13/02/2012 atualizado às 10:29
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Restaurante Clara Chiado: Clarear

José Quitério (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 17 de fevereiro de 2010

Restaurante Clara Chiado: Clarear
 
Largo Rafael Bordalo
Pinheiro, 27 - Lisboa
Tel. 213 431 267
(Fecha sábados ao almoço e domingos)

Ao cimo da Rua Serpa Pinto, entre o Carmo e a Trindade, o Largo Rafael Bordalo Pinheiro (antes de 1913 Largo da Abegoaria) tem que ver e que evocar. No topo norte, o singular edifício oitocentista com a frontaria revestida de belos azulejos polícromos, simbólicos e alegóricos, do mesmo autor - Luís Ferreira - dos que cobrem as paredes interiores da Cervejaria Trindade. Na extremidade sul do lado poente, no prédio onde agora se lê "Atlanco - trabalho temporário, recrutamento e selecção", existiu durante largas décadas o estabelecimento comercial Barbosa & Costa, mas o que é historicamente relevante é que antes ali funcionou o Casino Lisbonense, palco, em 1871, das famosas Conferências Democráticas, ou Conferências do Casino, levadas a cabo pelos mais brilhantes espíritos da época (Antero de Quental, Eça de Queirós, Adolfo Coelho e outros) e que acabariam por ser proibidas sob a acusação beata de que atacavam a religião e as instituições estatais. Dois grandes edifícios constituem o lado nascente do largo. Interessa-nos agora o que faz esquina para a Rua da Trindade. Indo imediatamente ao assunto específico desta página, porque é pelo nº 27 que se entra no restaurante Clara Chiado, com loja de vinhos e espaço de degustação no rés-do-chão, conduzindo as escadas interiores ao 1º andar em que está o restaurante propriamente dito. Acresce, e nunca a evocação foi tanto a propósito, que neste mesmo 1º andar viveu desde 1883 até à morte, em 23 de Janeiro de 1905, o genial caricaturista, ilustrador e ceramista Rafael Bordalo Pinheiro, que dá o nome ao largo - atesta-o o olisipógrafo Gustavo de Matos Sequeira (Norberto de Araújo indica outro local), confirmou-mo o museu do artista (Campo Grande, 382).

Está-se muito bem nas duas salas (uma para fumadores) interligadas e idênticas, num cenário minimalista de quietude alvinegra: tecto, paredes e panejamentos brancos, candeeiros, mesas (espaçosas) e cadeiras (cómodas) pretos, soalho flutuante, luminosidade conveniente.

Além duma sopa e dum prato de variação diária, a lista propõe 6 Entradas (incluindo 1 sopa), 4 pratos de Peixe (lulas, bacalhau, salmão e polvo), 7 de Carne (3 bifes, magret de pato, entrecôte, carré e costeletinhas de borrego) e 2 Massas (vegetarianas ou quase). Na primeira abordagem (jantar de 7/01/2010), a oferta estava mais limitada, pois não havia os preparados de borrego. A "sopa de ostras com massa folhada" (€7,50), muito cremosa, talvez com natas a mais mas sendo perceptível o sabor dos moluscos, pecou por vir inicialmente fria. "Pataniscas de bacalhau" (€5) correctíssimas, incorrectamente acompanhadas por couve crua sem tempero. Queijo derretido (pareceu Azeitão) numa taça assente num prato com fatias de broa à volta, eis o sumaríssimo "queijo gratinado e pão de milho" (€10). Saindo para os pratos principais, o "arroz de polvo" (€12), do dia, esteve caldoso e apurado. O recheio revelou-se inadequado e os cefalópodes apresentaram-se grelhados e não guisados nas "lulas recheadas com curgetes, molho de navalheira e puré de coentros" (€15). Boa companhia e carne não despicienda no "bife Clara Chiado" (€22,50), todavia a anunciada nota complementar de foie gras veio em forma de corriqueiro pâté de fígado de aves. Bem melhor correu o almoço de 14/01/2010. "Presunto de Barrancos" (€10), que afinal era de Mação, porém de notória qualidade, aliás em vésperas de certificação. Conforme ao que dele se espera o "polvo de vinagrete com salada" (€6). Absolutamente potável o "bacalhau com broa e legumes salteados" (€17), embora a couve lombarda não pareça ser aqui o vegetal mais apropriado. Bastante bem o "carré de borrego com molho de framboesas, hortelã e batatinhas" (€30, 2 p.), o gosto específico da carne caldeado com os do fruto e da erva aromática.

Há "buffet de queijos" (€10) e meia dúzia de doces que dão conta do recado. Robusta carta de vinhos, com tudo datado e indicação geográfica: 94 tintos, 25 brancos, 5 verdes brancos (2 Alvarinhos). Serviço aprumado e amável.

António Clara é um profissional da restauração que tem passado a vida ora em Portugal, ora no Mónaco, ora em França. Por cá, fundou o modesto Os Balões, depois o luxuoso Clara, onde esteve de 1980 a 1983, seguindo-se até ao fim da década de 90 o Clube dos Empresários. Após mais oito anos de Mónaco regressou e, com a sua filha Natália, inaugurou este belo Clara Chiado em Outubro de 2009. Boa sorte.


Texto publicado na edição da Única de 13 de Fevereiro de 2010

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