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Restaurante De Castro Elias: De tripeiro a alfacinha

Petiscos vários no novo espaço lisboeta do conhecido chefe Miguel Castro Silva, que rumou do Porto para a capital.

José Quitério (www.expresso.pt)
0:01 Quarta feira, 9 de dezembro de 2009
À mesa com José Quitério - Restaurante De Castro Elias: De tripeiro a alfacinha
Nuno Botelho

No percurso da Av. Elias Garcia, desde a esquina com a Av. da República ao final desembocante na Av. Marquês Sá da Bandeira - um pequeno passeio sombreado como outro qualquer -, vão-se encontrando, dum lado e doutro, cinco restaurantes, um restaurante-cervejaria, um snack-bar, uma leitaria, três pastelarias e um café. O que nos interessa agora é a antepenúltima porta (Nº 180-B) do lado direito antes do ângulo com a Marquês Sá da Bandeira, o muro dos jardins da Gulbenkian em fundo. Aqui funciona, desde o princípio de Setembro passado, o restaurante De Castro Elias, no mesmo local onde existiu o Mal de Amores.

Relembre-se rapidamente o trajecto profissional do conhecido e reconhecido chefe de cozinha Miguel Castro e Silva (n. 1961). Abriu o seu primeiro restaurante numa quinta na Maia, já na cidade do Porto surgiu em fins de 1995 o Restaurante do Miguel, a que se seguiu nos primeiros meses de 1997 o Bull & Bear. Em Novembro de 2007 fundou igualmente o BB Gourmet, voltado para a petisqueira e precursor, por assim dizer, dos agora divulgados de baixo custo (às vezes não tão baixo como isso). Pois bem (ou mal), embora consolidado e consagrado na capital do Norte, Miguel, por divergências de objectivos com os outros sócios, saiu dos restaurantes no final de 2008, abandonou a cidade e assentou arraiais nesta Lisboa que é de todos em Fevereiro deste ano. Diz que a capital o acolheu bem e, como chegou à conclusão que é essencialmente um cozinheiro e não um empresário, aceitou a proposta de parceria com os amigos detentores do espaço desta agora nova casa, primeira aventura restaurativa alfacinha que pode ser rampa para outras.

Albergando à volta de 36 lugares, a sala é um festival de brancura com as comodidades necessárias. A lista de comidas aposta decisivamente nos petiscos, alguns deles já testados no BB Gourmet. Numericamente, está repartida em 8 Para Debicar, 3 Frios, 5 Saladinhas, 2 Quentes, 6 Peixes e 7 Carnes mais 2 Bifes.

Debiquemos. "Codorniz de escabeche" (€2,90): o passarito praticamente desossado dá o que pode no escabeche demasiado sólido. "Moelas em molho picante" (€3,90): abundantes, nada rijas, agradáveis até pelo picante moderado. "Morcela da Beira com cebola" (€3,90): lâminas de maçã e de cebola salteadas a fazerem companhia à morcela da Guarda, de grande qualidade. "Iscas do cachaço de bacalhau" (€3,80): em formato de papos-de-anjo quadrados, sem farinha a não ser a do polme da fritura, comeram-se com agrado. Dos Frios, a "tortilha clássica" (€4,90), que felizmente veio quente, só batata, ovo, cebola e tomate, a clamar por mais sal e um conduto cárnico. Saladinhas e Quentes ficaram em branco.

O "bacalhau à Brás" (€9,80) tinha o que tinha de ter, o ovo conseguia a envolvência, correspondeu ao paradigma. As "amêijoas com feijão-manteiga" (€12,40) são um clássico do Miguel, amêijoas cristãs numa junção fora do vulgar mas que resulta muito bem. Boa opção para fugir à epidemia do "à lagareiro", o "polvo no forno com batata a murro" (€12,50) ostentou bondade, além da batata anunciada couve branca salteada a dar a nota contrastante. Os "pezinhos de coentrada" (€6,80) foram o desastre das duas jornadas, uma paparoca filamentosa sem relevância sápida nem sequer a graça complementar do pão frito. De realização altamente positiva em todos os seus elementos, a "perna de pato, batata salteada com cebola e cogumelos" (€12,20) mai-lo cheirinho a alecrim. Também com ridentes batatinhas, saiu-se airosamente a "alcatra de vitela assada com couve à antiga" (€8,90).

Há queijo da Serra amanteigado ou curado (€5,60): provados meio por meio, nenhum no ponto indicado, todavia razoáveis. Um quarteto de doces, com destaque para o "toucinho do céu com sorvete" (€3,90), este de framboesas. Carta de vinhos com datações e a preços sensatos, mas tamanhinha: 15 tintos, 12 brancos, 4 verdes e 2 espumantes. Serviço jovem e esforçado.

Sem pôr minimamente em causa as capacidades técnica e criativa de Miguel, não posso deixar de lembrar que no âmbito da petisqueira portuguesa há coisas que só alcançam o seu esplendor feitas com a metodologia clássica, em que as modernas cozeduras em vácuo e similares são insuficientes para atingir o desiderato palatal que enforma o colectivo património gustativo. De resto, é óbvio que Lisboa só tem a ganhar com esta viragem alfacinha de Miguel Castro e Silva.


De Castro Elias
Av. Elias Garcia, 180-B
Lisboa
Tel. 217 979 214
(Fecha Domingo todo o dia e 2ª ao jantar)

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009

 

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