratinar; vem acomodado numa massa de pão azeitadinha, em forma de canoa ou telha; mais uma vez os referidos rebentos brilharam (e aqui está um sabor a terra, sem ser preciso fazer o "destilado de terra" da chamada cozinha molecular). "Creme de espargos com vieira, azeite de trufa branca e ravioli de cogumelos" (€12): à parte a comparência de ovas duns peixes misteriosos a que os produtores têm o atrevimento de chamar "caviar avruga", a sopa é honesta, abastada e o tal azeite dá-lhe um toque especial.
Nos "milhos de moluscos com algas do mar e rodovalho" (€22), a criatividade a dar outro conteúdo, com berbigão, amêijoa e lingueirão, aos milhos transmontanos, a aconchegarem, ainda com um puré de brócolos, o peixe salteado e fornejado, num conjunto diferente e harmonioso. Mais milhos, desta vez cozinhados com carne de porco de vinha d'alhos, aliados a deliciosas ervilhas-de-quebrar, mais um pé de manjericão na botoeira, a constituírem o feliz "cachaço de porco bísaro com milhos" (€22). Apurado e em feição, digamos, tradicional, o "cabritinho e seus miúdos" (€23), estes no respectivo arroz e também batatas salteadas e grelos. O bem executado arroz cremoso num tachinho próprio, cenoura, cebola e "courgette" estufadas a servirem de trono ao saborido parreco, eis o "risoto de cogumelos com perna de pato confitada" (€22).
Depois de um eficaz limpa-palato (gelatina de meloa, espuma de abacaxi e folha de hortelã), aborde-se qualquer um dos 9 doces. Não deixarei de referir a conjugação afortunada da "trilogia" (€12): "soufflé de limão", "zabaione" de vinho do Porto tawny, gelado de amêndoa tostada, com cálice do mesmo Porto. Carta de vinhos opulenta, com as informações requeríveis: além de assinaláveis 26 vinhos a copo, 226 tintos, mais 25 garrafas magnum, 60 brancos, 13 verdes brancos (8 Alvarinhos), 10 espumantes e 15 champanhes. Serviço simpático, como se dizia na militança a rolar sobre esferas, tudo a fluir em tempo curto e competência certa.
Conquanto limitado a esta única experiência, foi suficientemente representativa (um terço da lista) para poder concluir pelo completo domínio técnico de Rui Paula, pela sua criatividade sem pirotecnia, pelo seu bom gosto, por saber arejar as raízes quando julga necessário. Ele, o seu irmão (responsável pelos vinhos) e toda a equipa tornam o D.O.C. de visita imprescindível.
D.O.C.
Estrada Nacional 222
Folgosa (Armamar)
Tel. 254 858 123
(Aberto todos os dias)